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Escrever é perigoso.

Érika Bazilio

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Woody Allen e os relacionamentos

As lições que aprendi com um neurótico e seus personagens no cinema.


woody-allen_6.jpg Woody Allen, um gênio cercado de polêmicas e de personagens neuróticos. Mas de perto quem não é?

Como Woody Allen pode ajudar o seu relacionamento? Difícil entender. Afinal você nunca aceitaria conselhos de um homem que se envolveu com a filha adotiva de sua mulher. Mas, em todo caso, seus filmes podem ensinar a você a fazer exatamente o contrário de seus personagens.

Woody Allen é um Chico Buarque às avessas ou um Didi Mocó intelectualizado. Seus personagens são capazes de discursar sobre Freud, Kafka, o cinema alemão ou o expressionismo na pintura no final do século XIX, mas são incapazes de entender as mulheres e as sutilezas e refinamentos de um relacionamento a dois. São homens com alma de menino procurando sempre o colo da mãe judia repressora e superprotetora, me perdoem o pleonasmo.

Por que nos apaixonamos por eles? Nos encantamos por suas mentes brilhantes e pelo senso de humor, esse afrodisíaco para o cérebro. Mas não se enganem, a maioria deles é chave de cadeia.

Quem resistiria à lábia de um Javier Bardem em Barcelona? Nem a Scarlett Johansson. Mas foram só uns dias de convivência com o gajo para descobrir a relação neurótica com a ex(?)mulher. Duas falas sintetizam a loucura desses dois personagens:

“É engraçado. Maria Elena e eu somos feitos um para o outro e não feitos para estarmos juntos. É uma contradição. Para entender, é preciso ser um poeta, como meu pai, porque eu não consigo”. Juan Antonio (Javier Bardem)

“Nosso amor é eterno, mas não dá certo. É por isso que será sempre romântico, porque não pode ser completo.” Maria Elena (Penélope Cruz)

Javier Bardem e Penélope Cruz em Vicky Cristina Barcelona (2008).

Outro filme delicioso é Annie Hall (1977). A tradução em português é horrorosa, mas perfeita: "Noivo Neurótico, Noiva Nervosa". Allen faz Alvy Singer, um dos mais brilhantes comediantes de Manhattan, mas no que diz respeito ao amor, ele precisa de prática.

Apresentado pelo seu melhor amigo, Rob (Tony Roberts), a uma divertida cantora de clube noturno, Annie Hall (Diane Keaton), ele fica completamente apaixonado, mas as suas inseguranças acabam estragando a relação, fazendo com que Annie o troque por outro.

Ao descobrir que poderá ter perdido Annie para sempre, Alvy está disposto a tudo, até superar suas paranoias e dirigir pelas autoestradas de Los Angeles, para reconquistar seu amor.

O famoso diálogo em "Annie Hall" (1977). Os dois conversam sobre um assunto, enquanto pensam em coisas completamente diferentes.

Em 1979, ele faz o filme que é quase uma predição de seu futuro amoroso, Manhattan. Um escritor de meia-idade divorciado que se sente apaixonado por uma jovem de 17 anos, a linda Mariel Hemingway, ainda cheirando a leite. Tracy, a personagem de Mariel corresponde a este amor, mas em seguida Isaac (Allen) sente-se atraído por uma pessoa mais madura, a amante do seu melhor amigo, que é casado.

Com a desilusão amorosa, Tracy decide passar uma temporada em Londres. O novo romance de Isaac não dá muito certo e ele tenta reatar com Tracy dizendo: "Olha, eu cometi um grande erro. Não quero que você vá para Londres". Ela diz: "Mas já está tudo combinado, não posso voltar atrás agora. São apenas seis meses". "Seis meses?! Você está brincando! Seis meses é tempo demais. Você vai conhecer gente interessante, é um outro mundo. Daqui a seis meses você vai ser uma pessoa completamente diferente", diz Isaac. Ao que ela responde: "Você precisa ter um pouco de fé nas pessoas". E ele olha com aquela cara para a câmera...

Woody Allen e Mariel Hemingway em Manhattan (1979)

É, eu sei, chega a dar raiva de Allen. Para terminar esse texto, reproduzo o diálogo entre Isaac e seu melhor amigo, que é quase a fala-síntese do filme: "Tudo para você se transforma em problemas morais. Pare de querer ser Deus". Ao que Isaac responde: "Eu tinha que mirar meu comportamento em alguém".

Se você, portanto, reconhecer um desses personagens na vida real, fuja enquanto é tempo. Os neuróticos são mais interessantes no cinema.


Érika Bazilio

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