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Escrever é perigoso.

Érika Bazilio

Gostaria de viver para escrever.
Por enquanto vai escrevendo para viver mesmo

Charles Eisenstein e a revolução do amor

Prepare-se para um tipo diferente de revolução. Em que não existem inimigos e nenhum mal a ser combatido. Todos serão convocados para atender a um chamado único.


charles.jpg Eisenstein, o homem que propõe uma revolução “revolucionária”

Há algumas semanas, escrevi neste espaço um texto sobre o trabalho desde o advento do capitalismo. Nunca um texto meu tinha gerado tanta polêmica. Nem o que escrevi sobre Woody Allen na mesma semana em que chegou a público a carta da filha adotiva de Mia Farrow. Além de comentários, algumas pessoas fizeram réplicas e tréplicas. Me senti uma Rodrigo Constantino às avessas. No caso, a esquerda caviar era eu.

esquerda_caviar.jpg "Esquerda Caviar", o livro do polêmico colunista da Revista Veja

A reação das pessoas me chamou atenção e depois de refletir cheguei à conclusão óbvia, estava pisando em um campo minado. Como todos sabem, podemos falar sobre tudo, menos futebol, política ou religião. Esses três assuntos geram pano pra manga. Meu texto não tinha nenhuma intenção política, apenas questionava as consequências sociais do sistema econômico vigente.

É claro que escrever um texto é se posicionar politicamente. Independente de partido. Basta citar o dramaturgo e poeta alemão Bertolt Brecht, em seu famoso poema “O Analfabeto Político”, que nos mostra que a política está por trás de tudo que fazemos.

brecht.jpg Brecht, mais do que um homem do teatro, um homem político

"O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política.

(...)

"Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar. É da empresa privada o seu passo em frente, seu pão e seu salário. E agora não contente querem privatizar o conhecimento, a sabedoria, o pensamento, que só à humanidade pertence."

Esta semana um amigo me apresentou um vídeo em que um homem magro, com voz sensata propõe uma espécie de revolução “revolucionária”. Uma batalha sem inimigos e nenhum mal a ser combatido. Em que todos serão convocados para atender a um chamado único.

Esse homem chama-se Charles Eisenstein, um americano de 47 anos, formado em Matemática e Filosofia, e autor de “Economia Sagrada”, um livro que traça a história do dinheiro desde economias antigas até o capitalismo moderno, revelando como o sistema monetário contribuiu para a alienação, competição e escassez, arrasando comunidades, para atender a exigência de um crescimento sem fim.

A Revolução é o amor, com Charles Eisenstein (Occupy Movement)

Hoje, essas tendências chegaram ao colapso e é neste momento, segundo Eisenstein, que temos a oportunidade de fazer a transição para um modo de vida mais unido, ecológico e sustentável:

"Não adquirimos nada daquilo que nos mantêm realmente vivos ou que tornam a vida boa: nem o ar que respiramos, nem o sol que nos aquece e dá vida. Em algum nível da consciência, as pessoas sabem disso e têm essa gratidão inata. Sabemos que isso não se compra, assim como sabemos que não compramos o nosso nascimento e nem a nossa concepção. Sabemos que a vida é um dom. E se é um dom, a resposta natural é a gratidão."

O que Eisenstein propõe é muito maior do que uma luta de classes. Ou uma guerra entre situação e oposição, socialistas e capitalistas. Trata-se de não aceitar as injustiças por causa de um sistema econômico. O que vejo nas redes sociais é uma disseminação do ódio, uma troca de farpas entre dois grupos bem distintos: a direita e a esquerda. E isso é só o lado superficial da história.

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Hoje existem representantes assumidamente de direita, cujo maior expoente é o jornalista e escritor Olavo de Carvalho, autor de “O Imbecil Coletivo”; o jornalista das estrelas, já citado acima; e o colunista Reinaldo Azevedo. Os dois últimos escrevem no veículo preferido desse público: a Revista Veja. Já no lado esquerdo do ringue, defendendo os ideais libertários e socialistas estão figuras como a jornalista Cynara Menezes, do blog Socialista Morena; a ensaísta e ativista Ivana Bentes e, é claro, um dos maiores ídolos dos esquerdistas na liderança de um governo, José Mujica, Presidente do Uruguai.

Existem muitos outros representantes, cada um com seu ponto de vista, e esse número só aumenta. Acredito que é preciso defender uma bandeira, mas até que ponto esses ideais são importantes frente a uma crise social que não para de crescer? Você quer mesmo pagar só pra ver quem estava certo?

Quando o movimento Occupy Wall Street surgiu contra a desigualdade econômica e social, a ganância, a corrupção e a indevida influência das empresas – sobretudo do setor financeiro – no governo dos Estados Unidos ninguém questionou ou chamou os manifestantes de comunistas. Como prega Eisenstein, o problema é muito mais embaixo e pouco importa o lado, só não dá pra gente continuar dando as costas.

Ou como diz outro vídeo do Occuppy Movement: “Amor é o que aparece quando oferecemos nosso rosto ao outro”. E isso, sabemos há exatos 2014 anos, não é uma tarefa nada fácil.


Érika Bazilio

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