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Érika Bazilio

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"The Lunchbox", o filmaço indiano que não tem dancinha

Bollywood dá a vez a um roteiro intimista, um pouco claustrofóbico e romântico na medida certa. O diretor Ritesh Batra acertou no tempero da massala.


the-lunchbox-nawazuddin-siddiqui12.jpg Irrfan Khan, um senhor ator nesta bela produção indiana

Quando uma amiga me chamou para ver o novo filme indiano que tinha estreado no cinema, fiquei receosa. “Hummm... indiano, não sei não... Tem dancinha?”. Desde “Slumdog Milionaire” (Quem Quer Ser um Milionário?), vencedor do Oscar de melhor filme em 2009, fiquei com um pé atrás. Aquela overdose de otimismo, atuações um pouco acima do tom, o exagero dos recursos cinematográficos para passar dramaticidade e, para completar, a dancinha. "Slumdog" é um filme britânico, dirigido por Danny Boyle, o mesmo de "Trainspotting", mas é todo filmado na Índia, com atores indianos, a partir da adaptação de uma obra indiana.

dancinha.jpg A dancinha em "Quem Quer Ser um Milionário?", homenagem à Bollywood

Em “The Lunchbox” ocorre justamente o contrário. O filme é delicado, minimalista, a começar pelos atores. A atuação do maravilhoso Irrfan Khan, que também participou de “Slumdog” e “As Aventuras de Pi” (2012), lembra algumas vezes a de Anthony Hopkins em “The Remains of the Day” (Vestígios do Dia), de tão contida, econômica e elegante. Ambos homens solitários de meia-idade, redescobrindo o amor e a capacidade de se emocionar, frente ao medo, à indecisão e ao pudor.

remains_of_the_day.jpg Anthony Hopkins com Emma Thompson. Atuação quase cirúrgica em "Vestígios do Dia" (1993)

Aliás, impossível não associar “The Lunchbox” a outro clássico interpretado por Hopkins: "84 Charing Cross Road", (Nunca Te Vi, Sempre Te Amei). Nesse filme de 1987, uma escritora americana (Anne Bancroft) se corresponde durante vinte anos com o gerente de uma livraria especializada em edições raras e esgotadas (Hopkins).

nunca te vi.jpg "Nunca Te Vi, Sempre Te Amei", o romance epistolar mais famoso do cinema

Já em “The Lunchbox”, o mote para a correspondência entre os dois personagens principais é a comida, no caso, uma marmita que é entregue errada. Ou como diz o site de divulgação do filme:

“Os Dabbawallahs de Mumbai são uma comunidade de 5.000 dabba entregadores (de marmita).

A Universidade de Harvard analisou o sistema de entrega e concluiu que a possibilidade de uma marmita ser entregue em um endereço errado é de uma em 1 milhão.

Este filme é a história exatamente dessa marmita.”

Na trama, Ila (Ninrat Kaur), sente o marido cada vez mais distante e tenta reconquistá-lo pelo estômago, com a ajuda dos temperos da tia, que mora no andar de cima, e que só conhecemos pela voz. Mas o serviço de entrega de marmitas de Mumbai, tão elogiado por Harvard, erra o destinatário e a marmita acaba chegando à Saajan (Irrfan Khan), um funcionário em fim de carreira, meio rabugento, que não se relaciona praticamente com ninguém desde a morte da esposa.

Por conta da entrega errada, os dois começam a se corresponder, tornando-se grandes confidentes. Ila fala da relação com o marido e com a filha, e do futuro que idealizou e hoje parece tão distante. Saajan fala de suas lembranças, de um tempo feliz que ficou para trás. O inevitável acontece, os dois se apaixonam. Mas quando você acha que o final vai ser previsível, o diretor-roteirista Ritesh Batra muda o rumo da história rompendo com um desfecho óbvio. “Eu queria que o filme terminasse nos corações e nas mentes dos espectadores”, revelou.

ila.jpg Ila (Nimrat Kaur), uma dona de casa infeliz no casamento, no filme de Batra

Batra é o expoente de um novo cinema na Índia, longe dos estereótipos de Bollywood (casamento dos nomes de Bombaim com a marca Hollywood) com seus musicais e exageros. Um olhar mais refinado e poético. Esse é seu primeiro longa depois de curtas que conquistaram milhares de admiradores em mostras internacionais.

Que venham mais filmes de Batra, que venha o novo cinema indiano. Que Bollywood vire uma espécie de Bombcannes, mas com o frescor e as cores da Índia. Um país tão próximo a nós brasileiros, com seus problemas, seus desejos de alcançar o poderio econômico das nações desenvolvidas, e a esperança de um povo sofrido que acredita em dias melhores.


Érika Bazilio

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