lady day

Escrever é perigoso.

Érika Bazilio

Gostaria de viver para escrever.
Por enquanto vai escrevendo para viver mesmo

Conceição e o Rio

Um conto de amor entre Rio e Salvador. E entre casquinhas de siri, caldo de sururu, e quadros de Carybé e Di Cavalcanti, porque como escreveu Nietzsche: “A arte existe para que a verdade não nos destrua.”


Carybé.-Mulata-velha.jpg Mulata Velha, Carybé, 1980

Esta história não começa no Rio, mas em Salvador. Carioca do Leblon, desses que têm sua banca de jornal e farmácia preferidas e o privilégio de olhar para o Cristo Redentor todos os dias, me vi de malas e um exemplar de um periódico fluminense nas mãos, no aeroporto internacional da capital baiana. Aquelas não eram férias normais. Trabalhando diariamente – e lá se vão 14 anos –, numa modesta repartição pública, acostumei a viver minha vida na condição de observador. É como se eu escrevesse minha própria história na terceira pessoa. Não seria capaz de mudar-lhe o rumo ou arranjar um clímax. Caminhava pela Dias Ferreira indiferente às lojas, às moças e à vida que corria solta nas ruas do bairro. Mas, por favor, agora corte a cena porque neste momento estamos em Salvador.

De calça jeans, camisa de manga comprida e sapatos com meia, sinto um calor insuportável. A roupa adere ao corpo como uma segunda pele. Por um instante, me arrependo de estar ali. Pego a saída principal em busca de um táxi. Um sujeito mulato, de camisa colorida, faz menção em oferecer o carro. Aceito a oferta e peço sugestões sobre algum bom hotel nas redondezas.

― O senhor está a trabalho ou de férias? Se veio a negócios posso indicar um excelente hotel para que aproveite o tempo de sobra da melhor maneira. Mas se o objetivo é se divertir, meu senhor, tanto faz o hotel, o que importa é a rua.

― E o que você indicaria como meio termo?

― Tem um hotel muito bom perto daqui. Fica coladinho de algumas das melhores atrações da cidade e ainda oferece o conforto que sua pessoa merece e que eu estou vendo que gosta — me disse, sorrindo de maneira generosa e enchendo de dentes o retrovisor.

di10.jpg Mulata em Rua Vermelha, 1960, Di Cavalcanti

Cheguei finalmente ao hotel, despedi-me do boa-praça e fiz o check-in. Um moleque de uns dezessete anos levou-me até o quarto e desejou-me boa estada. Não devia ter confiado naquele taxista. O único conforto do hotel eram o velho ar-condicionado, o chuveiro quase morno e a televisão com míseros cinco canais. Acostumado à variedade de canais da TV a cabo, achei melhor desligar o aparelho e apreciar a vista. O hotel era barato, mas a vista deslumbrante. Quadros de Carybé e Di Cavalcanti ganhavam vida à minha frente. Gente passando para lá e para cá num molejo convidativo. O burburinho daquele povo era contagiante e seria impossível permanecer no quarto. Troquei de roupa e desci à rua. Logo de cara avistei o restaurante que Valdir, o taxista, havia me indicado. Foi quando vi Conceição pela primeira vez. Devia ter uns vinte e três anos. A pele morena, o sorriso fácil, a roupa de um branco ofuscante e uma enorme faixa colorida no cabelo. Preciso me segurar para não cair no lugar-comum. Toda vez que falo de Conceição é assim. Deixo-me levar pela emoção e exagero nas tintas.

― Boa tarde! ― disse ela estendendo-me o menu. Fiquei em devaneios pensando em tudo que poderia fazer com aquela mulher, até que fui acordado de repente.

― Já sabe o que vai querer?

― O que você sugere?

― O sururu está ótimo e é uma excelente pedida de entrada.

Naquele momento eu aceitaria qualquer coisa que ela me oferecesse. Comi o sururu, a casquinha de siri, o bobó de camarão e uma cocada branca de sobremesa. Retornei ao hotel com o estômago contorcendo-se de dor, mas feliz por ter ganhado o primeiro sorriso de Conceição. Antes, porém, passei na farmácia e pedi o melhor remédio contra indigestão. Precisava ficar bom para voltar ao restaurante no dia seguinte.

Dessa vez cheguei um pouco mais tarde e fiquei em uma mesa mais reservada. Minha intenção era falar com ela num horário de menor movimento e convidá-la para sair. Ela poderia me mostrar a cidade, pois na verdade eu não saberia aonde levá-la. Nesse dia ela estava ainda mais bonita. Elogiei seu cabelo ao que fui correspondido com um largo sorriso. Era a deixa de que precisava. Depois de uma casquinha de siri e de duas cervejas, a indaguei sobre a possibilidade de me mostrar alguns pontos turísticos de Salvador.

― Você está me convidando para sair?

― Bom, acho que sim... A não ser que você não queira, é claro.

― Me encontra aqui às dezoito horas, quando termina meu turno.

di_036_serenata2.jpg Serenata de Di Cavalcante (1925)

Naquela tarde conheci Salvador e Conceição. Nos amamos entre visitas ao Farol da Barra e ao Pelourinho. Já tinha ficado com várias mulheres, mas nenhuma era como Conceição. A carne dura, mesmo nas regiões mais voluptuosas. O seu bumbum desafiava a gravidade e enchia minha mão de prazer e de orgulho. E um jeito manso e gostoso de fazer amor; sem pressa, saboreando cada pedacinho do corpo. Aprendi a amá-la como quem destrincha com cuidado um suculento siri. Mordiscava e beijava cada cantinho daquele monumento, me demorando especialmente na parte posterior de seus belos joelhos. As três semanas que fiquei em Salvador dediquei à Conceição. E assim a dedicaria minha vida.

Na véspera de minha volta ao Rio não fizemos amor nem trocamos muitas palavras. Durante todo o dia, ela me evitou. Queria ficar na minha companhia, mas não esboçava nenhum sorriso, como a me culpar por nossa separação. Quando a deixei no saguão do aeroporto, vi que chorava, mas também me deu um sorriso como o da primeira vez que nos vimos no restaurante. Durante o voo, sozinho, quem chorou fui eu. Senti-me feliz. Percebi com aquele choro que estava vivo; não era a mesma pessoa de há três semanas.

No Rio, frequentava a mesma farmácia, a mesma banca de jornal e a Dias Ferreira de sempre. Misturava-me com as pessoas na rua, pensando em Conceição todos os dias. Já fazia quatro meses que não tinha notícias dela. No final de setembro, recebi sua carta dizendo que estava vindo ao Rio. Uma amiga havia lhe arranjado um emprego em um restaurante baiano em Santa Teresa, e uma prima a abrigaria em sua casa.

Desde que chegou à cidade, Conceição só viu a prima uma vez. Eu retribuí a ela a visita a Salvador mostrando o Rio de Janeiro de minha janela. Agora, todas as manhãs, Conceição se espreguiça e se delicia olhando para o Cristo Redentor. Vira na cama, me dá um beijo, e a vida segue lá fora.


Érika Bazilio

Gostaria de viver para escrever. Por enquanto vai escrevendo para viver mesmo.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Érika Bazilio