lady day

Escrever é perigoso.

Érika Bazilio

Gostaria de viver para escrever.
Por enquanto vai escrevendo para viver mesmo

Mommy, as invasões bárbaras do novo cinema canadense

O diretor Xavier Dolan, com apenas 25 anos de idade e cinco longas no currículo, demonstra maturidade e faz um filme de gente grande.


maxresdefault.jpg Steve (Antoine-Olivier Pilon), o adorável garoto-problema que sofre de TDAH

Assisti a Mommy duas vezes. Na primeira, tomada de surpresa a cada cena, esperando ansiosa o que iria acontecer e torcendo fervorosamente – como torcemos em um romance novo –, para que o objeto do desejo não nos decepcione. Na segunda, me senti como o “motorista da rodada” em uma mesa de bar cercada de amigos. Aquele que observa sóbrio os companheiros embriagados e com os nervos à flor da pele. Nessa segunda vez dava para sentir a onda de emoção na pequena sala do Cine Museu da República, no bairro do Catete, no Rio. Na primeira, não pude ver nada, porque eu também estava naquela onda.

Mommy é cinema de verdade, daqueles que usam todos os recursos da tela grande. Brinca com o enquadramento e tem uma bela trilha sonora, cativante e libertadora, como nos bons filmes do diretor e ex-repórter da Rolling Stones, Cameron Crowe (Almost Famous e Jerry Maguire), que sempre soube usar muito bem a música.

Repare no formato da tela em boa parte da projeção, sufocante como o horizonte da mãe Diane (Anne Dorval) e do agressivo Steve, que tem um alto grau de Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). E como esse formato se alterna com a suposta mudança de sorte dos protagonistas. Quando isso acontece, o diretor canadense Xavier Dolan tem o apoio luxuoso da música para criar um momento único.

mommy.jpg

O longa ganhou o Prêmio do Júri no último Festival de Cannes e foi escolhido para representar o Canadá no Oscar, mas, surpreendentemente, não chegou à final dos indicados a melhor filme estrangeiro. Coisas do Oscar! Uma pena. Reduzido a um número pequeno de salas no Brasil, estivesse entre os indicados, com certeza ganharia novas exibições com a proximidade do evento. Mommy é um filme para se ver na telona com som Dolby Digital e compartilhando a emoção e o silêncio conjunto de uma plateia do cinema.

Que Dolan tenha uma longa vida criativa como seus conterrâneos Denys Arcand (As Invasões Bárbaras e O Declínio do Império Americano) e David Cronenberg (Gêmeos, Mórbida Semelhança, Spider e A Mosca), e nos presenteie com mais obras-primas.


Érika Bazilio

Gostaria de viver para escrever. Por enquanto vai escrevendo para viver mesmo.
Saiba como escrever na obvious.
version 3/s/cinema// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Érika Bazilio