lady day

Escrever é perigoso.

Érika Bazilio

Gostaria de viver para escrever.
Por enquanto vai escrevendo para viver mesmo

Asfixia

"As sirenes tocaram à noite sem parar. Todavia, pior que as sirenes, foi o navio que afundava, enquanto as cabeças das crianças explodiam", Ignácio de Loyola Brandão (Não Verás País Nenhum).


capa_asfixia.jpg (Foto Charles Tôrres)

Virou-se na cama, procurando uma posição para dormir. Não conseguia. Um calor asfixiante subia-lhe o corpo. Calor misturado com arrepio. Colocou a mão sobre a roupa e sentiu a camisa molhada. Estava com febre? Levantou, abriu a janela em busca de ar fresco. Nada. A noite imóvel. Só ele parecia estar acordado. Lembrou-se de um poema de Walt Whitman: “Sermões e lógicas jamais convencem. O peso da noite cala bem mais fundo em minha alma”.

Sim, com certeza era isso. O sol nascerá trazendo um novo dia, como em um daqueles belos sambas de Cartola. Afinal chega a manhã. Já era hora. Levanta da cama tentando se animar. Toma um banho. O terceiro no intervalo de cinco horas. Mas a sensação não o larga. A angústia no peito, a falta de ar. Será que estou infartando? Será isso que sentimos à beira da nossa morte? Não, não era possível. Estava com todos os exames em dia. Era um cara de sorte. Tinha um emprego razoável que lhe dava direito a plano de saúde.

Toma seu café sem açúcar. Engole o pão sem manteiga. Prefere as coisas assim. Ao natural. Sem artificialismos para mudar-lhes os gostos. Era um homem rude, simples, quase um sertanejo. Leu quando criança “São Bernardo” de Graciliano Ramos. Se identificou profundamente com o protagonista. Qual era mesmo o nome dele? Ah, sim, Paulo Honório. A memória não anda boa. Também esse calor derrete os nossos miolos.

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Espera o ônibus na esquina. A prefeitura disse que todos teriam ar-condicionado. Que nada. Diminuíram os ônibus. Gente que se aperta em gaiolas que mal se movem no trânsito. E esse metrô que não chega nunca? Vai ficar como legado para a cidade, dizem. Legado para quem? Não terá filhos, netos. Seus genes morrerão com ele. Melhor assim.

Desce na Presidente Vargas. Como faz calor nessa cidade. Já não era para ter terminado? Antes o Verão durava exatos 3 meses, ou 4. Não se lembra agora. Não se lembra de quando não era Verão. Do jeito que a coisa anda vamos ter que construir túneis, passagens subterrâneas refrigeradas.

Chega ao escritório. Tudo cansa. As pessoas cansam. O trabalho é chato, a cabeça viaja. Sonha com férias. Caribe, Aspen, Miami. Não importa. Qualquer lugar, qualquer carimbo no passaporte serve. Um ar diferente daquele e ficaria bem. Meio-dia. Sai para o almoço. O calor não dá descanso. Engole um sanduíche. Bebe uma Coca-Cola. Dizem que dá câncer. Não se importa. Pede outra.

Treze horas. Todos voltam ao trabalho. Ele também precisa voltar. Segue a fila indiana de pessoas sem vida, sem rosto, de cabelo esticado, de grifes da moda. Olha para baixo e observa os próprios sapatos. Estão terríveis. Precisa comprar um par novo no próximo pagamento. Deus, faça com que dê logo dezoito horas. Quero ir embora daqui, mas ir para onde? Se sente um estranho em casa, se sente um estranho em seu corpo.

De repente, todos no escritório levantam. Absorto em suas funções, mal reparou no relógio. As pessoas se despedem e saem. Farão tudo de novo, agora de volta para casa. Amanhã tem mais. Ele não quer mais. Está cheio, principalmente do calor. Vê seu ônibus chegando, mas não tem vontade de correr para pegá-lo. Prefere esperar outro. Serão mais 30, 40 minutos, com sorte. Está cansado. Senta-se no meio-fio. Só para recobrar as forças. Quem sabe não passa uma brisa?

Oito horas da noite e o sol não se põe. A calça gruda, o sapato velho pesa. Resolve ficar mais um pouco. A rua vai esvaziando. Pensa nas pessoas chegando em casa, vendo TV, comendo o que sobrou do almoço. Recostado a um poste sente as pernas dormentes. Uma lufada beija-lhe o rosto. Será que está delirando? O calor vai embora. Sente até frio. Recosta-se um pouco mais. O sono que perseguia há dias chega com todas as forças. Deita o corpo no chão. O asfalto antes quente parece agora uma placa de gelo. Finalmente o calor deu trégua, pensou. Dorme como um menino.

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*O nome deste conto é uma homenagem à escritora francesa Violette Leduc, cujo talento foi descoberto por Simone de Beauvoir. Infelizmente sua obra foi pouco traduzida para o português. L'Asphyxie é o título de seu primeiro romance, publicado em 1946.*


Érika Bazilio

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