lady day

Escrever é perigoso.

Érika Bazilio

Gostaria de viver para escrever.
Por enquanto vai escrevendo para viver mesmo

Bloco do eu sozinho

As desventuras de uma carioca que não gosta de Carnaval.


bloco-sargento-pimenta-no-carnaval-de-2012.jpg

"Deus é um cara gozador, adora brincadeira

Pois pra me jogar no mundo, tinha o mundo inteiro

Mas achou muito engraçado me botar cabreiro

Na barriga da miséria nasci brasileiro

Eu sou do Rio de Janeiro."

"Partido Alto", de Chico Buarque, é a música que melhor me define. Esta carioca que vos escreve, que não é lá muito fã de praia com um sol escaldante e deste calor que nos acompanha durante 300 dias por ano à sombra. Para completar, ainda tem o Carnaval.

O Carnaval pra mim sempre foi como aquele parente distante de quem não tinha muitas notícias, e que só veria se fosse visitá-lo em sua própria casa, no caso o Sambódromo ou em bailes fechados. Mas de uns dez anos para cá, esse parente se mudou para a porta de minha casa. Os blocos invadem as ruas onde circulo, os foliões lotam o metrô que pego entre uma ida e outra ao cinema, e já não dá mais para ignorá-lo.

Blocos-de-Rua-RJ.jpg (Foto Raquel Conrado)

Enquanto escrevo este arremedo de texto, às 8 horas da manhã de uma segunda de Carnaval, escuto um bloco passar ao longe e o coro da multidão:

"Ó abre alas

Que eu quero passar

Ó abre alas

Que eu quero passar

Eu sou da Lira

Não posso negar"

Como não deixar passar? A cantoria sobe a janela do sexto do andar do meu apartamento. Só mesmo o Carnaval para conseguir o milagre de tirar um carioca cedo da cama.

BLOCOS-DE-CARNAVAL.jpg

Há exatamente 50 anos, Dorival Caymmi compôs "Samba de Minha Terra":

"Quem não gosta de samba

Bom sujeito não é

É ruim da cabeça

Ou doente do pé."

Como escreveu Moacyr Scliar, Caymmi, com esta letra, dividiu a humanidade, ou, pelo menos, os brasileiros, em dois grupos: os que gostam e os que não gostam de samba. Não é para tanto. Eu chego até a curtir as fotos dos meus amigos animados pelo Instagram.

Admiro a alegria contagiante, aquela vontade de partilhar todo o calor humano daqueles corpos suados, cansados, felizes, nos 45 graus do Rio de Janeiro. Mas parafraseando uma marchinha conhecida, vou deixar-te agora, não me leve a mal, hoje é Carnaval. Felizmente, para aqueles como eu, todo Carnaval tem seu... Bom, você já sabe. ;-)


Érika Bazilio

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