lady day

Escrever é perigoso.

Érika Bazilio

Gostaria de viver para escrever.
Por enquanto vai escrevendo para viver mesmo

O machismo sob nova roupagem

Aquele machismo do casamento tradicional em que as mulheres se anulavam para viver em função do marido acabou, ou praticamente está acabando. Hoje trabalhamos, ganhamos nosso dinheiro. Mas por que muitas de nós se anulam após nos tornarmos mães?


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A maternidade é um dos momentos mais desejados. Para muitas mulheres é a coisa mais importante de suas vidas. E não há dúvidas de quanto é especial gerar um ser humano e prepará-lo para o mundo. Como comparar qualquer coisa a esse amor? Sim, é impossível. O problema é quando isso se torna a única coisa da vida. A mulher, profissional, amante, deixam de existir para assumir o papel de mãe 24 horas por dia, todos os dias da semana.

Hoje é fácil perceber quando isso acontece sem nem mesmo conhecermos a pessoa. Como um espelho da nossa realidade, as redes sociais estão cheias de mães que se anularam para viver a vida de seus filhos. Algumas chegam a mudar a foto do perfil para uma com a criança, ou da criança sozinha. Pode não parecer importante, mas é emblemático. É como se estivéssemos dizendo ao mundo, "esse não é o perfil da fulana, é o perfil da mãe do fulaninho". Freud explica, ou explicaria, se fosse contemporâneo ao Facebook.

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É perfeitamente compreensível que quando temos um filho fiquemos enamorados dele. Como uma nova paixão mesmo. E quando isso acontece nos reclusamos um pouco do mundo para curtir ao máximo aquele momento. Mas aí é que está, é um momento. E a vida toda da mulher a partir da maternidade, como fica?

É claro que isso também pode acontecer com os homens, mas se ocorre a um número muito maior de mulheres é porque ainda carregamos a pecha do machismo que diz que nós é que devemos abrir mão da nossa vida para cuidar dos rebentos.

Tenho amigas que não fazem outra coisa a não ser acompanhar seus filhos a programas infantis. Não tiveram um só final de semana para elas desde que se tornaram mães. É parquinho, festa de criança, teatrinho, cinema. A TV de casa ligada 24h (ou enquanto os reizinhos estiverem acordados) no canal de desenho. Nunca mais foram ao cinema ou ao teatro para ver alguma coisa que elas realmente queriam. É claro que fazer programa de criança também é uma delícia! Que pai ou mãe não curte uma boa farra com o filho? Mas é preciso bom senso.

Reparo também que esse é um fenômeno de classe. Quanto mais alta, mais a tirania infantil fica evidente. Minhas amigas-mães com menos dinheiro se divertem muito mais. Elas carregam a prole para programas comuns (sem o rótulo infantil) e quando as crianças se cansam, não têm problema. É só juntar umas cadeiras e acomodar o pimpolho para dormir ali mesmo, enquanto ela curte um pouco mais o SEU programa. Afinal, ela também tem direito. E nenhuma criança morrerá por causa disso. Pelo contrário, elas são tratadas com o mesmo amor e aprendem desde pequenas a respeitar o outro, a compreender que o mundo não gira em torno delas. E isso será fundamental para suas vidas quando adultas.

A maternidade é algo lindo e único. Mas a vida da gente é o nosso bem mais precioso. Viver a nossa vida com autoestima e sem qualquer dependência, seja por um ser humano adulto ou uma criança, é o melhor ensinamento que podemos deixar para nossos filhos.

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Érika Bazilio

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