António B. Afonso

Eu busco a verdade pela ficção. Impaciento-me na deturpação e desordeno-me na distorção. O obsessivo emenda, se a lente falhar o mote: a candura deve ser sempre capaz de esmagar qualquer estética.

Porquê lente? Qual Obsessão?

Uma breve nota sobre a opção do título «Lente Obsessiva».


Oblonski. É com o personagem de Tolstoi que lanço a primeira pedra lexical desta pequena odisseia. Qual será o problema desta referência? Afinal de contas, não foram as «pernas tortas» que deram ao príncipe o «habitual passo resoluto»? E por falar em "pernas", não foram as curtas pernas de Toulouse-Lautrec que elevaram às nuvens o provir do seu ofício?

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Porquê lente?

Não posso dizer o mesmo que David Foster Wallace: «I do have a thesis». O que tenho é demasiado ambíguo para ser sumariado e não pode ser sufixado em nenhum «ismo»; está imerso em mais limitações do que qualidades, o que conduz à fiabilidade. Sou possuidor de uma lente e, como todas as lentes, esta serve para desviar os raios de luz.

Quando pensamos numa lente, imaginamos uma lupa, um microscópio, ou farol. Em todos estes casos, a lente pode ser usada para ver os objectos em ponto maior, ou, como no caso do farol, para possibilitar um feixe de luz visível a grandes distâncias. Porém, esta é tão-somente a parte virtuosa das nossas lentes.

Estas não são feitas de material vítreo - o material é aquoso. E, do mesmo modo que, a substância aquosa que existe entre a córnea e o cristalino dos nossos olhos, as nossas lentes possuem humores.

Parece que estou a contradizer-me ou confundir-me no texto, no entanto, fiz apenas um jogo de palavras.

Analisemos este jogo:

a. Eu tenho uma lente. O material desta não é vítreo. b. O olho o humano é uma lente, e não é composto por nenhum material vítreo. c. A minha lente tem humores. O olho humano tem humores. Um destes, ironicamente, é o humor vítreo. d. Logo, a lente não é um mero órgão de visão, mas sim, de percepção.

Repito, esta comezinha esquematização elíptica esconde o seguinte: a lente não é um órgão de visão, mas, sim, de percepção. Pois tem humores, e, sublinho, nenhum destes é vítreo ou estável como o vidro. Ou seja, pode haver uma relação de semelhança entre esta lente e os meus olhos, mas são objectos totalmente diferentes.

Confusos? Em minha defesa, chamo a depor, uma testemunha, no sentido de reforçar o meu ponto de vista:

- O que é «percepção», Exmo. Dr. Dicionário Houaiss?

- Esta é a «faculdade de apreender por meio dos sentidos ou da mente; consciência (de alguma coisa ou pessoa), impressão ou intuição, especialmente moral».

(É sempre bom vir um dicionário de qualidade em nossa defesa.)

Título: Lente Obsessiva

Como já devem ter reparado, o título deste espaço é «Lente Obsessiva». Imagino que possam estar a pensar que esta é a justificação da lengalenga em torno do vocábulo «lente».

Confesso que, para vossa comodidade, devia ter ido directamente ao assunto. Devia ter dito logo, o móbil desta nota introdutória é justificar o título deste espaço.

Optei, porém, percorrer caminhos sinuosos para acrescentar uma ou outra revelação.

Antes de avançar, pretendo desviar os raios de luz que iluminam o significado de "belo" nas vossas lentes. Eu não tenho uma tese sobre o “belo”, quiçá por incompetência ou desleixo, todavia, tenho uma suposição:

- O belo está em todo o lado, inclusive, nas nossas pernas e membros inferiores.

Não confundir esta perspectiva do "belo" como uma espécie de panteísmo esteta. É verdade que acredito na omnipresença da arte e do belo em todos nós, mas devo lançar uma alada ressalva. A minha hipótese encosta-se completamente à pedra-de-toque do Panenteísmo:

Apesar de sermos seres sensíveis, criadores e dotados de órgãos sofisticados de percepção, somos maiores que o belo e a arte. Por muito que a arte seja capaz de elevar os nossos espíritos, a candura deve ser sempre capaz de esmagar qualquer estética. A nossa sensibilidade estética pode ser hostil à compaixão, e isto é, particularmente, tenebroso.

Tive, recentemente, uma febre literária por David Foster Wallace, por contaminação de Rogério Casanova, autor incontornável da Revista Ler. Sou dado a pequenos literários estados febris, mas o certo é que a temperatura já baixou, e a admiração por David Foster Wallace não recuou, nem foi beliscada.

Como uma luva, há uma citação deste autor que encaixa perfeitamente nesta hipótese do belo que mencionei:

”Fiction's about what it is to be a fucking human being"

Revista Ler: Fevereiro ler.jpeg

Qual Obsessão?

A "lente obsessiva" não respirará somente neste tema, mas antes de lançarmos palavras ao vento, somos sempre obrigados a dizer qual é a nossa favorita predilecção.

Antes de terminar, devo antecipar uma interpretação abusiva que já tive, recorrentemente, de lidar.

Como é flagrante, a segunda palavra elencada no título tem como cognato a palavra obsessão.

Fui obrigado a adjectivar o título, em parte, pelo que já disse. A lente é falível. A lente tem humores. A perseverança pode perder-se numa roda-viva. Detenho mapas com escalas obtusas e alguns cartogramas dúbios. A lente tanto pode convergir, como divergir a luz, consoante o humor em que está imersa.

A obsessão é a garantia permanente de que a lente está sujeita a escrutínio, que os seus desvios de luz merecem dúvidas, correcções e aperfeiçoamentos…

Sabemos o que é lente, e está explicada qual é a obsessão. Agora, podemos seguir em frente.

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António B. Afonso

Eu busco a verdade pela ficção. Impaciento-me na deturpação e desordeno-me na distorção. O obsessivo emenda, se a lente falhar o mote: a candura deve ser sempre capaz de esmagar qualquer estética..
Saiba como escrever na obvious.
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