António B. Afonso

Eu busco a verdade pela ficção. Impaciento-me na deturpação e desordeno-me na distorção. O obsessivo emenda, se a lente falhar o mote: a candura deve ser sempre capaz de esmagar qualquer estética.

Tempus Fugit, de Nádia Maria

Uma tradução em verbo da colecção: Tempus Fugit, de Nádia Maria.
Texto emanado das fotos e revelações da autora.


Tracem uma mulher perdida num quarto, nome: Nádia Maria, fotógrafa. tempus fugit 5.jpg

O quarto é o primeiro e o último refúgio dos sonhos dela. Neste espaço, a objectiva ainda é uma metáfora; a máquina é um prolongamento da sensibilidade. É seu corpo, como a íris, um nervo ou uma lágrima. Nádia acalenta imagens como um escritor busca a palavra. Cada imagem é um significado. Este liga-se a um e a outro, e, todos unidos, conjugam-se para encontrar uma história.

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Diz o mito que o fotógrafo é oportunista. É aquele que busca o momento e dispara o clique. Estar no lugar certo, quando a realidade versa, no milésimo de segundo, tudo o que pode ser dito, pode parecer apanágio dos mestres da objectiva. Vamos, porém, por os mitos de lado, o fotógrafo é mentor da imagem, não divaguemos muito mais sobre este assunto.

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Nádia é fotógrafa, mas não é oportunista. No seu relento, anota as imagens que nascem dela, e vai em busca daquilo que está presente. Ela persegue as imagens que já são suas. A objectiva somente finaliza o processo, satisfaz o desejo de respirar das imagens produzidas no interior.

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A colecção tem um conceito de fundo, vejamos as palavras de Hilda Hilst: «E poderás dizer/que um e outro/são infinitos-extensos/de um só Ser». Há um só ser nesta colecção. O ser dissipa-se na luz, nos rostos, no fumo. Ele quer envolver-nos no nevoeiro, nos raios gama difusos. A arte pode ser radiação da alma, fonte de mutações capazes de gerar novas espécies de sentimentos. Estes são esteio de maturidade e plenitude.

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Podemos ouvir a dissipação nas imagens como acordes terminais, elementos da valsa-lenta que canta o nosso invariável naufrágio. Mas os acordes podem esconder algo subtil, como uma sibila benevolente, este ser, pode querer sussurrar a mensagem: deixa o peso do teu ego esfumar-se e abraça o etéreo, antes do tempo fugir-te nos dedos.

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Todas as fotos são de Nádia Maria. Mais fotos da autora: Transparessencia


António B. Afonso

Eu busco a verdade pela ficção. Impaciento-me na deturpação e desordeno-me na distorção. O obsessivo emenda, se a lente falhar o mote: a candura deve ser sempre capaz de esmagar qualquer estética..
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