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Um pouco de mim, um pouco de você e um pouco de nós

Danielle Means

É professora. Também escritora. Vive num filme do Woody Allen, mas jura que Almodóvar também tem autoria. Dos Beatles, apaixonou-se pelo McCartney. Dos loucos e poucos, tem no gosto

Contrabandistas de si mesmos

“Charlatão é um contrabandista de si mesmo. (…) Às vezes a charlatanice dói muito. Imiscui-se nos momentos mais graves. Dá uma vontade de não ser, exatamente quando se é com toda força.” Clarice Lispector


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Vivemos tentando ser um modelo. De perfeição, de inteligência, de beleza, de educação, de bom gosto, de bom senso, de viver bem. Todos nós temos nossas próprias referências daquilo que acreditamos ser impecável. Queremos ser perfeitos, bem vistos, aceitos. A desculpa relevante para eventuais deslizes são frases como “ninguém é perfeito” ou “que atirem a primeira pedra”, porque além de lidar constantemente com o insuportável julgamento alheio, os erros dos perfeitos são sempre justificáveis. Para eles.

Em uma de suas crônicas publicadas (*), Clarice Lispector racionalmente nos diz que todos somos charlatões em algum momento. Às vezes escondendo aquela vontade incontrolável de ouvir uma música brega; assistir àquele filme ou ler aquele livro popular, que só seu vizinho, sem o menor primor literário, gostaria. Há também a Coca Zero, as barrinhas de cereais, o adoçante, o chocolate light, o Mc Salad, a pizza de legumes. Talvez seja mais saudável ou faça menos mal. Deve dar menos barriga, não sei ao certo, mas aproveito para lembrar que sexo, apesar de fazer bem à saúde, melhorar a pele, o humor, perder calorias, porém, se não protegido devidamente, também dá barriga. Não há como camuflar.

Já nos acostumamos o nos enganar o tempo todo. Às vezes não se é tão feliz… O coração dorme apertado, mas a consciência está tranqüila por ter feito algo certo, perfeito. Daí, que no final da vida você tem uma coleção de atitudes certas, tentando lembrar um dia que talvez tenha sido mais feliz. E SE eu tivesse ido? E SE eu tivesse seguido meus instintos? E SE eu tivesse dito “sim”? E SE eu tivesse confessado? E SE eu tivesse (ou não) perdoado? Ser feliz é mais importante do que estar certo? Ou o que é certo é o que te faz mais feliz?

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Particularmente, que atirem a primeira pedra na minha Coca Zero ou no sexo que me deu (uma linda) barriga. Ou naquela música brega, que só ela conseguia alimentar minha dor de amor. As vezes que omiti os filmes que me fizeram morrer de rir, e preferi citar um aclamado pela crítica, que, no fundo, achei chatíssimo, só para parecer interessante para alguém desconhecido. No entanto, acredito sinceramente, sem charlatanismo, que minha liberdade não permite que eu não me engane tantas vezes. Por mais brega que isso possa parecer, eu sempre acredito que nada no mundo pode ser maior ou mais importante do que ser feliz. Por mais que tudo dê errado ou que pareça difícil, eu sempre acredito incondicionalmente no que sinto.

Obviamente existe uma imagem a zelar. Existe um “eu” que precisamos cuidar, maiores que pequenas sabotagens do dia-a-dia. Existem amores traídos, má fé, falsas promessas, mentiras, agressões, que nos obrigam a sermos quem não somos. A tristeza, o rancor, o ódio precisam ser abafados, camuflados pela necessidade de sobrevivência. Dá uma vontade de não ser, exatamente quando se é com toda força. Viramos contrabandistas de nós mesmos. Sorrimos e tiramos esperanças de onde não tem. E ninguém aceitaria se fosse diferente.

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Acredito que Clarice Lispector era pressionada a ser alguém, enquanto não queria ser com toda sua força. Padrões limitam, castram, agridem. E o inexplicável é o porquê não podemos optar, sem agredir o outro, por ser apenas quem somos.

“Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam. Mentir dá remorso. E não mentir é um dom que o mundo não merece.”

*Lispector, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.


Danielle Means

É professora. Também escritora. Vive num filme do Woody Allen, mas jura que Almodóvar também tem autoria. Dos Beatles, apaixonou-se pelo McCartney. Dos loucos e poucos, tem no gosto.
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