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Um pouco de mim, um pouco de você e um pouco de nós

Danielle Means

É professora. Também escritora. Vive num filme do Woody Allen, mas jura que Almodóvar também tem autoria. Dos Beatles, apaixonou-se pelo McCartney. Dos loucos e poucos, tem no gosto

Felicidade? Não, obrigada.

“Eu choro e me olho no espelho. O que há de humano em mim (ainda resta alguma coisa em algum lugar) precisa ver o reflexo de sua dor noutro ser humano. Que a dor do outro valide a minha, ainda que o outro seja um espelho, no banheiro da casa da minha mãe.”
Fal Azevedo


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As pessoas têm um certo interesse pela tristeza alheia. Uma história triste é muito mais interessante do que uma feliz. Percebam. Quanto mais se chora num filme, mais pessoas querem assistir. Como se tristeza fosse um despertar ou uma lição de vida. Um texto triste é aquele texto capaz de sensibilizar e compartilhar sentimentos. Todos, em algum momento, sofrem uma perda, são trocados, humilhados, abandonados. Ninguém é feliz todo dia, mesmo os mais felizes e otimistas, mas todos têm algo triste para resolver. Não é uma regra, certamente. Mas, lá no fundo você vai achar algo para concordar comigo.

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Felicidade não tem mistério. Ela é óbvia, como se tivesse apenas uma direção. O que você faz com sua felicidade? Aproveita! Não há livros de autoajuda para isso. Não faz mal à saúde, e talvez seus netos vão adorar ouvir suas histórias. Incrivelmente, seus netos e as raríssimas exceções. Às vezes acho que vida de gente feliz é que nem festa de formatura ou aniversário de 15 anos: só a família curte junto. Não é que felicidade incomoda. Ela só não quer dizer nada aos não envolvidos. Faça um teste enquanto lê um jornal.

O grande público das comédias românticas contraria o meu discurso, mas do meu lado posso contar com psicólogos (segundo a BBC Brasil) que dizem que comédias românticas não fazem bem à saúde emocional, principalmente daqueles que têm tendências depressivas. Afinal, nossa realidade raramente corresponde às expectativas de Uma linda mulher ou Jerry Maguire, por exemplo. Tom Cruise ou Richard Gere não aparecerão na minha porta, apaixonados por mim num dia que eu esteja me sentindo o último ser do universo. E, mesmo que aparecessem, eu abriria a porta, desprevenida, com minha pior roupa e uma espinha que nasceu no meu nariz naquele dia exatamente .

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Entretanto, a infelicidade parece ter várias direções ou particularidades. Entendo que são caminhos percorridos em busca da felicidade perdida. Através de textos, livros, poemas, filmes ou o que seja, buscamos caminhos que ajudam, guiam, confortam, ensinam. Por mim, todos os livros do universo poderiam ser classificados como autoajuda. Meus textos tristes são muito mais lidos. Cada linha é lida com a esperança de uma resposta, e, quem sabe, de uma companhia.

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Em “Sonhei que a neve fervia” (*), Fal Azevedo faz um diário que se inicia no dia do falecimento do seu marido. Ela conta pro seu amor como tem sido sua vida após perdê-lo. A dor de quem perde algo para sempre. A dor de quem sonha com “o impossível, o inimaginável, o que nunca, nunca vai acontecer, o que não tem volta, não tem rota programada, não deixa espaço para manobra, a neve que ferve, as drogas compradas na drogaria, o fogo que congela, você voltar para mim”. Não. A princípio hesitei. Eu não queria sentir aquela dor junto com ela. Aquela dor sem esperanças. A dor que não tem remédio. A dor que nunca se traduziria. Tive medo da realidade. Logo eu, tão curiosa com a dor alheia.

Um dia decidi ler. E a boa notícia é que aquele medo foi substituído pelo “prazer” de uma “boa” leitura. Entre aspas, porque sou uma boa leitora, não sórdida. Fui contagiada pela escrita cativante e reflexiva. O livro da Fal Azevedo não é triste. Ela está triste. E no final, lembrei de Saramago: “Se tens um coração de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia.”. Cheguei a conclusão de que felicidade é mais saudável, mas tristeza faz da gente mais gente. Só não sei qual é o mais importante no final das contas.

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Agora deveria ser o momento que eu digo que devemos celebrar mais vezes os momentos felizes, mas não vou, porque é clichê demais. É simples demais. Nada do que eu disser vai nos convencer de que seria muito mais saudável comemorar, compartilhar alegrias do que sermos comovidos, na maioria das vezes, pela tristeza. Minha família inteira (primos, tias, tios etc.) se encontra em peso num enterro, mas raramente se mobiliza com tanta determinação e compromisso com um aniversário.

Certamente os que perdem precisam muito mais serem acolhidos. Seria insensibilidade comparar ou pensar o contrário. Foi apenas um exemplo superficial. Mas...da próxima vez que comprar um CD, vou tentar contrariar o universo e optar por aquela música que me faz dançar e cantar no último volume, mesmo que isso pareça uma cena roubada de Hollywood. Que felicidade não seja sinônimo de futilidade... Quero aprender com ela também. Que as notícias boas sejam mais rápidas. Às vezes acho que a vida poderia ser mais fácil. É uma pena, ou talvez um desperdício, essa mania que a gente tem de só ouvir o coração dos outros quando ele está batendo tão devagar.

(*) AZEVEDO, Fal. Sonhei que a neve fervia. Rio de Janeiro: Rocco, 2012.


Danielle Means

É professora. Também escritora. Vive num filme do Woody Allen, mas jura que Almodóvar também tem autoria. Dos Beatles, apaixonou-se pelo McCartney. Dos loucos e poucos, tem no gosto.
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