léribi

Um pouco de mim, um pouco de você e um pouco de nós

Danielle Means

É professora. Também escritora. Vive num filme do Woody Allen, mas jura que Almodóvar também tem autoria. Dos Beatles, apaixonou-se pelo McCartney. Dos loucos e poucos, tem no gosto

PELO DIREITO DE GOSTAR DO QUE A GENTE QUISER

Por que sou pejorativamente rotulada por gostar de "Cinquenta tons de cinza"?


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Quando leio um livro ou assisto a um filme “fraco”, porém de muito sucesso, sempre me pergunto como aquela história foi criada. Geralmente há uma receitinha clichê. No caso de “Cinquenta tons de cinza”, fiquei imaginando a autora, um dia, sem fazer nada, pensando: vou criar uma história que tenha sexo, porque todo mundo adora sexo. O protagonista vai ser lindo, porque toda mulher (ou seja lá qual for sua opção) adora homens lindos. Ele vai ser rico, porque todos os seres do universo adoram dinheiro. Bem, isso pode até virar um murmurinho, mas clichê que é clichê o protagonista é lindo e rico. O que posso fazer de diferente? Ele é sadomasoquista, e isso vai fazer do livro intrigante. Ohhhhh.

0,,69769038,00.jpg E.L. James, autora.

Mas, veja bem: EU GOSTEI. Eu jamais indicaria para quem costuma ser mais “crítico”, mas indicaria para quem quer apenas se entreter e trocar umas figurinhas. O livro me entreteve tanto quanto um filme como X-men, por exemplo. No dia seguinte a minha vida continuou a mesma, e eu nunca mais lembraria dele se não fosse massacrada pela PUBLICIDADE GRATUITA de quem leu e não gostou, de quem não leu e não gostou ou de quem estava só querendo mais atenção do que o livro.

Para cada pessoa que faz uma crítica superinteligente sobre os Cinquenta tons, 255 pessoas correm pra ler (o livro) quando lêem a frase: TEM SEXO. Isso mostra o quê? ISSO NÃO MOSTRA NADA. É só um romancezinho pra te entreter, colega. Se você não gostou, você tem toda razão. Mas se você gostou, o que você achou da escolha do Jamie Dornan para fazer o nosso Christian, amiga?

Matt-Bomer.jpg Eu queria o Matt Bommer!

Intelectuais, feministas, psicólogos, amantes das artes, se indignaram e fizeram análises minuciosas sobre o perfil dos leitores apaixonados pelo livro imbecil. Eu já li foi de tudo nessa internet. Já li que o livro faz apologia à violência doméstica (Oi?). As (pseudo) feministas queimaram todos seus sutiãs. Os (pseudo) intelectuais acharam o ápice da ignorância coletiva o interesse por uma narrativa tão pobre. Minha gente, o cara tem um fetiche, que é até super romantizado. Ele não dá soco na cara, chute no estômago, não xinga e não dá uma cuspidinha em cima dela. Ele gosta de amarrar, dar uns tapas na bunda e, de quebra, ele ainda é apaixonado! As mulheres que adoraram ler essa pobreza intelectual quer dizer o quê? NÃO QUER DIZER NADA.

Gente que faz análise da vida intelectual e sexual dos outros. “Você é o que você lê”. Eu sou o que eu quiser. Não? “Você deveria aproveitar seu tempo com literatura de verdade!”. Eu leio o que eu quiser. Certo? “Você deveria se excitar com coisas melhores”. Eu me excito do jeito que eu quiser. Valeu? “Pesquisas mostram que quem gosta de 50 tons não faz sexo”. Não é o que você deveria estar fazendo AGORA, cara?

Fico imaginando pessoas fazendo sexo intelectual. Se você quiser se excitar, que seja com qualidade. Sim, porque você é burra e não sabe se excitar com elegância. Sexo maravilhoso é aquele que o parceiro cita versos do Dorival Caymmi no seu ouvido. Aposto. Mas, não sou desse time, não.

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Em pleno furor pelos direitos de sermos quem simplesmente somos, sou solenemente estuprada por comentários ofensivos de quem me rotula, porque eu simplesmente gostei de ler o tão questionável “Cinquenta tons de cinza”. Francamente. Se achou tão degradante pra sociedade, saiba que a responsabilidade por toda essa divulgação é SUA. Enquanto estou aqui num protesto silencioso (e inútil) pela escolha do ator, e não fui ver o filme, você falou mal dele e levou 255 ao cinema.

Já que estamos falando de tempo dos outros, permita que eu também tenha o direito de opinar sobre você, já que você falou mal de mim primeiro: procura uma coisa legal pra falar. Indique um livro bom. E pare de rotular as pessoas… Que coisa feia.


Danielle Means

É professora. Também escritora. Vive num filme do Woody Allen, mas jura que Almodóvar também tem autoria. Dos Beatles, apaixonou-se pelo McCartney. Dos loucos e poucos, tem no gosto.
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