les feuilles

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Felipe Lima

Muito prazer. Felipe. Nasci em Brasília, a cidade de concreto, feita para homens de concreto. Morei no Rio de Janeiro por dois anos, depois em Santiago por nove meses. Depois São Paulo, de volta Rio, agora por aí, em algum lugar. Tenho 27 anos, sou jornalista. Ou Observador Profissional, como prefiro. Já fui atendente de padaria, atendente de protocolo, auxiliar de escritório, tesoureiro assistente, repórter de cidades e cultura, auxiliar de serviços gerais em spa para homens (eufemismo), recepcionista em hostels e assessor de imprensa em escritório especializado em arquitetura, design e decoração; não exatamente nessa ordem. Cantante. Faço bicos de terapeuta. Danço de forma esquisita. Tenho fé. Apaixonado por arte e por contato humano. À parte tudo isso, e sobretudo, escrevo. Autor de Dentro da Pele, misto de ensaio e livro-reportagem sobre prostituição masculina em Brasília (sem edição) e As Nuvens Púrpuras, publicado na rede em limaofelipe.wordpress.com. Atualmente, dedico-me a escrever meu primeiro romance e dou andamento à performance #palavrassómudampessoas pelas ruas do país (se você esbarrou comigo por aí, faça-me saber usando a hashtag :D). Também me envolvo em projetos criativos em colaboração com outros artistas. Quer falar comigo? Escreva para [email protected]

Ter medo é para quem tem colhões

Uma reflexão "clariciana" sobre o medo por Felipe Lima, autor de As Nuvens Púrpuras


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As conversas em torno de mim não me diziam respeito, as grandes questões eram minhas, minhas grandes questões, a face de Deus que eu queria enxergar, a face de um Deus de misericórdia e de amor, eu próprio como uma descoberta, como um achado precioso.

“Eu tenho medo”, foi o que eu disse, mas desconhecendo a dimensão do meu próprio medo. Mas o medo que me faz ter medo é o medo que me salva e o medo que me condena. É legítimo, portanto, é um deus e um demônio. Mas se eu pudesse me livrar do medo como seria a minha face sem o medo? Eu seria eu sem o medo?

Eu não conheço o que eu seria sem o medo porque o medo sempre me fez companhia. Só me reconheço diante da existência do medo. É possível não ter medo? Não ter medo do erro? Porque o erro condena e a condenação é a pior condenação que se tem conhecimento. A condenação é o medo praticado. A condenação é a aniquilação pelo medo. É nada mais que o medo. Nem paz, nem amor, nem fuga, nem delícia, é o medo no estado bruto do medo.

A condenação é o agora e o depois. E a salvação também provoca medo, porque o medo estará para onde quer que o olhar se volte. Porque o medo é intrínseco, o medo é indissociável. O medo está na atmosfera, na matéria e na antimatéria, no espectro, na não-matéria e no abstrato puro. Só é possível não ter medo quando se abraça o medo, quando se apega ao medo e se assume o medo como guia e como salvador do próprio medo. Só se vence o medo pela adoração ao medo.

Mas ainda assim há medo. Apenas transforma-se o medo em temor, mas a essência do temor é o próprio medo. Uma só entidade. Eu tenho medo. Eu tento entender o medo, compreender o medo. O medo precisa de amor e eu amo o medo. Eu respeito o medo e transformo o medo num medo amigo, mas a face desconhecida do medo me perturba. Porque é onde não vai a minha consciência que o medo me assombra. É onde eu não alcanço o medo que o medo supera o meu domínio e me transtorna. O medo é indomável.

É possível pensar que se vence o medo, mas o medo é invencível. O medo não tem rosto, mas está em todos os rostos. Até nos rostos que sorriem há medo, porque o medo disfarça-se de emoções na tentativa de escapar dos que tentam triunfar sobre o medo, para depois sobrelevar-se de vez.

Todo mundo prova do medo uma vez e a primeira vez é também a única porque o medo é constante. Há os que dizem que não têm medo, mas o medo apenas os assiste e espera a hora de abrir a porta. O medo pode ser gentil. O medo é paciente. O medo tem vontade própria. O medo abomina os covardes porque os covardes são consumidos pela inércia. Ter medo é para quem tem colhões.

O que seríamos sem o medo? Não se pode provar o medo. Não se pode ignorar o medo. O medo existe como coisa independente e transcendente. Não há melhor denominação para o medo do que coisa. O medo está na estrutura. Acabar com o medo é como ruir. De toda forma é condenação. Com a coisa do medo ou sem o medo, se fosse possível estar sem o medo, o destino é acabar. Morre-se em louvor ao medo ou renegando o medo e não se sabe quem leva a melhor. Não se sabe.

O medo só sobrevive na ignorância e a ignorância é condição inescapável do ser humano. O medo é inesgotável. O medo transborda-se na própria definição.

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Ilustração: O Grito, de Edvard Munch


Felipe Lima

Muito prazer. Felipe. Nasci em Brasília, a cidade de concreto, feita para homens de concreto. Morei no Rio de Janeiro por dois anos, depois em Santiago por nove meses. Depois São Paulo, de volta Rio, agora por aí, em algum lugar. Tenho 27 anos, sou jornalista. Ou Observador Profissional, como prefiro. Já fui atendente de padaria, atendente de protocolo, auxiliar de escritório, tesoureiro assistente, repórter de cidades e cultura, auxiliar de serviços gerais em spa para homens (eufemismo), recepcionista em hostels e assessor de imprensa em escritório especializado em arquitetura, design e decoração; não exatamente nessa ordem. Cantante. Faço bicos de terapeuta. Danço de forma esquisita. Tenho fé. Apaixonado por arte e por contato humano. À parte tudo isso, e sobretudo, escrevo. Autor de Dentro da Pele, misto de ensaio e livro-reportagem sobre prostituição masculina em Brasília (sem edição) e As Nuvens Púrpuras, publicado na rede em limaofelipe.wordpress.com. Atualmente, dedico-me a escrever meu primeiro romance e dou andamento à performance #palavrassómudampessoas pelas ruas do país (se você esbarrou comigo por aí, faça-me saber usando a hashtag :D). Também me envolvo em projetos criativos em colaboração com outros artistas. Quer falar comigo? Escreva para [email protected]
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