les feuilles

Cinema | Música | Literatura | Fotografia

Felipe Lima

Muito prazer. Felipe. Nasci em Brasília, a cidade de concreto, feita para homens de concreto. Morei no Rio de Janeiro por dois anos, depois em Santiago por nove meses. Depois São Paulo, de volta Rio, agora por aí, em algum lugar. Tenho 27 anos, sou jornalista. Ou Observador Profissional, como prefiro. Já fui atendente de padaria, atendente de protocolo, auxiliar de escritório, tesoureiro assistente, repórter de cidades e cultura, auxiliar de serviços gerais em spa para homens (eufemismo), recepcionista em hostels e assessor de imprensa em escritório especializado em arquitetura, design e decoração; não exatamente nessa ordem. Cantante. Faço bicos de terapeuta. Danço de forma esquisita. Tenho fé. Apaixonado por arte e por contato humano. À parte tudo isso, e sobretudo, escrevo. Autor de Dentro da Pele, misto de ensaio e livro-reportagem sobre prostituição masculina em Brasília (sem edição) e As Nuvens Púrpuras, publicado na rede em limaofelipe.wordpress.com. Atualmente, dedico-me a escrever meu primeiro romance e dou andamento à performance #palavrassómudampessoas pelas ruas do país (se você esbarrou comigo por aí, faça-me saber usando a hashtag :D). Também me envolvo em projetos criativos em colaboração com outros artistas. Quer falar comigo? Escreva para [email protected]

Quem tem medo de Lizzie Velasquez?

Ou, por que ela é a mulher que você deveria ser


lizzie_velasquez_web.jpg

A jovem que inspirou o texto que você está lendo se chama Lizzie Velasquez e tem 25 anos, atualmente. Quando nasceu, seis semanas antes do previsto, Lizzie pesava menos de um quilo e os médicos não tinham boas perspectivas para seus pais. Lizzie tinha uma síndrome genética rara, sem nome, da qual só se conhece outros dois casos em todo o mundo. Caso sobrevivesse, ela não poderia ganhar peso, e dificilmente falaria, andaria ou faria qualquer coisa que se espera que uma criança ou um adulto saudável faça. Contrariando toda a perspectiva de uma vida desgraçada, Lizzie não morreu, embora seu peso nunca tenha passado dos 30 quilos e ela tenha perdido a visão do olho direito e parte da do esquerdo.

Anda e fala muito bem. É formada em comunicação e vive como escritora (caminha para o terceiro livro) e oradora motivacional. Mas as flores no jardim só vieram depois de muito esterco - com o perdão da expressão. Na escola, como se pode imaginar, teve de lidar com a crueldade do bullying dos colegas, que a chamavam de monstro, vovó e pele e osso. Ninguém a queria por perto. Há alguns anos, quando estava no ensino médio, uma pessoa fez upload no Youtube de um trecho da participação de Lizzie em um programa de TV quando tinha 11 anos, e intitulou o vídeo de "A mulher mais feia do mundo".

Um belo dia Lizzie procrastinava os estudos na frente do computador quando viu uma imagem familiar na barra de vídeos sugeridos. Os oito segundos do vídeo sem áudio já haviam sido vistos por mais de 4 milhões de pessoas. Lê todos os comentários, que vão de receitas para que tirasse a própria vida e impedir que as pessoas ficassem cegas ao ver tamanha feiúra, a perguntas como por que seus pais não te abortaram? "Cada um deles era como se o punho daquela pessoa saísse do computador e me acertasse", ela contou, anos depois.

Lizzie-Natal.jpg

Eu conheci a história de Lizzie Velasquez por acaso, na manhã de oito de janeiro de 2014, e fiquei instantaneamente chocado com as características que fazem da vida dela tão extraordinária. E tão instantaneamente quis escrever esse texto para falar com as minhas amigas, com irmãs, tias e sobrinhas, e com qualquer outra mulher que está constantemente a observar e reclamar sobre as imperfeições em seus corpos que a maternidade, a falta de dinheiro ou um relacionamento ruim impôs a elas. E que sentem péssimas por isso.

Por que Lizzie, com tudo o que a vida lhe deu sem possibilidade de devolução, é capaz de dizer que sua condição é uma benção? Que agradece a Deus por ter tido oportunidade de viver todas as coisas que tem experimentado? Por que? Por que Lizzie é tão confiante e tão leve ao falar de seu problema? Eu tenho uma ideia das razões. Em primeiro lugar, porque é uma mulher de fé. E a ciência já tem provado o que a fé é capaz de fazer pela vida das pessoas. Em segundo, porque Lizzie tem pais incríveis, que a criaram com todo o amor que outras pessoas rejeitariam a ela durante sua vida. E porque eles, ao contrário de outras pessoas, conseguiam enxergar nela aquilo que olhos preconceituosos, falta de amor, curiosidade, compreensão e bondade com o próximo, além de um conceito de beleza superficial, doentio e cruel alimentado pela mídia, talvez não nos deixe enxergar: sua verdadeira beleza. A beleza de quem ela é não do que ela aparenta.

E o que você tem a ver com isso? Eu digo. Você reclama do que a sociedade impõe e exige de você e acredito que está certa em fazer isso. Mas comete um equívoco ao permitir que esses padrões a transformem em algo que você não é. Ao correrem para mesas de cirurgia, para academias, para dietas insuportáveis meramente por questões de aparência física (e quase nunca pela saúde). E na sede de alterar essa imagem, esse reflexo desagradável, se esquece de edificar o mais precioso: a autoestima, essa poderosa combinação de confiança, determinação e bom humor que fazem de Lizzie a mulher que toda mulher deveria ser. Pode não ser a mais bela do mundo, mas com certeza faz do mundo um lugar melhor.

46Lizzie.png

E se nada do que foi dito até aqui foi suficiente, Lizzie tem um recado pra você:

"Vocês querem saber? Eu tive uma vida realmente muito difícil. As coisas foram assustadoras, foram pesadas. Mas minha vida está nas minhas mãos. Eu posso escolher fazer disso algo muito ruim ou algo muito bom. Eu decidi ser orgulhosa da pessoa que sou, de estar na pele em que estou. Me sinto especial. Posso não enxergar de um olho, mas enxergo do outro. Posso ser magra demais, mas meu cabelo é ótimo. E pode ser que eu não pareça com a Kim Kardashian ou todas essas pessoas nas revistas ou as estrelas de cinema. Realmente não me vejo assim. Mas não me importa. Ninguém tem que parecer como uma esplendorosa celebridade. Seja quem é e sinta orgulho disso. A melhor forma de se vingar daqueles que julgam e te menosprezam é contra-atacar com seus méritos e conquistas".

Bem, eu convido vocês a digitarem o nome de Lizzie Velasquez nas buscas do Youtube e do Google. E duvido que se depois de ver os vídeos de suas palestras e ler suas declarações, ela não passa de um rosto medonho e de objeto de pena para a imagem da motivação e da esperança. Abaixo, reportagem exibida pelo Domingo Espetacular há alguns anos e o vídeo mais recente postado no canal de Lizzie no Youtube, com sua participacao no TedXAustin Women.

Leia também: Ser feliz é uma opção? Mike Leigh discute a felicidade como escolha em Happy-Go-Lucky

Domingo Espetacular

TedXAustin Women


Felipe Lima

Muito prazer. Felipe. Nasci em Brasília, a cidade de concreto, feita para homens de concreto. Morei no Rio de Janeiro por dois anos, depois em Santiago por nove meses. Depois São Paulo, de volta Rio, agora por aí, em algum lugar. Tenho 27 anos, sou jornalista. Ou Observador Profissional, como prefiro. Já fui atendente de padaria, atendente de protocolo, auxiliar de escritório, tesoureiro assistente, repórter de cidades e cultura, auxiliar de serviços gerais em spa para homens (eufemismo), recepcionista em hostels e assessor de imprensa em escritório especializado em arquitetura, design e decoração; não exatamente nessa ordem. Cantante. Faço bicos de terapeuta. Danço de forma esquisita. Tenho fé. Apaixonado por arte e por contato humano. À parte tudo isso, e sobretudo, escrevo. Autor de Dentro da Pele, misto de ensaio e livro-reportagem sobre prostituição masculina em Brasília (sem edição) e As Nuvens Púrpuras, publicado na rede em limaofelipe.wordpress.com. Atualmente, dedico-me a escrever meu primeiro romance e dou andamento à performance #palavrassómudampessoas pelas ruas do país (se você esbarrou comigo por aí, faça-me saber usando a hashtag :D). Também me envolvo em projetos criativos em colaboração com outros artistas. Quer falar comigo? Escreva para [email protected]
Saiba como escrever na obvious.
version 6/s/recortes// @destaque, @obvious //Felipe Lima