les feuilles

Cinema | Música | Literatura | Fotografia

Felipe Lima

Muito prazer. Felipe. Nasci em Brasília, a cidade de concreto, feita para homens de concreto. Morei no Rio de Janeiro por dois anos, depois em Santiago por nove meses. Depois São Paulo, de volta Rio, agora por aí, em algum lugar. Tenho 27 anos, sou jornalista. Ou Observador Profissional, como prefiro. Já fui atendente de padaria, atendente de protocolo, auxiliar de escritório, tesoureiro assistente, repórter de cidades e cultura, auxiliar de serviços gerais em spa para homens (eufemismo), recepcionista em hostels e assessor de imprensa em escritório especializado em arquitetura, design e decoração; não exatamente nessa ordem. Cantante. Faço bicos de terapeuta. Danço de forma esquisita. Tenho fé. Apaixonado por arte e por contato humano. À parte tudo isso, e sobretudo, escrevo. Autor de Dentro da Pele, misto de ensaio e livro-reportagem sobre prostituição masculina em Brasília (sem edição) e As Nuvens Púrpuras, publicado na rede em limaofelipe.wordpress.com. Atualmente, dedico-me a escrever meu primeiro romance e dou andamento à performance #palavrassómudampessoas pelas ruas do país (se você esbarrou comigo por aí, faça-me saber usando a hashtag :D). Também me envolvo em projetos criativos em colaboração com outros artistas. Quer falar comigo? Escreva para [email protected]

Nina!

A atriz Renata Sarmento fala sobre cinema, literatura, nudez, paixão e o universo por trás de Nina!, curta de Rafael Botta disponível online


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São 9h40 da manhã de dez de julho de 2015. É sexta-feira e acordo com o ruído do trânsito matinal da Avenida Mem de Sá, na Lapa. O dia está úmido e iluminado. Checo as mensagens recebidas durante a noite anterior e leio as últimas considerações da atriz alagoana Renata Sarmento sobre a entrevista que ela me concedeu por e-mail enquanto cumpria agenda em São Paulo no último fim de semana.

Nosso bate-papo é para falar, sobretudo, do lançamento na web do curta-metragem Nina!, que ela co-escreveu e protagonizou no fim de 2013. O filme dirigido pelo amigo e sócio na Cx2 Filmes, Rafael Botta, fez carreira em mostras e festivais no Brasil e chegou a ser exibido em Portugal, na seleção do Festival Shortcutz Xpress Viseu. Trata-se de uma trama de pouquíssimos diálogos, focada quase que exclusivamente na presença de Renata. A produção estreia hoje na internet e pode ser assistida abaixo.

Ontem pela manhã, um pouco antes de finalmente conseguir responder ao e-mail com as perguntas, enviadas no sábado, Renata comemorava com entusiasmo a indicação ao prêmio de atriz coadjuvante no 43º Festival de Cinema de Gramado, pelo curta S2, de Bruno Bini. À noite, já no Rio, participávamos juntos de uma sessão especial de media training com uma renomada figura dos bastidores do cinema no Brasil.

Impactada pelo encontro, Renata comenta, aparentemente às gargalhadas, que agora tem a impressão de que nada pode ser dito. Antes, elogiou as perguntas e comentou com alguma surpresa que eram do tipo que não podiam ser respondidas com facilidade. "Acha que as respostas ficaram longas?", quer saber.

Eu a tranquilizo. O exercício proposto por nossa mentora na noite anterior evidenciou a habilidade de Renata em permanecer leve, natural, bem-humorada e perigosamente sincera enquanto alvo de perguntas pouco ortodoxas.

"Às vezes é preciso perder alguns papéis para ganhar algum prestígio", brinco, já no início da tarde, detendo-me no voo dos pássaros frente à janela do apartamento onde moro, na Cinelândia, e desistindo de fazer uma apresentação formal do material, deixando que Nina e Renata falem por si só.

"Hahahahaha", ela responde prontamente. "Você é quem manda".

Assista Nina! e leia nossa conversa sobre cinema, literatura, nudez e paixão.

Nina!, de Rafael Botta (Cx2 Filmes)

Les Feuilles: Por que você queria contar a história da Nina e o quanto de você há na personagem?

Renata Sarmento: Porque é uma história que pode ser de muitas pessoas. De homens, de mulheres... Uma história universal. Todos nós estamos suscetíveis a sermos domados por uma grande paixão e perdermos o controle da situação. Nós queríamos falar das sintonias dos sentimentos. Eles nem sempre estão equalizados, e, dessa forma, um sofrerá mais que o outro. Muitos de nós não sabemos lidar com a fraqueza e podemos chegar ao fundo do poço. Também podemos sair dele. Depende apenas de nós, do nosso amor próprio. A Nina tem um pouco de todos nós que fizemos o filme. Acredito que muitos irão se identificar de determinada forma, em algum momento que seja. Ela é intensa, frágil e forte ao mesmo tempo. De mim? Eu já me apaixonei também (risos).

LF: Quando e como surgiram os primeiros esboços do curta? Qual foi a maior dificuldade em todo o processo?

RS: O Júlio, que assina o roteiro do Nina! comigo, escreveu e dirigiu a última peça em que estive em cartaz. Somos amigos e seguimos uma linha de escrita parecida. Gostamos de filmes melancólicos, dramáticos... Não que eu não assista aos filmes de comédia, mas não é qualquer comédia que consegue fazer com que eu permaneça atenta e interessada (Woody Allen e Chaplin são gênios! Passaria dias numa maratona desses cineastas). Bem, na época, eu e Júlio morávamos juntos em um apartamento na cidade de São Paulo e queríamos falar sobre a paixão, seus vícios... Sobre a dependência sexual causada em decorrência dela. Então, numa noite de sexta-feira do começo do mês de novembro de 2013, nos reunimos e começamos a fazer um brainstorming de ideias, referências, encenações... Colocamos no papel e no dia seguinte estava em forma de roteiro no computador. Liguei para o meu amigo e nosso diretor, Rafael Botta, enviei o roteiro e ele disse: - Montemos a equipe! Nesse filme não tivemos grandes problemas. Aliás, não chamo nada do que enfrentamos com ele de problemas. Tivemos um processo de confecção muito bem-sucedido. Uma equipe com a qual gostaria de trabalhar por uma vida inteira, profissionais que fizeram valer cada segundo. Tudo foi realizado com muito afinco.

LF: Ficar nua chegou a ser um dilema? Alguns anos atrás, o ator Pedro Cardoso levou a conhecimento público um manifesto contra a nudez no cinema e na TV, a fim de combater o que ele definiu como um recurso exagerado para atrair público e satisfazer “disfunções sexuais” de diretores e roteiristas. Na sua opinião, quando a nudez deixa de ser “chamariz” e passa a ser legítima ou justificada dentro de um trabalho artístico?

RS: Ficar nua em cena, quando existe necessidade, não é problema algum pra mim. O engraçado é que eu fui o tipo de adolescente que nunca trocava de roupa na frente das amigas. Sempre fazia isso no banheiro e com a porta fechada. Mas em cena... Não sinto essas amarras. Não era eu, era ela. Cada caso específico possui a sua justificava. No caso da Nina, a nudez vai além do corpo exposto... Aquela nudez é da alma, dos sentimentos, da paixão, da decadência, da fragilidade... É mais metafórica do que qualquer outra coisa. Outro ponto extremamente relevante foi o respeito que existia entre a nossa equipe. Em momento algum me senti constrangida. Saí da locação apenas com um sobretudo preto e um salto altíssimo. No dia, nossa equipe era composta por sete pessoas. Não houve brincadeira alguma em nenhum momento, nem da minha parte, muito menos da parte deles. O respeito mútuo é a base de qualquer relação, seja pessoal ou profissional.

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LF: O filme teve exibições em eventos e festivais diversos no Brasil e até em Portugal. Encerrada essa fase, estreia agora na web. Qual é a expectativa?

RS: Lançar o filme na internet é a finalização de um ciclo e início de outro. É o momento de entregá-lo ao grande público para que possam refletir sobre escolhas... Na web não existe filtro, e é isso mesmo que procuramos. Opiniões sinceras, troca de figurinhas, a visão de cada um.

LF: Você escreveu o roteiro de Nina!, ao lado de Júlio César Gomes. Também lançou um livro de contos no ano passado, Cada Menina Tem Sua História, pela editora Viva. Escrever sempre foi um desejo ou algo que surgiu à medida que você se reconhecia como artista?

RS: Eu sempre gostei de escrever, mas acredito que com o tempo isso foi se tornando vital. Ser atriz apenas já não bastava... As personagens clamam vida na minha mente. Elas me perturbam e só sossegam quando ganham vida no papel. É algo inevitável. Além do mais, escrever é uma das formas de nos colocar em movimento. Gosto de escrever, sobretudo, porque dessa forma tenho a possibilidade de também mostrar meu trabalho como atriz, de certa forma.

LF: Tenho refletido e falado bastante ultimamente sobre esse “reconhecer-se como artista”. Sua formação acadêmica é em Direito. Você chegou a atuar na área? Em que momento reuniu a coragem necessária para abrir mão de determinadas “garantias” da vida comum para aventurar-se na vida artística? Qual foi o ponto de virada?

RS: Ser atriz é um ato de coragem. Precisamos alimentar nossa vocação todos os dias. Sou natural de Maceió, uma cidade linda. Contudo, sabemos o quanto é difícil trabalhar com arte no Brasil, principalmente fora do eixo RJ-SP. Atuei muito pouco como advogada. É uma profissão bela mas tudo na vida precisa ser feito com paixão. Passei no meu primeiro exame da OAB e logo em seguida resolvi me atirar de cabeça e sem paraquedas no mundo das artes. Apesar de sempre ter sonhado em ser atriz, esse foi especificamente o meu momento. Um pouco tardio, porém com mais maturidade para enfrentar as reais dificuldades e glórias da profissão.

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LF: Você estudou atuação e cinema em escolas de renome no Brasil e no exterior. Enxerga diferenças entre o processo de construção e o fazer artístico lá e aqui?

RS: Estudar e conhecer novas formas de atuar é sempre indicado e muito engrandecedor. Passei por duas escolas conceituadas nos Estados Unidos: New York Film Academy (voltada para o cinema) e Stella Adler (voltada para a encenação teatral). Na primeira, usávamos o "Take Personal", ou seja, utilizávamos o que estávamos sentindo no momento (a raiva, a paixão...) como base ao sentimento que encontraríamos para a personagem. Na Stella, usávamos a imaginação, dessa forma não poderíamos utilizar nada que fosse nosso, nada que não fosse da personagem. Estudei em ótimas escolas aqui também, que se dividiam entre esses dois métodos. Sinceramente, não senti grande diferença no processo de construção. Aprendi muito, tudo foi muito importante. Um dos pontos mais importantes, lá fora, foi entender a forma como eles produzem o próprio trabalho. Acredito que voltei de lá com uma vontade maior de produzir.

LF: Como produtora e atriz se envolvendo em projetos independentes você se depara cotidianamente com a dificuldade de produzir arte e cultura no Brasil. O que há de melhor e pior nesse processo?

RS: Acho que na verdade, a grande dificuldade é manter-se vivo nesse mercado, manter-se animado. Por isso que a vocação se faz tão relevante. Sem ela muitos já desistiram. Doamos todo o nosso tempo, dedicação, paixão... É tudo muito lindo e gratificante mas precisamos nos alimentar, pagar contas, ou seja, viver de forma digna. E pra isso precisamos de maiores incentivos, de menos burocracias, de mais arte.

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LF: As paixões podem ser cruéis e intensas, às vezes, como a que faz Nina perambular pela cidade naquele estado. Na sua opinião, o que é necessário para conseguir escapar de uma relação conturbada e encontrar equilíbrio novamente?

RS: Quando estamos do lado de fora da situação fica tudo mais fácil de criticar... Entretanto, acredito que não apenas necessário para sair, mas para entrar e permanecer também, o ingrediente primordial é o amor próprio. Respeitar-se acima tudo. Precisamos vestir a camisa do nosso time, e depois a do time do outro, para assim formarmos uma equipe, um casal ou seja lá o que for.

LF: Pode falar um pouco sobre seus próximos projetos?

RS: Acabei de saber que fui indicada ao prêmio de melhor atriz coadjuvante no Festival de Cinema de Gramado, pelo filme S2, do diretor Bruno Bini. Tenho alguns projetos em andamento... Mas ainda nas primeiras fases de gestação. Por enquanto, torcendo para que as pessoas assistam e gostem do nosso "Nina!".

Trailer de S2, de Bruno Bini

S2 - TRAILER from S2 Filme on Vimeo.


Felipe Lima

Muito prazer. Felipe. Nasci em Brasília, a cidade de concreto, feita para homens de concreto. Morei no Rio de Janeiro por dois anos, depois em Santiago por nove meses. Depois São Paulo, de volta Rio, agora por aí, em algum lugar. Tenho 27 anos, sou jornalista. Ou Observador Profissional, como prefiro. Já fui atendente de padaria, atendente de protocolo, auxiliar de escritório, tesoureiro assistente, repórter de cidades e cultura, auxiliar de serviços gerais em spa para homens (eufemismo), recepcionista em hostels e assessor de imprensa em escritório especializado em arquitetura, design e decoração; não exatamente nessa ordem. Cantante. Faço bicos de terapeuta. Danço de forma esquisita. Tenho fé. Apaixonado por arte e por contato humano. À parte tudo isso, e sobretudo, escrevo. Autor de Dentro da Pele, misto de ensaio e livro-reportagem sobre prostituição masculina em Brasília (sem edição) e As Nuvens Púrpuras, publicado na rede em limaofelipe.wordpress.com. Atualmente, dedico-me a escrever meu primeiro romance e dou andamento à performance #palavrassómudampessoas pelas ruas do país (se você esbarrou comigo por aí, faça-me saber usando a hashtag :D). Também me envolvo em projetos criativos em colaboração com outros artistas. Quer falar comigo? Escreva para [email protected]
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