les feuilles

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Felipe Lima

Muito prazer. Felipe. Nasci em Brasília, a cidade de concreto, feita para homens de concreto. Morei no Rio de Janeiro por dois anos, depois em Santiago por nove meses. Depois São Paulo, de volta Rio, agora por aí, em algum lugar. Tenho 27 anos, sou jornalista. Ou Observador Profissional, como prefiro. Já fui atendente de padaria, atendente de protocolo, auxiliar de escritório, tesoureiro assistente, repórter de cidades e cultura, auxiliar de serviços gerais em spa para homens (eufemismo), recepcionista em hostels e assessor de imprensa em escritório especializado em arquitetura, design e decoração; não exatamente nessa ordem. Cantante. Faço bicos de terapeuta. Danço de forma esquisita. Tenho fé. Apaixonado por arte e por contato humano. À parte tudo isso, e sobretudo, escrevo. Autor de Dentro da Pele, misto de ensaio e livro-reportagem sobre prostituição masculina em Brasília (sem edição) e As Nuvens Púrpuras, publicado na rede em limaofelipe.wordpress.com. Atualmente, dedico-me a escrever meu primeiro romance e dou andamento à performance #palavrassómudampessoas pelas ruas do país (se você esbarrou comigo por aí, faça-me saber usando a hashtag :D). Também me envolvo em projetos criativos em colaboração com outros artistas. Quer falar comigo? Escreva para [email protected]

Sobre portais do orgasmo, terapeutas, bitch queens e fluxos intensos

Sob a ótica de uma adolescente obesa, a série britânica My Mad Fat Diary trata de temas polêmicos com edição precisa e trilha sonora noventista, e ajuda a lembrar o quanto a arte tem o poder de emocionar, provocar, subverter e transformar as pessoas


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Acho sempre particularmente difícil escrever sobre algo que me toca de maneira muito íntima. É por isso que há alguns filmes, livros, situações e até pessoas sobre as quais jamais fui capaz de escrever uma palavra sequer. É como se eles falassem comigo tão profundamente a ponto de tornar quase impossível trazer à tona palavras que façam justiça não apenas à coisa em si, mas ao que essa coisa foi capaz de despertar em mim.

Como artista, entretanto (em harmonia ao que pensa Amanda Palmer), acredito que minha atividade se divide em três etapas essenciais: a coleta (que chamo de observação e reflexão), a conexão e o compartilhamento, aplicáveis não só às minhas criações mas a toda e qualquer obra que me apresente como resultado algo a que posso atribuir valor e significado. Em razão disso, às vezes percebo que falar sobre o que me toca não apenas se torna desejoso mas necessário, quase inevitável: como se algo me chamasse à missão de assumir parte com aquilo, fazer parte de, compartilhar.

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Quando terminei de assistir a segunda temporada da extinta série britânica My Mad Fat Diary eu estava bastante impactado. Por razões que eu talvez nem consiga identificar bem, chorei até estar muito perto de desidratar durante quase todo o último episódio, e estava resistente quanto a assistir aos três capítulos restantes da terceira e última season. As coisas poderiam ser encerradas justamente ali.

Do episódio piloto, quando Rae sai da clínica psiquiátrica onde esteve internada de março a julho de 1996, até o encerramento, quando cumpre o ciclo de sua recuperação, dois anos depois, a personagem interpretada por Sharon Rooney precisa lidar com a volta ao lar e à escola e toda a engrenagem que move a vida de uma adolescente de dezesseis anos em vias de transição (além de um diagnóstico de doença mental).

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Os temas abordados pelo roteiro, fundamentado nos reais diários da escritora Rachel Earl, autora de “My Fat, Mad, Teenage Diary” são árduos, difíceis de tratar: autoflagelação, depressão, bullying, despertar da sexualidade, dificuldades de autoaceitação e diversas outras facetas da vida de cada indivíduo, tenham ou não classificação de doença. Nada escapa do radar, e com triunfo o texto da série consegue desenvolver cada uma dessas questões com maturidade e a leveza possível, fechando um ciclo realmente virtuoso.

Entre portais do orgasmo, terapeutas, bitch queens e fluxos intensos, me senti absolutamente tocado pela história de Rae e pela maneira como ela e seu grupo de amigos e familiares são retratados em cena. Tive enorme empatia com seus dilemas. Participei de suas sessões de terapia. Me senti diferente como ela e diferente dela. Senti raiva por algumas de suas palavras e atitudes e orgulho por tantas outras.

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Ao fim, minha reação quase instantânea foi uma vontade crescente de recomendar a série a cada mãe e filha atravessando problemas de relacionamento (em parte pelas atuações fenomenais de Sharon e de Claire Rushbrook, que interpreta Linda Earl), e depois a cada ser humano na terra colecionando pensamentos destrutivos e machucando a si mesmo como forma de materializar feridas internas. E depois a cada um que estivesse disposto a coletar, conectar e compartilhar o resultado desse trabalho.

My Mad Fat Diary, seus efeitos gráficos divertidos e fundamentais para a narrativa e sua espetacular trilha sonora (Oasis, Morrissey, Bjork, Blur, Radiohead, Stone Roses, The Charlatans, Beck, entre outros) colaboram para que eu continue enxergando a arte e o trabalho dos artistas e daqueles que dão suporte a eles, como um exercício criativo essencial que vai além do entretenimento como escape. Me ajuda a lembrar o quanto a arte tem o poder de emocionar, provocar, subverter e transformar as pessoas.

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Sempre que possível estimulei amigos e conhecidos a escrever como processo terapêutico. Também falei em muitas oportunidades sobre o poder das palavras enquanto força artística, mas, paradoxalmente, ignorei como isso poderia ser eficiente para mim, para além do território da criação. Aos vinte e sete anos, começo a escrever um diário. E ainda que esse fosse o único legado da história da verdadeira Rae e de sua versão ficcional (evidenciar como a escrita pode ajudar a compreender e curar), já teria sido suficiente.

Da série, separo o seguinte diálogo entre a jovem Rae e seu mentor terapeuta:

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Rae: Eu destruo as coisas por onde passo. E quanto mais eu tento consertá-las, mais eu pioro. (…)

Kester: Você não pode consertar as coisas antes de se consertar.

Rae: Não tenho conserto. Eu sou louca.

Kester: Você não é louca. Se quer ser alguém melhor para as outras pessoas deve começar por si mesma.

Rae: Eu tentei ser legal comigo.

Kester: Tentou? Porque você só sabe dizer quão horrorosa você é. Você usa o que aconteceu com Chloe e sua mãe como mais um motivo para se odiar.

Rae, irritada: Você diz que eu devo me amar em toda sessão! Que preciso gostar mais de mim. Parece um disco arranhado! Você nunca me diz como começar, quando começar ou onde começar!

Kester, alterado: Vamos começar agora, então. Nem hoje, nem amanhã. Agora. Feche os olhos. Feche! Agora diga o que não gosta em si mesma, mas seja honesta, não banque a espertinha.

Rae, chorando: Sou gorda. Sou feia. E destruo as coisas.

Kester: Tente se lembrar desde quando você sente isso.

Rae: Não sei. Desde que eu tinha nove, dez anos.

Kester: Então essa é uma opinião que você formou há muito tempo. Abra os olhos. Imagine uma versão sua aos dez anos, que está sentada ali naquele sofá. É a criança que você achou gorda, feia, e que é um estorvo. Imagine-se assim sentada ali. Agora diga à criança que ela é gorda.

Rae: Não vou fazer isso.

Kester: Diga que ela é feia!

Rae: Não quero.

Kester: Diga que ela é um estorvo, que é inútil! Porque é isso que você faz todos os dias. Você se convence de que é um fardo. Você acha a menina feia?

Rae: Não.

Kester: Gorda?

Rae: Não!

Kester, insistente: Não? Um fardo, estorvo, inútil?

Rae, gritando: Pare com isso! Não!

Kester: O que você quer dizer para essa garota? Se ela dissesse que se enxerga assim, o que você diria a ela?

Rae, chorando: Que ela está bem. Que ela é perfeita.

Kester: É isso que você precisa dizer a si mesma toda vez que sentir o pânico. A ansiedade. Precisa se defender, como defenderia a garotinha. Precisa dizer a si mesma que tudo ficará bem. Se você se comprometer a fazer isso, eu prometo que poderá enfrentar qualquer coisa.

Toca os segundos iniciais de One, do U2.

Kester: E tudo começa agora.


Felipe Lima

Muito prazer. Felipe. Nasci em Brasília, a cidade de concreto, feita para homens de concreto. Morei no Rio de Janeiro por dois anos, depois em Santiago por nove meses. Depois São Paulo, de volta Rio, agora por aí, em algum lugar. Tenho 27 anos, sou jornalista. Ou Observador Profissional, como prefiro. Já fui atendente de padaria, atendente de protocolo, auxiliar de escritório, tesoureiro assistente, repórter de cidades e cultura, auxiliar de serviços gerais em spa para homens (eufemismo), recepcionista em hostels e assessor de imprensa em escritório especializado em arquitetura, design e decoração; não exatamente nessa ordem. Cantante. Faço bicos de terapeuta. Danço de forma esquisita. Tenho fé. Apaixonado por arte e por contato humano. À parte tudo isso, e sobretudo, escrevo. Autor de Dentro da Pele, misto de ensaio e livro-reportagem sobre prostituição masculina em Brasília (sem edição) e As Nuvens Púrpuras, publicado na rede em limaofelipe.wordpress.com. Atualmente, dedico-me a escrever meu primeiro romance e dou andamento à performance #palavrassómudampessoas pelas ruas do país (se você esbarrou comigo por aí, faça-me saber usando a hashtag :D). Também me envolvo em projetos criativos em colaboração com outros artistas. Quer falar comigo? Escreva para [email protected].
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