Márcio Chocorosqui

Um dia aventurei-me no mundo das letras e, desde então, alimento-me do meu trabalho com as palavras e dele faço uma profissão de fé, mesmo que isso pareça ser a luta mais vã

Coisas do passado

Fitas cassete e de VHS, aparelho de videocassete, walkman, máquina de escrever, fax... Nestes tempos velozes de internet, são coisas do passado, peças de museu que algumas pessoas ainda guardam em casa. Um sentimento retrô faz lembrá-las com uma certa medida de ternura nesta crônica que exala nostalgia.


K 7 3.jpg Há quem ainda tenha em casa esses objetos que logo serão encontrados só em museus (Foto: Arquivo Pessoal)

Ainda guardo em casa alguns objetos que se tornaram obsoletos e que agora não têm mais utilidade. São algumas fitas cassete e de VHS, o aparelho de videocassete e uma máquina de escrever portátil. Sei que, futuramente, esses velhos utensílios serão mais raros de se ver ou achar, tornando-se verdadeiras peças de museu. Por isso, os conservo com carinho e uma certa dose de nostalgia.

As máquinas de escrever, sobretudo, ocupam lugar de destaque em minhas lembranças. Por elas, sustento profunda afeição, porque aprendi datilografia (palavra em desuso, substituída, hoje, por "digitação"), numa antiga e gigantesca Remington. Com o manual ao lado esquerdo da máquina, verificava que cada tecla correspondia a um dos dedos das mãos. Então, sem olhar para o teclado, executava os exercícios mais simples ("fdf, jkj"), evoluindo para os mais complexos ("asas da fada, fala das asas, faça a laçada..."), até chegar, após dias de muito treino, a datilografar trechos da “Oração aos Moços”, de Rui Barbosa.

Além disso, da máquina de escrever saíram os textos de própria autoria, os quais guardavam só para si as frivolidades e concepções ingênuas específicas da adolescência. Mas das fitas cassete também não posso me esquecer. Como era delicioso selecionar do disco de vinil as músicas que seriam gravadas no teipe. E como essas fitas iam desaparecendo sem deixar rastros. Até que desapareceram por completo. As que mantenho atualmente, emboloradas, são de um curso de inglês que comprei nos anos 90. Confesso que não cheguei a ouvi-las todas, já que o toca-fita do qual dispunha (na verdade, um velho walkmam) resolveu pifar justo naquele momento de sôfrega aprendizagem.

Aliás, o walkman, aparelhinho simpático, companheiro das horas queridas de solidão, cedeu ao discman, que surgiu com o advento do CD. E o discman passou a vez ao MP3, que já não está mais na versão três. É tamanha a velocidade das transformações tecnológicas de nossa época, que daqui a pouco soará estranha a existência da máquina de fax e do telefone fixo, por exemplo. O e-mail deu cabo do fax e o celular está substituindo o telefone fixo, além de apresentar um sem-número de funções, tais que gravar voz, tocar música, tirar foto, filmar e acessar a internet. Inclusive, há quem esqueça que a primeira finalidade do celular, simples e banal, era somente a de telefonar.

De fato, o célere avanço da tecnologia tornou tudo mais fácil e prático. Contudo, vejo, melancolicamente, o desaparecimento de muitos utensílios que outrora me eram tão próximos e afáveis. Por incrível que pareça, gostava das fitas de VHS. Inserindo-as, virgens, no videocassete, podia programá-lo para gravar a atração favorita da TV: talvez um jogo de futebol imperdível ou o mais recente filme dirigido por Steven Spielberg. Também havia uma coisa chamada videolocadora, que era uma loja na qual se alugavam fitas de vídeo, de onde cansei de sair carregando uma pilha de VHS para assistir no fim de semana. Aí chegou o DVD, para ficar, aposentando as surradas fitas. Agora, porém, os filmes podem ser baixados da internet, através de download, sendo gravados até em pen drives de 16 gigabytes.

E assim continuam aparecendo os novos termos de informática e internet, invadindo e povoando nossas vidas corriqueiras. Se o saudosismo, de vez em quando, vem bater à porta da memória, devemos aceitá-lo com ternura. Considerando que nem toda tecnologia é perfeita, eu me reconforto com a alegria de saber que muitos objetos deveras antigos sempre farão parte de todas as gerações. Espero que isso ocorra com a caneta e com a agenda de papel. Pois foi com ambas que, numa preguiçosa tarde de verão, consegui registrar estas breves linhas, durante um par de horas em que a eletricidade que alimentava o computador teimou em se ausentar, cedendo vez a esses perecíveis e modestos instantes de saudade.

Trop 6.jpg Exercícios na máquina de escrever: 'fdf, jkj, asas da fada, fala das asas, faça a laçada...' (Foto: Arquivo Pessoal)


Márcio Chocorosqui

Um dia aventurei-me no mundo das letras e, desde então, alimento-me do meu trabalho com as palavras e dele faço uma profissão de fé, mesmo que isso pareça ser a luta mais vã.
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