Márcio Chocorosqui

Um dia aventurei-me no mundo das letras e, desde então, alimento-me do meu trabalho com as palavras e dele faço uma profissão de fé, mesmo que isso pareça ser a luta mais vã

Gigante pela própria natureza

O dia 17 de junho de 2013 abriu uma semana de manifestações populares que se alastraram por todo o Brasil. Isso já está na história, porque centenas de milhares de pessoas foram às ruas protestar contra tudo e pedir melhorias nas áreas de saúde, educação e segurança públicas. O que perturba a harmonia feliz desse país tropical?


Valter Campanato - ABr.jpg Manifestantes sobem até no teto do Congresso Nacional (Foto: Valter Campanato/ABr)

Bertold Brecht fala, num de seus poemas, do “analfabeto político”, que não participa dos acontecimentos políticos, não sabe que o preço de tudo (do feijão, do aluguel, do remédio...) depende de decisões políticas. Já para Aristóteles, “o homem é um animal político”. Gostando ou não, a política faz parte de nossas vidas. E a omissão em relação a ela é, por si só, um ato político.

Brecht enverada por outro viés. Segundo ele, da ignorância política originam-se problemas sociais e o pior dos bandidos: o político pilantra, “lacaio das empresas nacionais e multinacionais”. O dramaturgo e poeta alemão morreu em 1956, mas suas palavras podem ser relacionadas à conjuntura política recente do Brasil.

De repente, houve um ponto de desequilíbrio no comodismo político da nação. Numa segunda-feira, histórico dia 17 de junho de 2013, o país pegou fogo. Centenas de milhares de pessoas lotaram ruas e avenidas de 12 capitais brasileiras, ao mesmo tempo, protestando contra a corrupção, o preço das tarifas de transporte coletivo, gastos com a Copa do Mundo de 2014, privilégios da classe política etc. E pediam melhoria nos serviços públicos de saúde, educação e segurança.

Foi assim durante aquela semana. Houve vandalismo, violência, repressão policial, militância partidária... Mas a gente comum, engrossada pela juventude, deu o tom de uma manifestação popular cívica e pacífica. A partir daí, um clichê povoou as passeatas e tomou conta das redes sociais na internet: “O gigante acordou!” E durante alguns dias, até enquanto ocorria a Copa das Confederações de 2013, torneio internacional organizado pela Fifa, manifestações eclodiam em vários Estados.

Fábio Rodrigues Pozzebom - ABr.jpg Manifestante levanta cartaz: 'O gigante acordou!!! O Brasil era lembrado pelo futebol, agora será recordado por sua revolução!!!'; ao lado, rapaz veste camisa da seleção brasileira (Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/ABr)

Isso contribuiu ainda mais para uma repercussão internacional do caso. O jornal "The New York Times" pode resumir o olhar estrangeiro sobre o país do futebol: “Por que os brasileiros estão irritados?”, era um destaque da primeira página do diário ianque. A pergunta soava como que uma interjeição de espanto. A imagem do país tropical em festa permanente, com carnaval, samba, mulatas, futebol e cachaça, estava em xeque. Afinal, o que perturbava a harmonia feliz dos habitantes daquele “impávido colosso”? O que estava havendo com aquele poder democrático estável? Vejamos...

Por meio da democracia, espera-se o atendimento dos anseios populares. Em tese, o cidadão comum quer ver a defesa de seus interesses feita pelos representantes que ele elegeu mediante o voto direto. Porém, a prática comum não bate com essa bela teoria democrática. Esses eleitos, em sua maioria, defendem interesses de si mesmos e de determinados grupos sociais de grande potencial econômico.

Quando partidos políticos não representam o povo, a democracia fica abalada. Além disso, o senso comum os considera “farinha do mesmo saco”. Ou seja, sobretudo em época de eleição, os grandes partidos se tornam homogêneos num caldeirão único, o que colabora para se questionar a ideologia, a fidelidade partidária e, também, a democracia. Um perigo, porque isso, associado à decepção com a política, faz surgir abominações como grupos que pedem a volta da ditadura e da tirania.

Melhor que, como se ouvissem Brecht, multidões saíram de suas casas e de seu comodismo político. Parece ter acontecido um estalo, um chamado invisível no inconsciente coletivo do povo brasileiro, que foi às ruas para se expressar indignado com o desperdício do dinheiro público em corrupção, negligência, corporativismo e incompetência. Não foi para defender o fim dos partidos políticos e o despotismo. O caso é de reforma política. É esse o grito geral a todos os partidos, que precisam mudar, já que o povo não se sente representado por eles, que, por sua própria culpa, caíram no descrédito.

Marcello Casal Jr. - ABr.jpg Aos gritos de 'sem violência!', manifestantes tentavam dialogar com a polícia; jovens engrossaram protestos ao lado de pessoas de todas as idades (Foto: Marcello Casal Jr./ABr)


Márcio Chocorosqui

Um dia aventurei-me no mundo das letras e, desde então, alimento-me do meu trabalho com as palavras e dele faço uma profissão de fé, mesmo que isso pareça ser a luta mais vã.
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