Márcio Chocorosqui

Um dia aventurei-me no mundo das letras e, desde então, alimento-me do meu trabalho com as palavras e dele faço uma profissão de fé, mesmo que isso pareça ser a luta mais vã

Minha rua

A imagem da rua onde eu moro. Quais seus sons, seu cheiro... Como são as casas que a integram. O que acontece nela: coleta de lixo, vendedores que passam de manhã, um diálogo entre moradores. Como é este meu olhar sobre esse objeto descrito? O que há de inventado, o que há de real? Nem eu sei mais. No momento em que a captei, parece que era assim...


Rua.JPG Fios emaranhados riscam o céu sobre essa rua com detalhes que alimentam um olhar mais demorado (Foto: Arquivo Pessoal)

Minha rua é uma mistura de tijolos, asfalto e buracos. As casas que a compõem são tristes. Todas construídas em alvenaria, do tipo que são ampliadas aos poucos, o que resulta em quadrados mal rebocados de cimento. A maioria delas tem, de fachada, varandas fechadas com grades de ferro, muito bem trancadas a cadeado (uma proteção gerada pelo medo de furtos e assaltos, o que torna cidadãos de bem prisioneiros em seus próprios lares).

Além disso, outras coisas enfeiam minha rua: postes de concreto, carregando uma fiação emaranhada de telefonia e de energia elétrica; calçadas carcomidas e quebradas; becos transversais de terra, enlameados quando chove, cheios de entulho e mato. Por falar em chuva, minha rua vira um verdadeiro rio quando chove forte. Por ser uma rua reta e meio plana, a água acumula e escorre numa correnteza intensa que desemboca na avenida fronteira.

Tomara que você não passe na minha rua em dia de coleta do lixo. Esse é o momento em que se tem dela uma visão desoladora e se sente um inconveniente fedor. Enquanto sacolas de supermercado cheias de lixo esperam a passagem do caminhão para recolhê-las, são atacadas por cães vadios e urubus. Eles rasgam os sacos, à procura de comida estragada, deixando lixo espalhado por todo canto e o mau cheiro. Espantam-se quando o caminhão arrocha na entrada da rua. Aí se segue a revoada negra dos urubus sobre o lixo remexido e cães fugindo ao estilo “salve-se quem puder!”.

Apesar de tudo, minha rua tem lá um certo charme à moda antiga, ao qual não sou muito afeito. É que minha rua começa a acordar bem cedo, com o grito de alguns vendedores, preferencialmente aos sábados. De início, surge o padeiro, devagar em sua bicicleta, mas arregaçando o berro da garganta: “PAAAAAADÊRO!!!”

Ao ouvi-lo, dentro do meu quarto, eu me reviro na cama e espero que ele vá logo embora. Depois, passa o segundo vendedor. Igualmente artista do grito, retira, das entranhas dos pulmões, as palavras que o identificam: “OLHA A VEEEEERDUUURA!!!”

Ao que se segue o som de cadeados, correntes e ferrolhos dos vizinhos, que abrem seus portões para ver e escolher o que lhes oferece o verdureiro: couve, cheiro-verde, pimenta-de-cheiro, maxixe, macaxeira... Então escuto alguns diálogos matinais, tais que este:

“Dá pra fazer um bom cozidão.”

“Pra salada tem alface e pepino.”

“Misturo com um pouco de limão.”

“Com macaxeira o caldo não fica fino.”

“Boas vendas então, seu Sebastião.”

“Amanhã é outro dia, dona Maria.”

Menos mal que, rápido, o vozerio de fora vai ficando cada vez mais longe, me deixando, apenas, com a vontade de mais uma indolente soneca. Eis que o derradeiro vendedor, embora menos frequente que os outros dois, não demora a apresentar-se: “PEIXE! PEIIIIIIXÊÊÊ!!!”

O grito estridula rua afora. Impossível permanecer-lhe impassível. Após o comércio em domicílio, os moradores começam a sair para o trabalho e para levar os filhos à escola. Nessa hora, há movimento e barulho: carros funcionando, portas e grades se abrindo e se fechando, molecada conversando... Depois, impera o silêncio e a tranquilidade. Minha rua fica assim pelo resto do dia. E, em paz, no fundo do meu quarto, me aconchego sobre o colchão macio, até que um sono preguiçoso chega para me fazer esquecer o que há de feio em ruas, cidades e países, o que há de feio no mundo. Pelo menos no breve tempo de apenas um cochilo. Ou será que tudo não passa de um sonho?

Rua (2).JPG Apenas uma rua mista de asfalto e tijolo, composta por casas gradeadas e calçadas irregulares (Foto: Arquivo Pessoal)


Márcio Chocorosqui

Um dia aventurei-me no mundo das letras e, desde então, alimento-me do meu trabalho com as palavras e dele faço uma profissão de fé, mesmo que isso pareça ser a luta mais vã.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/recortes// //Márcio Chocorosqui