Márcio Chocorosqui

Um dia aventurei-me no mundo das letras e, desde então, alimento-me do meu trabalho com as palavras e dele faço uma profissão de fé, mesmo que isso pareça ser a luta mais vã

Olhando a arte de Danilo de S'Acre

Danilo de S’Acre é um artista plástico brasileiro, fixado na região amazônica. Aprimorou sua arte, manifestada em telas, ilustrações, gravuras e esculturas, na Itália, onde permaneceu por 13 anos. Utiliza elementos naturais da floresta para compor suas obras. O resultado é uma produção abstrata que nos convida a uma viagem insólita.


Olho da Esfinge.jpg 'Olho da Esfinge' (1995). Esmalte e látex sobre madeira

Lápis ou pincel na mão, o artista prossegue, a traços lentos. Concentrado em sua viagem interior, pacientemente cuida de minuciosos e imprescindíveis detalhes. O tempo se lhe torna abstração. Passam as horas do dia e da noite enquanto sua imaginação segue transfigurada na tela. Ele, porém, não se perturba. Sabe que uma precipitação pode prejudicar todo o trabalho. Aos poucos e naturalmente, a obra vai adquirindo seus contornos, num fluxo iluminado que persistirá desde o esboço até a finalização.

O leão e o leopardo.JPG 'O Leão e o Leopardo' (1995). Spray, tinta acrílica e cipó sobre madeira

Talvez essa descrição se encaixe no modo de produção de muitos que trabalham (ou trabalharam) com a arte da pintura. Assim ocorre com Danilo de S’Acre, artista plástico brasileiro, nascido no Estado do Acre, região amazônica, em 12 de julho de 1958. Aos 22 anos, partiu para a Itália, onde passou uma temporada de 13 anos, período em que fez estágio com artistas europeus e estudou arte intensamente, além de participar de cursos em restauração de objetos etnográficos. Na época, expôs em Roma, Ancona, Milão, Valletri, Reggio di Calabria e San Giovanni Rotondo. De volta à terra natal, estabeleceu-se, fazendo exposições individuais e participando de coletivas.

A Santa Ceia.jpg 'A Santa Ceia' (1995). Látex, spray, espelho, prato, metal, sementes, juta e arame farpado sobre madeira

Ele produz quadros, gravuras, ilustrações e esculturas. Usa elementos naturais da floresta amazônica em sua arte, como folhas, sementes, fósseis, cipós e argila, além de material reciclado, como sucata. Seja na produção de uma ilustração, de um painel ou de um quadro, seu modo de ser é sereno, absorto às convulsões do tempo e do espaço. Mas o fazer artístico não se opera apenas na formalização do ato; não começa com o primeiro traço ou pincelada. Está na ideia, que é revolvida e amadurecida na memória. Aproveitando os momentos de inspiração, Danilo tem a ideia e as técnicas para representá-la através de sua arte. No entanto, não é apenas isso.

Considerações antropológicas.jpg 'Considerações Antropológicas' (1999). Argila, areia, spray e tinta acrílica sobre tela

O grande poeta lusitano Fernando Pessoa, ao discorrer sobre arte no livro “Páginas de Doutrina Estética”, faz crer que, para ser mesmo artista, é necessário ter instinto, porque a invenção é um ato de instinto e deste provém a ideia. Danilo é desses que tem o instinto de artista, o que talvez explique a origem de suas criações: são-lhe instintivas e até mesmo inconscientes.

Poema sonoro.JPG 'Poema Sonoro' (1995). Látex, cinzas, metal, casca de coco, barbante e cipós sobre madeira

É notório que a matéria-prima para a construção da obra de arte o artista retira da realidade. Ele capta, interioriza, ultrapassa, idealiza a realidade. De personalidade subjetiva, o artista vê além do que se lhe apresenta aos olhos. E o instinto promove a invenção. Na obra de arte fica expressa uma tradução particular da sensação. Citando diretamente Fernando Pessoa: “A arte é apenas e simplesmente a expressão de uma emoção.” Contudo: “O artista não exprime as suas emoções. Exprime, das suas emoções, aquelas que são comuns aos outros homens.”

Haikai.jpg 'Haikai' (1995). Tinta marítima, areia e cascas de árvores sobre madeira

Nesse sentido, o trabalho artístico oferece a seu apreciador uma possibilidade para a identificação com o artista. Há uma relação de simbiose entre o artista, sua criação e aquele que a observa. Se o observador consegue compreender a linguagem do artista, significa que, por alguns momentos, transcende o plano da existência física e faz-se também artista. E é essa uma das finalidades da arte: elevar os sentidos acima de tudo que seja limitado e supérfluo.

Colocação Sandália de Prata.JPG 'Colocação Sandália de Prata' (1995). Látex, spray, esmalte, sandália e juta sobre madeira

O artista Danilo de S’Acre, à medida que, espontaneamente, escamoteia o sentido da obra, trava com o observador uma relação muito própria. O observador, confiante num tipo de impacto, recebe outro que não esperava, surpreendendo-se ao perceber a existência de significados muito diferentes, tal qual num “efeito colateral”. Assim, o sentido lhe prega uma peça e a relação é falseada; o artista indica-lhe o caminho para novas perspectivas.

ET.JPG 'ET' (2003). Conduítes, CD, plásticos, spray e tinta acrílica sobre tela

Proporcionando-nos um desdobrar constante de interpretações, a arte de Danilo nos liberta da superficialidade. Perambular por seus detalhes, traços e cores é mais que simples deleite; é compreender que podemos enxergar além das aparências. Só arte assim é capaz de nos transportar numa viagem esfuziante de sinestesias, através da qual sentimos o que vemos e vemos o que não sentimos.

Menina domando um dragão incendiado.jpg 'Menina Domando um Dragão Incendiado' (1990). Técnica mista sobre papel

©Obras de Danilo de S’Acre


Márcio Chocorosqui

Um dia aventurei-me no mundo das letras e, desde então, alimento-me do meu trabalho com as palavras e dele faço uma profissão de fé, mesmo que isso pareça ser a luta mais vã.
Saiba como escrever na obvious.
version 6/s/artes e ideias// @destaque, @obvious //Márcio Chocorosqui