Márcio Chocorosqui

Um dia aventurei-me no mundo das letras e, desde então, alimento-me do meu trabalho com as palavras e dele faço uma profissão de fé, mesmo que isso pareça ser a luta mais vã

À procura do corpo perfeito

Para se encaixar no atual padrão de beleza, muita gente não se satisfaz apenas com academias de ginástica e cosméticos. É necessário recortar a própria carne, esticar e puxar aqui e ali, por meio de cirurgias plásticas que são repetidas até a exaustão. Por que essa obsessão para se atingir o corpo perfeito, à custa de bisturi e sangue?


Igor Ricardo.jpg ©Ilustração: Igor Ricardo

O tema da reportagem é a busca da beleza. A repórter começa entrevistando uma mulher de meia-idade, uma balzaquiana, digamos. Para não ser exato, acho que orçava lá pelos seus 40 anos. “Quantas cirurgias plásticas você já fez?”, sapeca logo de cara a repórter. Por ter perdido as contas, a mulher vai colocando as mãos em partes do corpo e enumerando: oito no rosto, três nas pálpebras, duas próteses de silicone nos seios (por sinal, apalpados e exibidos com orgulho), além de outras tantas cirurgias nas axilas, barriga e pernas.

Em alguns instantes, ela contabiliza cerca de 20 intervenções cirúrgicas a fim de buscar o que para si seria o corpo perfeito. Explica que isso começou na casa dos seus 20 anos. Queria diminuir o culote. “Uma perna ficou maior que a outra”, declara. Aí uma nova operação foi feita para corrigir a perna. Desde então, não parou mais. Aproveitando essa deixa, a repórter corta para a entrevista com um médico, que expõe sua opinião de especialista, como manda a cartilha do bom jornalismo.

Reportagens como essa povoam noticiários da TV e capas de revistas. Telespectadores e leitores já estão tarimbados no assunto. Chego a desconfiar que corro o risco de chover no molhado com este artigo. Mas, como diz o mestre e jornalista Francisco Dandão, versado nas artes das crônicas em chutes nas redes do improvável, no jornalismo em tempos de internet, assim como na natureza, nada se cria, tudo se transforma (ou se copia mesmo!). Isso posto, prossigo.

Sabe-se que há riscos para a pessoa que topa uma cirurgia plástica. Podem ocorrer infecções, sangramentos, perfuração de órgãos e hematomas. Os próprios médicos falam disso. Inclusive, chegam a embargar determinadas operações, a depender de uma avaliação das condições clínicas do paciente. Além disso, não raros casos de morte no leito de cirurgia plástica ou por complicações dela decorrentes são registrados e amplamente divulgados.

No entanto, por que essa incessante busca pelo corpo perfeito, à custa de bisturi e sangue? A psicologia explica que a mídia tem uma grande influência sobre seu público. Por isso, não é de se espantar que o padrão de beleza por ela veiculado seja a galinha dos ovos de ouro de muitas pessoas. Desse modo, homens e mulheres comuns estão cercados de anúncios que utilizam modelos esteticamente perfeitos. São as moças ou os rapazes que olham do alto dos outdoors, estão nas propagandas e novelas da TV ou nas páginas das revistas, derramando sensualidade, expondo seus rostos magníficos e corpos deslumbrantes: a reprodução da beleza a ser desejada.

Numa guerra contra o espelho, há pessoas (ainda jovens) que não aceitam sua imagem fora do padrão estético vigente. Ou simplesmente estão insatisfeitas com o próprio corpo. Assim, não bastam academias de ginástica, dietas, cosméticos e salões de beleza. É preciso cortar a própria carne, esticar e repuxar aqui e ali. Tudo bem que isso seja feito de forma responsável e conforme o mais alto grau de profissionalismo. Afinal, os avanços da medicina e da tecnologia devem estar a serviço da humanidade. Contudo, a recorrência ao bisturi para alterar a aparência é um problema quando se torna obsessão, passando a ser um ato inúmeras vezes repetido, sem a devida necessidade.

Agora, para dar audiência (e bancar o sabichão), mancharei estas pretensiosas linhas com sangue, contando uma historieta macabra. Na mitologia grega, Procusto era um malfeitor que capturava viajantes para fazê-los caber numa espécie de leito de ferro. Se fossem maiores que o leito, cortava-lhes pedaços a golpes de machado. Se menores, os esticava. Metaforicamente, eu mesmo prefiro não caber no leito de Procusto. À procura do corpo perfeito? Não. Mas ainda estou à procura da batida perfeita. De limão.


Márcio Chocorosqui

Um dia aventurei-me no mundo das letras e, desde então, alimento-me do meu trabalho com as palavras e dele faço uma profissão de fé, mesmo que isso pareça ser a luta mais vã.
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