Márcio Chocorosqui

Um dia aventurei-me no mundo das letras e, desde então, alimento-me do meu trabalho com as palavras e dele faço uma profissão de fé, mesmo que isso pareça ser a luta mais vã

Quando o segundo sol chegar

O fim do mundo é um tema que fascina a humanidade e, de vez em quando, aparece no topo das discussões. Até então, todas as datas marcadas para o mundo acabar falharam, como a suposta profecia dos maias. Não obstante, a tese de Nibiru ou de um segundo sol em rota de colisão com a Terra persiste e se transforma numa teoria da conspiração com elementos bastante imaginativos.


Reimund Bertrams (DasWortgewand) - Pixabay.jpg Nibiru seria um segundo sol visível aos habitantes da Terra, contra a qual se chocaria, destruindo-a (Arte: Reimund Bertrams/Pixabay)

Na primeira década do século 21, as especulações sobre o fim do mundo se intensificaram. O planeta tal como o conhecemos teve até data marcada para acabar: 21 de dezembro de 2012, uma sexta-feira. Esse dia teria aparecido de uma suposta profecia dos maias, civilização surgida 4 mil anos atrás, entre a América Central e o México. Isso foi associado à tese do planeta Nibiru (ou Hercólubus, Chupão, entre outros nomes), que entraria em nossa órbita, provocando alterações climáticas catastróficas, e se chocaria contra a Terra, também no final de 2012.

Esse fim do mundo rendeu artigos, livros, seriados de TV e até uma superprodução hollywoodiana: o filme catástrofe “2012”, dirigido por Roland Emmerich e lançado em 2009. Os maias, povo que tem certa aura mística e extraterrena, ganharam destaque na mídia mundial, seja por confirmações, seja por desmentidos de sua profecia. Os historiadores foram taxativos: não existiu essa previsão ou lenda na cultura maia. Tudo não passou de um equívoco.

Filme 2012.jpg Cena do filme '2012', superprodução do gênero catástrofe, que tematizou o fim do mundo conforme profecia maia (Foto: Divulgação)

A fonte da profecia, uma inscrição num monumento de pedra localizado nas ruínas da cidade maia de Tortuguero, no sul do México, não tratava do final dos tempos tão alarmado, mas do fim de um grande ciclo do complexo calendário dos maias. Daí que esse foi mais um fim do mundo que fracassou e acabou virando alvo de chacotas. Já a tese do planeta desconhecido, Nibiru, resiste até hoje, pois se transformou numa teoria da conspiração cinematográfica. Vamos às suas origens...

Nibiru é o nome do planeta de onde vieram alienígenas que colonizaram a Terra, segundo o escritor azerbaijano Zecharia Sitchin, no livro “O 12º Planeta” (1976), baseado em suas interpretações da mitologia suméria, as quais foram refutadas por historiadores. Esse planeta estaria vindo em rota de colisão com a Terra. Essa ideia prosperou entre místicos e ufólogos a partir dos anos 1990.

Zecharia Sitchin - Foto - Wikimedia Commons.jpg Zecharia Sitchin teria interpretado inscrições da mitologia suméria para escrever 'O 12º Planeta', livro de sucesso entre curiosos, místicos e ufólogos (Foto: Wikimedia Commons)

Nancy Lieder, uma norte-americana do Wisconsin, ganhou espaço no rádio e na TV de seu país ao anunciar, em 1995, a vinda do planeta X, quatro vezes maior que a Terra, o qual seria o mesmo Nibiru de Sitchin. Na época, ela se disse emissária do sistema estelar Zeta Reticuli, por meio de um chip implantado em sua cabeça pelos ETs, com os quais teve contato ainda jovem. Para retransmitir as mensagens dos zetas, Nancy fundou o site Zeta Talk. Uma das mensagens alienígenas consistia na passagem do planeta X pelo nosso Sistema Solar, em 27 de maio de 2003, o que causaria um cataclismo na Terra, com destruição de grande parte da humanidade.

Como se sabe, Nancy ou os zetas se enganaram, pois isso não aconteceu. Não obstante os constantes furos na hora de acabar o mundo, a ideia de Nibiru ainda povoa a internet. Aqui a história entra mesmo no campo da teoria da conspiração. A personagem agora é Pattie L. Brassard. Ela seria ex-funcionária da Nasa, do setor de comunicação e defesa do exército americano e da Microsoft, um currículo que lhe deu acesso a informações secretas do governo.

Gerd Altmann (Geralt) - Pixabay (3).jpg A Terra ainda não foi destruída, embora com muitas previsões para isso; personagens como Nancy Lieder e Pattie L. Brassard povoam a internet em teorias do fim do mundo (Arte: Gerd Altmann/Pixabay)

Por isso, Pattie anunciou uma verdade escondida, pegando carona em Nibiru. Este seria, de fato, um segundo sol que, com seus sete planetas, entraria na órbita terrestre, provocando devastações sem precedentes na superfície da Terra, que não seria destruída e renasceria como um novo mundo. Uma elite mundial teria essa informação privilegiada, estaria preparada já com abrigos e mantimentos para sobreviver à hecatombe, elegendo os Estados Unidos como lugar do renascimento planetário.

Sem querer frustrar os alarmistas da destruição mundial, mas astrônomos eliminam a hipótese de Nibiru facilmente: se existisse, um planeta dessas proporções, próximo da Terra, poderia ser visto a olho nu muito tempo antes de uma colisão. Embora rejeitadas pela ciência por ora, as profecias ou teses de fim do mundo atraem a atenção e a curiosidade de incrédulos e místicos ao longo da história. E continuará sendo assim até que, um dia, seja mesmo o fim do mundo.

Fonte da imagem Cloud Rider.jpg A temática do fim do mundo persegue a humanidade ao longo dos séculos, misturando realidade e ficção, produzindo discussões e chamando a atenção dos mais céticos (Arte: New 1lluminati/Flickr)


Márcio Chocorosqui

Um dia aventurei-me no mundo das letras e, desde então, alimento-me do meu trabalho com as palavras e dele faço uma profissão de fé, mesmo que isso pareça ser a luta mais vã.
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