Márcio Chocorosqui

Um dia aventurei-me no mundo das letras e, desde então, alimento-me do meu trabalho com as palavras e dele faço uma profissão de fé, mesmo que isso pareça ser a luta mais vã

O Brasil nas copas das conspirações

Em época de Copa do Mundo, emergem teorias da conspiração sobre manipulações extracampo de resultados de jogos. Vejamos casos em que o Brasil está envolvido: a Espanha teria vendido a Copa das Confederações de 2013? Haveria fraude no sorteio dos grupos da Copa de 2014? Houve esquema entre Brasil e França em 1998? O Peru facilitou contra a Argentina em 1978? E a água “benta” de Maradona em 1990?


Estádio.jpg Torcedores lotam estádios em copas do mundo; seriam eles enganados com jogos 'arranjados'? (Foto: Wiki Images/Pixabay)

Teorias da conspiração no esporte são bastante comuns. O futebol, sobretudo, é alvo constante de várias delas. Seja em sites e redes sociais, seja em rodas de conversa do dia a dia, ninguém consegue passar batido diante da boataria que começa a espalhar-se feito rastilho de pólvora. Para além das quatro linhas do gramado, levantam-se suspeitas sobre venda de jogos, manipulação ou combinação de resultados.

As copas do mundo e tudo que lhes dizem respeito são campo fértil para esse tema. Façamos uma contagem regressiva de teses e versões conspiratórias que envolvem a seleção brasileira, a partir de 2013. Há quem diga, principalmente os espanhóis, que na final da Copa das Confederações, a Espanha vendeu o jogo para o Brasil, ao perder, surpreendentemente, por 3 a 0, inclusive desperdiçando um pênalti após esse placar. Diriam que foi uma negociação para acalmar os ânimos das manifestações políticas iniciadas, no país, em junho daquele ano. Qual seria o preço pago pelo Brasil?

Tânia Rêgo - ABr.jpg Brasil vence, com certa facilidade, Espanha por 3 a 0 no Maracanã, em 30/6/2013, na final da Copa das Confederações (Foto: Tânia Rêgo/ABr)

Segundo conspiracionistas, houve marmelada no sorteio de grupos da primeira fase da Copa de 2014. Trata-se de fraude na manipulação das bolinhas sorteadas de potes e abertas pelo secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke. Ele teria, disfarçadamente, trocado os papéis com o nome dos times para formação das chaves de grupos. Um vídeo postado no YouTube e que se tornou viral na internet demonstraria a tramoia. Não por acaso, Valcke é francês. O que isso significa? Nada.

Mas o suposto esquema com a França, na final da Copa de 1998, é, de longe, a teoria da conspiração mais famosa que envolve o Escrete Canarinho (seleção brasileira, para os mais jovens). O que teria ocorrido para que o Brasil, com time superior, levasse um chocolate de 3 a 0 dos franceses comandados por Zinedine Zidane? Três hipóteses se destacam sobre as demais.

PeeJay.bmp Apesar de, teoricamente, superior no papel, Brasil foi atropelado pela França na final da Copa de 1998 (Arte: PeeJay/Wikimedia Commons)

A primeira envolve uma misteriosa convulsão de Ronaldo Nazário, o Fenômeno, então em plena forma. Diz a teoria da conspiração que a CBF e a Nike, que patrocinava o time, exigiram que Ronaldo jogasse, mesmo baqueado, por obrigação contratual. Ele jogou, ou melhor, “esteve em campo”. Os outros jogadores do Brasil, chocados com a convulsão pouco antes da final, parece que foram contagiados pelo enfermo e, com ele, tomados por uma pane. Pela segunda hipótese, o Brasil teria vendido a copa em troca de sediar copas posteriores ou vencer a próxima, em 2002. Realmente, coincidência ou não, ambas as hipóteses se concretizaram. Uma terceira suposição conspiratória aborda o envenenamento de Ronaldo pelo cozinheiro francês da concentração (quem sabe, o ratinho do desenho “Ratatouille”).

Regredindo oito anos, chegamos a 1990. Nas oitavas de final, contra a Argentina, o Brasil perdeu por 1 a 0, com o afamado gol de Caniggia. Durante a partida, houve o episódio da água “batizada” de Maradona. Em paradas por faltas, os argentinos ofereciam sua água aos brasileiros. O jogador Branco teria sido o mais afetado. A água continha calmante ou sonífero. Anos depois, por pilhéria ou não, Maradona confirmou a história.

Fonte da imagem Maradona.jpg Na Copa de 1990, Maradona teria, de fato, idealizado 'boa noite Cinderela' em água servida a brasileiros? (Foto: Philip Choi/Flickr)

Menos 12 anos e mais uma tese, agora sustentada no Mundial de 1978, também referente à Argentina, dona da casa, na ocasião. Houve uma situação em que, para se classificar, a anfitriã deveria golear o Peru por quatro gols de diferença. Fato é que o Peru, líder de seu grupo, considerado bom time, amoleceu e perdeu por 6 a 0. Assim, o Brasil, mesmo cumprindo o seu dever e ganhando da Polônia por 3 a 1, foi desclassificado sendo invicto. Para os conspiracionistas, pesa, no caso, o fato de o goleiro do Peru, Ramón Quiroga, ser argentino de nascença. Ele teria sido subornado para dar uma, ou melhor, duas mãozinhas aos argentinos.

Sobre essas tramas conspiratórias implicando a seleção brasileira em copas do mundo, muita gente vira a cara: “É bobagem!”; muita gente, até de renome no meio futebolístico, as defendem como verdade e se exaltam: “É uma vergonha!”; enquanto há quem prefira ficar com um pé atrás: “Talvez seja possível.” Enfim, cada um tira suas próprias conclusões.

Copa 2014.png Copa de 2014, com o Brasil como sede: continuidade das teorias conspiratórias (Arte: Aungkarns/Openclipart)


Márcio Chocorosqui

Um dia aventurei-me no mundo das letras e, desde então, alimento-me do meu trabalho com as palavras e dele faço uma profissão de fé, mesmo que isso pareça ser a luta mais vã.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/recortes// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Márcio Chocorosqui