Márcio Chocorosqui

Um dia aventurei-me no mundo das letras e, desde então, alimento-me do meu trabalho com as palavras e dele faço uma profissão de fé, mesmo que isso pareça ser a luta mais vã

O começo do fim do mundo

O mundo pode acabar? Cientistas afirmam que sim, daqui a bilhões de anos, por fatores naturais, oriundos do espaço, ou a qualquer momento, pelo potencial destrutivo da humanidade, com guerras e agressões à natureza. Enquanto isso, profecias dos índios hopi, cantadas no filme “Koyaanisqatsi”, alertam que precisamos viver de outra forma, para que a vida não se desintegre.


Fonte da imagem Cracked World.jpg Hoje, para além de uma hipótese científica de destruição do planeta num futuro muito distante, observam-se parcelas de fim do mundo a cada momento (Arte: New 1lluminati/Flickr)

Há um filme cujo nome chega a impor dificuldade de pronúncia: “Koyaanisqatsi” (1983), dirigido por Godfrey Reggio. Esse longa-metragem termina com uma inscrição na qual se lê este trecho: “Um vaso cheio de cinzas poderá um dia cair do céu; poderá queimar a terra e agitar os mares.” Trata-se de uma profecia apocalíptica da tribo indígena norte-americana hopi, a respeito de uma extinção cíclica dos homens, talvez causada pela queda de um meteoro ou asteroide.

O título do filme, aliás, escrito na língua hopi, significa “vida desequilibrada e louca, em confusão, desintegrando-se”. Em consonância com a mitologia dessa tribo, o filme transmite a mensagem, sem utilizar diálogos ou locução, de que não estamos vivendo da maneira correta. Ou seja, a vida moderna está descontrolada, demasiadamente veloz, influenciada pela tecnologia e pelo capitalismo. É preciso viver de outra forma, senão a vida se consumirá.

Fonte da imagem Koyaanisqatsi-MGM Divulgação.jpg Cena do filme 'Koyaanisqatsi' que destaca a superpopulação e a correria do mundo moderno (Foto: Divulgação)

Por um lado, cientistas não descartam o fim da humanidade ocasionado por um fator extraterreno, de modo idêntico ao que ocorreu com os dinossauros, 65 milhões de anos atrás, quando foram extintos devido à queda de um asteroide gigantesco, de até 15 quilômetros de extensão. Embora essa possibilidade seja bastante remota para os próximos séculos, há estudos e projetos científicos em andamento com o intuito de prever tal catástrofe (das universidades de Oxford e Cambridge e da Nasa).

Por outro lado, a humanidade pode se autodestruir, em decorrência de seu grande potencial bélico. O século 20 conheceu instrumentos para preservar, estender e aprimorar a vida, por força da ciência e da tecnologia. Mas conheceu também instrumentos para destruí-la. E deu exemplo de que isso pode acontecer, no final da 2ª Guerra Mundial (1939-1945), quando bombas atômicas foram lançadas e explodiram sobre as cidades de Hiroshima e Nagasaki, no Japão, o que, estima-se, ocasionou, em longo prazo (pelos efeitos da radiação), a morte de aproximadamente 300 mil pessoas.

Fonte da imagem N 9 Army Film & Photographic Unit - Imperial War Museums (IWM).jpg Ruínas de Hiroshima, o alvo da primeira bomba atômica a ser lançada sobre a cidade; 80.600 pessoas foram mortas instantaneamente (Foto: N 9 Army Film & Photographic Unit/Imperial War Museums)

Isso não é tudo. Vez por outra, desastres climáticos ocupam os noticiários e informam sobre a morte de centenas de pessoas, seja por alagações, terremotos, maremotos, furacões ou tsunamis. Diante de casos assim, espectadores mais velhos costumam exclamar: “É o fim do mundo!” Pessoas que, pela idade e experiência, já presenciaram e vivenciaram diversos acontecimentos históricos surpreendem-se com o que assistem agora. Também ficam chocadas com parcelas de “fim do mundo” em atrocidades e violências do cotidiano que revelam ser o homem capaz de empreender as mais absurdas barbaridades contra seu próprio semelhante e contra si mesmo.

É certo que há possibilidades reais e físicas de uma extinção em massa da vida na Terra, conforme prognosticam pesquisadores e cientistas: possivelmente daqui a milhões (ou bilhões) de anos, em virtude de causas oriundas do espaço, ou a qualquer hora, em virtude de catástrofes climáticas (ocasionadas pelas incessantes agressões do homem à natureza ao longo das épocas). Já a chance de uma guerra nuclear, apesar de ter preocupado mais no passado, não significa que esteja descartada atualmente (dados da ONU dão conta que mais de dez ogivas nucleares de oito países estão prontas para uso).

Fonte da imagem Don Davis-Nasa.jpg Asteroide de grandes proporções teria extinguido dinossauros há 65 milhões de anos; atualmente, não existe essa ameaça para o planeta (Arte: Don Davis/Nasa)

Portanto, há risco de a humanidade acabar, sobretudo num futuro muito distante. Será o fim do mundo! Mas há de se considerar um fim do mundo simbólico que está acontecendo neste exato momento, pelo qual a vida se desintegra e se corrompe a cada instante, no dia a dia. Aquele que está em cada partícula de qualquer mazela social. Está na intolerância religiosa e falta de respeito entre os indivíduos. Está na inflexibilidade entre as nações, na violência, na imensurável quantidade de acidentes de diversos tipos. Está na corrupção política, na fome, na miséria, nas guerras... Está na imposição pela força bruta e pelo terror. Em tudo isso reside o que, se não é o fim do mundo de fato, pode ser considerado um começo.

Fonte da imagem Zina Deretsky-National Science Foundation.jpg Outra tese levanta a possibilidade de extinção dos dinossauros por erupções vulcânicas; causas internas também ameaçam a vida na superfície da Terra (Arte: Zina Deretsky/National Science Foundation)


Márcio Chocorosqui

Um dia aventurei-me no mundo das letras e, desde então, alimento-me do meu trabalho com as palavras e dele faço uma profissão de fé, mesmo que isso pareça ser a luta mais vã.
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