Márcio Chocorosqui

Um dia aventurei-me no mundo das letras e, desde então, alimento-me do meu trabalho com as palavras e dele faço uma profissão de fé, mesmo que isso pareça ser a luta mais vã

Não cultive este pé de fumo

A escrita nos permite, por meio da retórica, tomar o partido que quisermos. Tudo pode ter um ponto de vista favorável ou contrário. Exemplo: fumar faz mal à saúde e pode levar à morte! Diante dessa sentença, como argumentar contra? Fumantes têm sido banidos do convívio social. Como defendê-los? Quais os benefícios do cigarro? Ei-los, com uma baforada de ironia.


Fonte da imagem George Hodan - Public Domain Pictures.net.jpg Modelo posa para foto em clima de cinema noir; preto e branco, pouca luz e uma névoa que se mistura à fumaça de cigarro (Foto: George Hodan/Public Domain Pictures.net)

Alguém faz uma proposta instigante ao modesto escriba:

“Por que não escrever algo politicamente incorreto?”

“O quê, por exemplo?”

“Talvez um texto que defenda o consumo do cigarro ou algo do tipo.”

Então foi plantada uma semente. Eis que nasceu este pé de fumo, que não recomendo seja cultivado. Vamos a ele:

O cigarro traz grandes benefícios para a economia de um país. Gera milhares de empregos nas fábricas e plantações do tabaco, arrecada muito em impostos e, por mais estranho que pareça, ajuda a economizar na área de saúde. Pois a morte antecipada de fumantes propicia ao governo a redução de gastos com idosos e com o sistema de pensão e da previdência social.

j4p4n - Openclipart.png O cigarro perdeu espaço na sociedade do século 21; sofreu sucessivos ‘nocautes’ do Estado, o que deixa os fumantes exilados (Arte: J4p4n/Openclipart)

Significa que o cigarro contribui para diminuir o número de pessoas que dão despesa na saúde pública, porque, muitas delas, se fumam demais, morrem antes do tempo. Com menos gente para cuidar, sobremodo na velhice, mais economia para os cofres públicos. Por outro lado, há de se destacar as vantagens que o fumo proporciona ao indivíduo. Entre as principais, estão os efeitos terapêuticos e psicológicos do tabaco: serve para acalmar os nervos, reduzindo o estresse e a ansiedade; ajuda a pensar melhor, aumentando a capacidade de concentração; consola nas horas de sofrimento, funcionando como um paliativo para as dores do espírito.

E não é somente isso. O cigarro emagrece, à medida que colabora para a diminuição gradual do paladar, tirando um tanto do sabor dos alimentos. Por isso, quando alguém para de fumar, tende a aumentar de peso. Além de contribuir para o controle da obesidade, um sério problema contemporâneo, o cigarro não embriaga, como o álcool. Se, ao invés de ingerir algumas cervejas, o indivíduo fumar um maço de cigarro e for dirigir seu automóvel, normalmente estará isento do risco de causar um grave acidente de trânsito. Já um bêbado...

Warnerbros.com.jpg Cartaz do filme ‘Casablanca’ (1942), de Michael Curtiz, uma história de amor impossível, embalada pela fumaça do cigarro, café, drinks e jazz (Arte: Divulgação/Warnerbros.com)

Outra coisa: fumar é elegante. Existe uma satisfação estética na ação do fumante em tragar e soltar a fumaça com charme. Algumas formas de manifestação da arte exploram esse lado estético do tabagismo. Richard Klein, crítico literário americano, no livro “Cigarros São Sublimes”, refere-se ao cinema, um exemplo sempre lembrado. Ele cita o filme “Casablanca”, de Michael Curtiz. Já na área da música, cita a ópera “Carmen”, de Bizet. Na literatura, os poemas de Mallarmé e Laforgue, além do romance “As Confissões de Zeno”, de Italo Svevo, etc. Já eu me lembro desses versos de “Vagabundo”, escrito por Álvares de Azevedo: “Eu durmo e vivo ao sol como um cigano,/ Fumando meu cigarro vaporoso;/ Nas noites de verão namoro estrelas;/ Sou pobre, sou mendigo e sou ditoso!”

Nessa estrofe, nota-se a expressão do personagem completamente despojado, que vive ao léu, livre das convenções sociais. No caso, o cigarro está associado à transgressão. E sempre foi ligado também a lutas de liberação sexual e política. Como se tudo isso não bastasse, fumar é legal. Ou seja, o cigarro é vendido livremente a qualquer pessoa, maior de idade, que queira consumi-lo. E não existe mais propaganda da indústria do tabaco. Trata-se de uma questão de escolha individual, de livre-arbítrio. O fumante sabe que o fumo é prejudicial à saúde (constam no verso das carteiras de cigarro horrendas imagens antitabagistas). Se escolhe fumar, está por sua própria conta e risco.

Realworkhard - Pixabay.jpg A fumaça do cigarro dissipada no ar funciona como hipnose captada pela visão de fumantes contemplativos (Foto: Realworkhard/Pixabay)

A propósito, é interessante o que diz Klein, em matéria da “Folha de S. Paulo”, no remoto dia 8 de maio de 1994 (“Klein escreve sobre fascínio do cigarro”, caderno “Mais!”, pág. 6-6): “Talvez as pessoas possam ter o direito de pesar as vantagens do cigarro contra seus riscos. Afinal, a própria vida é uma doença progressiva, da qual só nos recuperamos postumamente. Se ter saúde é estar livre da doença, só se consegue ser saudável por meio da morte.” E ponto-final.

P.S.: Link para matéria assinada por Carlos Eduardo Lins da Silva (“Folha de S. Paulo”, 8 mai. 1994)

Nemo - Pixabay.png Signo retrô do século passado; indicava a área para fumantes em espaços de convívio social (hotéis, bares, restaurantes) ou em meios de transporte (Arte: Nemo/Pixabay)


Márcio Chocorosqui

Um dia aventurei-me no mundo das letras e, desde então, alimento-me do meu trabalho com as palavras e dele faço uma profissão de fé, mesmo que isso pareça ser a luta mais vã.
Saiba como escrever na obvious.
version 4/s/recortes// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Márcio Chocorosqui
Site Meter