Márcio Chocorosqui

Um dia aventurei-me no mundo das letras e, desde então, alimento-me do meu trabalho com as palavras e dele faço uma profissão de fé, mesmo que isso pareça ser a luta mais vã

O anarquismo pela língua

Desde minha infância, eu via no ato de mostrar a língua uma rebeldia e uma desobediência. Embora nos consultórios médicos isso fosse comum, em outros contextos sociais produzia censura e repreensão. A língua comprova sua vocação anárquica na clássica foto de Einstein e no logotipo dos Rolling Stones.


Fonte da imagem M Glasgow-Flickr.jpg A língua é uma representação icônica de um estilo de vida libertário, contestador e antiautoritário (Foto: M Glasgow/Flickr)

No meu tempo de criança, eu achava a profissão de médico uma farsa. Gozando de boa saúde, poucas vezes frequentei os consultórios. Mas nessas ocasiões, duvidava da medicina. Ao entrar para a consulta, analisava aquele homem de branco e não lhe depositava muita fé. Ele parecia agir com certa displicência, olhando-me de baixo para cima e dizendo apenas: “Bota a língua pra fora.”

E era só. Daí preenchia um papel e entregava ao meu pai. Sempre me intrigou o fato de um homem de ciência, com vários anos de estudo e especialidades, formado em medicina, enfim, utilizar-se de mecanismo tão rústico para ver não sei o quê e fazer um diagnóstico. Eu pensava: o que é que ele tanto olha na minha goela? Mas o pior é que, às vezes, ele não ficava só de olhar: pegava aquele palito de picolé para me cutucar a garganta (quase eu vomitava).

Fonte da imagem Sue Clark - Flickr.jpg Parte essencial do exame médico em crianças consiste em análise da garganta (Figura: Reprodução)

Agora me pego relembrando... Puxa vida, na infância eu não compreendia os códigos sociais. Dar a língua era um ato desrespeitoso na sociedade. Porém, para o médico, era permitido. Se eu botava a língua para alguém (que não fosse o médico), vinha-me uma repreensão dos pais: aquilo era feio, eu precisava ter boas maneiras. Na minha cabeça de menino, não dava para entender.

No entanto, refletindo muito sobre o assunto, fui aprendendo a separar as coisas. Mostrar a língua dependia do contexto. Ora podia, ora não. Por desaforo, arvorei-me a defender o ato, em qualquer situação. Afinal, uma criança tinha o direito de mostrar a língua. Contudo, fui logo censurado pelos adultos. Foi quando compreendi que mostrar a língua era mais do que uma inocente criancice: era um ato de rebeldia.

Arthur Sasse.jpg Recorte de foto tirada por Arthur Sasse em 14 de março de 1951, após evento comemorativo dos 72 anos de Albert Einstein (Foto: Reprodução)

Um tempinho depois, empreendendo estudos mais complexos, vi Einstein, naquela foto histórica, dando a língua. O cara tornou-se um ídolo para mim. Não pela física, da qual eu quase nada entendia. Mas Albert Einstein, o inventor da tal Teoria da Relatividade, um homem tão celebrado em inteligência, que criou algo complicadíssimo de se entender, dava a língua!

Outro ícone que logo associei à insubordinação e à irreverência foi a língua dos Rolling Stones. Pulando de um bocão sexy na tonalidade vermelho provocante, essa língua saiu do LP “Sticky Fingers”, dos anos 70, para representar a banda de rock. Não só ela, mas toda uma geração contestadora e contra o autoritarismo, simbolizada na imagem de Mick Jagger dançando na cara da sociedade.

Sticky Fingers - contracapa.jpg Contracapa do disco 'Sticky Fingers', desenhada por John Pashe; logotipo passou a simbolizar os Rolling Stones desde 1971 (Arte: Reprodução)

Foi a gota-d’água. Ou melhor, era a comprovação que eu tanto perseguia, válida até hoje: mostrar a língua é uma forma de se contrapor às regras sociais vigentes, é um anarquismo, uma atitude rock’n’roll e punk. E eu era uma criança avançada para o meu tempo. Não porque simplesmente mostrava a língua, mas por compreender a filosofia do ato. Tentei dissertar sobre isso, explicar a meus contemporâneos... Inutilmente. Diziam-me abestado. E me davam a língua: hummm!... Faltava-lhes a consciência dessa ação rebelde.

Depois de adulto, passei a dar razão ao pediatra, que pedia para mostrar a língua não só com o intuito de examiná-la, mas também para olhar no fundo da garganta. E aprendi que a língua revela doenças. Aprendi, ainda, que a língua tem outras funções (e que funções!). A medicina chinesa coloca na língua os meridianos de alguns órgãos do nosso corpo. O coração, por exemplo, está na ponta da língua. Isso dá um belo sentido ao ato de beijar. Quando se beija, chega-se ao coração. E pela língua descobre-se o amor.

Fonte da imagem psloane-Pixabay.jpg Mick Jagger e seu estilo frenético de dançar; rebeldia e insubordinação por meio do rock'n'roll (Foto: Paul Sloane/Pixabay)


Márcio Chocorosqui

Um dia aventurei-me no mundo das letras e, desde então, alimento-me do meu trabalho com as palavras e dele faço uma profissão de fé, mesmo que isso pareça ser a luta mais vã.
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