Márcio Chocorosqui

Um dia aventurei-me no mundo das letras e, desde então, alimento-me do meu trabalho com as palavras e dele faço uma profissão de fé, mesmo que isso pareça ser a luta mais vã

O Brasil inventado pelo outro

O brasileiro é cordial e tem jogo de cintura. Sua hospitalidade e gentileza são gabadas por estrangeiros, estes mesmos que também o veem conforme um perfil em que não falta alegria, curtição, malandragem, preguiça e sensualidade, ao que se agrega a imagem do país tropical sempre em festa e comunhão com sua natureza paradisíaca. De onde vêm esses clichês?


Fonte da imagem Karlnapp74-Pixabay.jpg Futebol é um dos elementos comumente associados ao Brasil pelos estrangeiros; diversão, festa e alegria colorem retrato do país (Arte: Karlnapp74/Pixabay)

A invenção do Brasil começa com o discurso das descobertas e da colonização, em texto de cronistas (viajantes e missionários europeus), a partir da famosa “Carta”, de Pero Vaz de Caminha, escrita em 1500. Até o século 19, essa literatura circulava apenas no exterior, alimentando o imaginário europeu sobre o Brasil. A seguir é que os textos do passado chegaram à intelectualidade nacional, que, no geral, os acatou e passou a difundi-los, com o início de uma historiografia brasileira.

Esse discurso das descobertas constrói uma imagem sobre o Brasil e seus habitantes, a princípio, os índios, e repercute até a contemporaneidade. Assim, a formatação da brasilidade é consolidada pelo olhar do estrangeiro — o outro. Verifica-se, pelos textos dos cronistas europeus da época, que o nativo é caracterizado como inferior, dotado de elementos pejorativos. Ele é descrito pelo avesso do que o europeu atribuía a si mesmo: o índio é selvagem, canibal, pagão, emotivo, irracional e preguiçoso.

Fonte da imagem Debret-Brasiliana USP (1).jpg Prancha retrata chegada de dois viajantes europeus a aldeia indígena em Cantagalo-RJ (Arte: Jean Baptist Debret/Brasiliana-USP)

O europeu elabora seu discurso pela ótica da divergência. Nesse sentido, a estudiosa da análise de discurso, Eni Pulcinelli Orlandi, explica a expressão “terra à vista!”, que intitula uma obra sua: o que parece descoberta para os navegantes que aportavam no Novo Mundo era, pelo lado de quem estava em terra, o habitante original, uma invasão. O Brasil começa a ser inventado pela escrita do invasor. Este, conforme sua vontade, silencia e constrói o seu índio, o seu brasileiro.

Desde então, inaugura-se um juízo de valor sobre o brasileiro, baseado na aparência e no exótico; encapado pela superficialidade e pelo estereótipo. Elabora-se um perfil formatado em termos de alegria, diversão, malandragem, indolência e sensualidade. Além disso, quanto às mulheres, a imagem de índias nuas, sobremodo em ocasiões de festas e rituais, era traduzida como demonstração de luxúria e oferta sexual. Aí se funda o mito das “mulheres fáceis”, incluído pelo mercado no potencial turístico do país atualmente.

Camisetas Adidas - Copa 2014.jpeg Camisetas referentes à Copa do Mundo-2014 reproduzem mito das ‘mulheres fáceis’ e foram retiradas do mercado norte-americano na época (Arte: Reprodução)

Sabe-se que, hoje, uma das imagens que se tem do Brasil no exterior é a do Brasil litorâneo, com suas praias festivas e povoadas de gente seminua em estado de diversão permanente, principalmente com mulheres trajadas sumariamente de biquíni fio dental. Esse é um dos produtos vendidos pelo turismo que repete aquele clichê antigo cuja origem está no discurso das descobertas. Desse modo, propaga-se a imagem típica do Brasil para o estrangeiro: a do país tropical, de praia e mar, ensolarado e de natureza exuberante.

Há de se considerar ainda, quanto à construção da identidade brasileira, um aspecto que Sérgio Buarque de Holanda, em “Raízes do Brasil”, sintetiza na expressão “homem cordial”, que remete à influência familiar e pessoal na esfera pública, pelo predomínio da emoção sobre a razão, desprezando as formalidades. Isso se associa ao famoso “jeitinho brasileiro”, que enfatiza as relações de amizade para obtenção de benefícios e favores. Ou são virtudes que estrangeiros elogiam nos brasileiros, como afabilidade, hospitalidade e generosidade, desde que com a possibilidade de um contato mais íntimo, visando à obtenção de alguma vantagem.

Fonte da imagem Mike Voldran-Flickr.jpg Praias brasileiras simbolizam imagem do país tropical (Foto: Mike Voldran/Flickr)

Se a ideia contida no “homem cordial” e no “jeitinho brasileiro” pode implicar numa possível constatação sociológica, sem deixar de ser uma versão discursiva, o discurso das descobertas implica numa reprodução de estereótipos segundo a normatização europeia, o qual foi envolvido numa atmosfera de verdade e endossado pelos brasileiros como documento. Michel Foucault, em “A Ordem do Discurso”, alude a textos que adquirem status de “científicos”, compondo o que chama de sistemas de exclusão do discurso, sendo um destes a oposição verdadeiro e falso (“vontade de verdade”).

Os textos dos cronistas e viajantes instituem um saber baseado na clássica busca pelo descritivismo e pela catalogação, como parte de uma engrenagem cuja vontade de verdade acena para a exclusão de determinados discursos e instauração de outros que inventam uma brasilidade, repercutindo ao longo da história. E pode se observar em peças de mídia, tanto no Brasil quanto no exterior, a propagação de sentidos que circulam no cotidiano e compõem o perfil do brasileiro.

Fonte da imagem Mark Hillary-Flickr.jpg Pôster aborda Brasil em balada da boate londrina Pacha: mulher de biquíni, sol, praia e mar no RJ (Foto editada: Mark Hillary/Flickr)


Márcio Chocorosqui

Um dia aventurei-me no mundo das letras e, desde então, alimento-me do meu trabalho com as palavras e dele faço uma profissão de fé, mesmo que isso pareça ser a luta mais vã.
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/literatura// @destaque, @hplounge, @hp, @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Márcio Chocorosqui
Site Meter