Márcio Chocorosqui

Um dia aventurei-me no mundo das letras e, desde então, alimento-me do meu trabalho com as palavras e dele faço uma profissão de fé, mesmo que isso pareça ser a luta mais vã

Dê uma chance a Bingo

Ir ao cinema hoje em dia é padecer numa lista de filmes padronizados. Eles seguem a receita norte-americana cuja ênfase está nos efeitos visuais e na técnica para obtenção do lucro. São raros os filmes que fogem a essa regra e investem no conteúdo. Qual filme escolher? Será que “Bingo, o Rei das Manhãs” merece uma chance?


Fonte da imagem Bingo-Facebook 1.jpg Receber ligação em programa infantil nos anos 1980 podia ser arriscado: 'Bingo, vai tomar no cu!', diz um menino (Foto: Fanpage/Facebook)

Fui ao cinema do shopping numa atraente sexta-feira de agosto para assistir a “Bingo, o Rei das Manhãs”, filme brasileiro que não está na lista dos mais vendidos, mas é uma opção entre as superproduções hollywoodianas, que predominam nas salas de exibição. Afinal, arrasar as bilheterias do cinema mundial pode não ser sinônimo de qualidade.

Digo isso porque raramente se tem em cartaz, no cinema comercial, um bom filme, como nos velhos tempos. Sem querer ser anacrônico, falo de filmes cujas histórias são verdadeiramente cativantes, que nos fazem sair da sala escura com aquela sensação de estar com a alma lavada. Porém, hoje prevalecem roteiros padronizados, carregados de ação e efeitos especiais, muitas vezes a serviço de mirabolantes armações de cenas filmadas em 3D.

E há algum tempo, o cinema nacional de shopping, principalmente no gênero comédia, surfa na onda do modelo narrativo norte-americano, visando exclusivamente ao lucro. Nada contra, pois o mero entretenimento também tem o seu valor. Contudo, um cinéfilo não se contenta apenas com isso. Fica faltando aquele sentimento de purificação quando o filme termina e supera as expectativas.

Fonte da imagem Bingo-Facebook 3-.jpg Augusto (Vladimir Brichta) e Gabriel (Cauã Martins), pai e filho em 'Bingo'; relação entre eles é peça-chave no roteiro (Foto: Fanpage/Facebook)

Assim sendo e com informações prévias sobre ele, fui dar uma chance a “Bingo”, dirigido por Daniel Rezende. Inspirado em fatos reais, o filme corresponde ao abordar uma fase da cena televisiva dos anos 1980 e contar o drama do protagonista, o palhaço Bingo (Vladimir Brichta). Na verdade, Bingo é Bozo, o notório apresentador de programa infantil que, no Brasil, fez sucesso no SBT, emissora cujo nome foi trocado por TVP. Outras citações também aparecem com nomes trocados, acho que para evitar possíveis tretas: a Globo é TV Mundial e Xuxa, Lulu.

A pessoa real que inspirou a história é Arlindo Barreto, que no filme vira Augusto Mendes. Ele representou um dos Bozos (foi o segundo Bozo brasileiro), já que o palhaço foi encenado por vários atores. Um dos méritos do filme é captar o conflito pessoal de Augusto/Bingo e transmiti-lo por meio da excelente atuação de Brichta. Por força de contrato e risco de perder o emprego, o homem por trás da maquiagem de palhaço não podia se revelar.

Nesse sentido, entra em cena o obsessivo jogo da fama. Filho de atriz famosa, Augusto sente, desde a infância, muito orgulho pela mãe, mas fracassa ao tentar seguir-lhe os passos atuando em novelas; consegue, no máximo, papel em filmes de pornochanchada. Ele agarra-se à oportunidade de ser o Bingo e começa a apresentar um programa infantil de sucesso nas manhãs da emissora. Concorrendo com a TV Mundial, chega ao topo da audiência e é premiado com o troféu de melhor apresentador.

Fonte da imagem Bingo-Facebook 4.jpg À sombra do palhaço, Augusto vive conflito: é famoso, como sempre desejou, mas não pode se expor de cara limpa para o público (Fotomontagem: Fanpage/Facebook)

Ocorre que, nos bastidores, Augusto leva uma “vida loka”, com excessivo consumo de álcool e cocaína, o que acaba por afastá-lo de seu filho, que tem participação preponderante no enredo. Além disso, a essência de sua agonia reside na relação entre ele e seu alter ego. A figura icônica de Bingo, que viverá para sempre, vence o ator, que é passageiro (será substituído por outro); Bingo recebe os aplausos da plateia, enquanto Augusto é fadado ao anonimato e isso o dilacera, sobretudo por não se sentir importante perante sua mãe.

Outro mérito do filme é assimilar a atmosfera do chamado “politicamente incorreto” dos anos 1980. Dirigir sem cinto de segurança e pôr o filho ao volante, rebolar de minissaia no programa infantil ou apresentá-lo de maiô, telefonar e falar palavrão ao apresentador eram atrações corriqueiras. Saí da exibição de “Bingo” com a sensação do dever cumprido por ter assistido a um filme como nos velhos tempos, lembrando uma época que mostra o quanto a atualidade é vigiada em demasia, repleta de palavras medidas, reclamações dispensáveis e leis inócuas.

Fonte da imagem Bingo-Facebook 2.jpg Entre blockbusters que lucram alto, 'Bingo' é alternativa para quem curte uma história bem contada (Arte: Fanpage/Facebook)


Márcio Chocorosqui

Um dia aventurei-me no mundo das letras e, desde então, alimento-me do meu trabalho com as palavras e dele faço uma profissão de fé, mesmo que isso pareça ser a luta mais vã.
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