li finalmente

Eu, fingindo que sei criticar literatura

Lucas Coppio

Aspirante a escritor, leitor desleixado e desenhista frustrado. Apresentador do Vlog Li Finalmente, membro da "Tropa Lanterna Verde" e namorado grudento nas horas vagas.

(Porque eu não gostei da) A Batalha do Apocalipse

Uma curtíssima resenha e longa crítica sobre o livro A Batalha do Apocalipse de Eduardo Spohr


O livro apresenta a história da batalha do apocalipse. Arcanjo Gabriel está controlando supremo os exércitos celestiais e defendendo a verdade sobre deus, que há milhares de anos está ausente em seu “descanso do sétimo dia”.

A trama discorre numa batalha daqueles que querem derrubar a tirania de Gabriel e os que o defendem, parece algo bastante interessante e divertido, a trama parece realmente extraordinária, já que pega toda a mitologia e etiologia do novo e antigo testamento de transforma numa história fantástica com cenário em cidades brasileiras. As personagens são anjos exilados, demônios e até o próprio Lúcifer, e se você conhece Lúcifer da Vertigo (em Sandman ou em sua própria revistinha Lúcifer, você sabe que o cara é extremamente foda, carismático e charmoso), imagina que os anjos sejam lutadores da justiça como paladinos do D&D, mas não é bem assim...

As personagens, sem exceção, não tem carisma algum, são personagens planas, sem profundidade alguma e previsíveis. Nem mesmo os “vilões” salvam nesse quesito, e sinto muito, mas vilão sem carisma? Dexter, do seriado e livro, é um anti-herói (ou mesmo anti-paladino, se preferir), ele faz as coisas para satisfazer suas próprias necessidades, Darth Vader é um vilão que se tornou “mal” por amar demais. Scar de O Rei Leão para que ele não fosse visto como ameaça, e matou Mufasa com uma armadilha, e depois exilou Simba para ter o poder total em mãos. Lobo da DC é um filho da puta tão filho da puta que nem deus nem o diabo o aceitaram então ele voltou como imortal para que nunca mais ele pudesse adentrar os planos celestiais ou abissais, e gostamos dele por ele ser um filho da puta! Eu poderia continuar a lista por horas falando de anti-heróis, anti-paladinos e vilões e sobre como eles são fodas, mas ao chegar aqui, nesse livro, e ver os vilões dele... nenhum te permite sentir empatia, paixão ou até mesmo raiva!

Há, em várias discussões nesse meu vídeo puta-revoltz me perguntaram “Mas você gostou do Senhor dos Anéis?”, e eu pergunto a você de volta – Um fusca vermelho e um camaro amarelo, que semelhança os dois tem além de quatro pneus, um estepe, duas portas, um motor, eixo, direção, carroceria, bateria, vidros e lanternas? “Os dois são descritivos”, ALTO LÁ!!! São descritivos, mas descrevem coisas completamente diferentes! O Senhor dos Anéis ele descreve de forma a te jogar na leitura, te apresenta o local DENTRO da narrativa, ele nunca “interrompe” o que está acontecendo para explicar quem é o Rei Theoden e caso as personagens estejam enganadas sobre a situação atual do rei então o narrador não pode, de antemão, te dizer qual é o engano antes que o “mistério” seja revelado para as personagens, e para o leitor, que está junto deles, em seus ombros. Quantas vezes eu já me peguei sentindo um enorme peso em meus ombros durante passagens tensas e estressantes como o caminho de Frodo, Sam e Gollum nos pântanos de ***, senti a falta de ar e exaltação durante as longas lutas, quase sentindo a febre da batalha! Ou como fiquei relaxado ao ler as festas com os elfos nos arredores de Bry ou o tempo descansando em Valfenda.

Na’ Batalha do Apocalipse a descrição não segue o mesmo passo da narrativa, ela é uma descrição enciclopédica, ela explica quem é a personagem que acaba de aparecer, qual é sua história, como ela se parece, o que carrega, seus feitos, seus desejos e ambições, é praticamente como a leitura de um resume de personagem para roteiro. Essa descrição quebra completamente a narrativa, e não é, nem mesmo de longe, parecida com a do Senhor dos Anéis.

Temos também o Clímax! Eduardo Spohr gosta de clímax e gosta também de ser empata-fodas! Quase todos os capítulos começam desenvolvendo uma cena com uma disputa no meio dela, e então há o clímax e imediatamente depois acaba o capítulo e ele salta para outro lugar no tempo e no mundo, e ao retornar (temporalmente e geograficamente para a continuação daquela cena), você já perdeu completamente o tesão pela situação. Uma nota que é válida aqui, esse negócio de colocar um clímax por cena é modelo de roteiro! Por isso tanta gente sentiu que estava lendo o roteiro de um filme ou peça de teatro. Esse tipo de modelo não fica muito bom em livros, pois, diferente de filmes, um livro leva várias horas para chegar ao final, enquanto que um filme leva apenas 100 minutos.

Sobre o absurdo das personagens divinas serem extremamente poderosas... vou falar qual é minha “birra” sobre isso. Isso é jogar sujo, é como o Dragonball Z ou mesmo o Naruto, quando as personagens começaram a ficar fortes demais, com poderes demais, era necessário um vilão mais poderoso, e a questão de “força” e poder começa a ficar cada vez mais superficial, tornando a luta algo extremamente cinematográfico sem a menor necessidade de manter uma consistência e coerência interna. Como exemplo eu uso aqui o Liam Nessom de Busca Implacável. Todos os seus inimigos são humanos, independente de sua experiência e habilidade, alguns mais expertos e outros menos, mas todos eles morrem do mesmo jeito (no livro pudemos perceber que todos os celestiais e demônios morrem da mesma forma, tem os mesmos pontos fracos), então para matar um batedor de carteiras ou um chefão da máfia tudo que ele precisa é dar um tiro na cabeça. Essa consistência se repete no filme, porém, o mesmo não é verdade dentro do mundo criado no livro. Num livro de fantasia, você só aceita a fantasia quando não há inconsistências internas, com inconsistências internas você é incapaz de suspender o ceticismo e aceitar a fantasia, ela se torna uma “fantasia dentro da fantasia” e isso não só é uma ponta solta como é algo “inaceitável”. Um mundo sem inconsistências internas não exige nenhum tipo de trabalho ou esforço mental para aceitar as suas fantasias.

O que mais podemos abordar? Vi gente dando desculpas como “O livro é do Jovem Nerd, você esperava o que? Um James Joyce?!” Realmente, não esperava, eu esperava um livro do Eduardo Spohr, e não do Jovem Nerd, alias, o livro é, pelo que me consta, do Eduardo Spohr, e o Jovem Nerd foi uma plataforma para marketing do livro. Muito daquilo que eu não gosto, como clímaxes demais, personagens overpower, protagonista rico e com coleção de itens mágicos e objetos de valor histórico (como se ele pudesse prever que pintor seria lembrado no futuro, ou que livros ou mesmo objetos teriam grande valor para a humanidade hoje), lutas dignas de um anime como Naruto, Dragonball Z ou mesmo Bleach (eu gostava de bleach quando o pessoal era tosquinho e se fodia nas lutas, quando tudo ficou overpower perdeu a graça), e todo esse jogo de “bem contra o mal” que se desenvolve, bem dicotômico, é algo que eu espero de jogadores de RPG, gamers, etc, gente que adora literatura YA mas que parece avesso a coisas de narrativa e trama mais trabalhada. Mas porque eu espero isso? Porque o Jovem Nerd não poderia apoiar uma obra foda como a do George Martin, é simples, porque quem tem obras assim conseguem agente, precisam tentar um pouco, mas acabam conseguindo. Obras ruins, para conseguir uma editora que se arrisque a publicar, precisam primeiro ser famosas, precisa ter demanda, isso aconteceu com o André Vianco, ele tirou grana do próprio bolso para vender seu primeiro livro impresso. Quando ele “provou” que havia mercado e interesse em sua publicação ele fechou contrato. É arriscado publicar mesmo um livro bom no mercado brasileiro (que é um mercado FRAQUÍSSIMO), agora, publicar um livro YA com uma narrativa ruim... é um tiro no escuro. E sem investir em marketing você jamais vai encontrar o seu consumidor.

Bom, é basicamente isso, acredito que não tenho muito mais para falar sobre o livro, se você gostou dele, faça um favor para mim e para Tolkien, não compare os dois.


Lucas Coppio

Aspirante a escritor, leitor desleixado e desenhista frustrado. Apresentador do Vlog Li Finalmente, membro da "Tropa Lanterna Verde" e namorado grudento nas horas vagas..
Saiba como escrever na obvious.
version 3/s/Literatura// //Lucas Coppio