li finalmente

Eu, fingindo que sei criticar literatura

Lucas Coppio

Aspirante a escritor, leitor desleixado e desenhista frustrado. Apresentador do Vlog Li Finalmente, membro da "Tropa Lanterna Verde" e namorado grudento nas horas vagas.

O Suicídio no Topo do Mundo - A Epopeia de um Aspirante a Escritor

As dificuldades, tropeços e desvios no caminho de um aspirante a escritor.


Há muito tempo eu ouço que para ter uma vida completa você precisa ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro. Bom, eu ja plantei mais que a minha cota de árvores, filhos eu tive duas corujas, um cão e um gato (sim, eles eram MEUS FILHOS, assim como uma criança adotada é filha de um casal que a adotou), mas escrever um livro... bom, isso ja é mais dificil. Para escrever um livro você precisa de duas coisas; uma ideia na cabeça e vontade de continuar escrevendo. Existem técnicas para escrever quando aparecem bloqueios, para resolver problemas na trama, para dar continuidade, etc. Então, porque temos tantas pessoas que querem escrever livros mas não conseguem? Existe um inimigo, na realidade, o maior de todos os inimigos, aquele que Stephen King teima em chamar de "o agente", que aparece para te multar pela música alta e pelo consumo de grandes quantidade de drogas e alcool, esse inimigo é você.

Complicado esse negócio de ser o seu próprio inimigo, afinal, é seu inimigo que quer o seu mal, que quer vê-lo ferido e derrotado, e durante uma busca pessoal a caminho do sucesso, da auto-realização, é você quem decide se irá ou não conseguir, é decisão sua trilhar o caminho até o fim. Um homem jovem, de cabelo curto, pele branca, com as costas e ombros cheios de sardas, com uma grande e pesada mochila escala a montanha, mesmo estando um pouco acima do peso ele parece não ter dificuldades em pular fissuras, encontrar apoio e continuar subindo o paredão com as mãos nuas, sem equipamentos de segurança.

Não existe nada mais para ele além da rocha e seu corpo, o horizonte belíssimo é um figurante, o sol é o holofote, ele está subindo, é esse o seu caminho, essa é a peça dele, ele escreveu o roteiro; chegaria às quatro da madrugada, subiria a pé os primeiros oitocentos metros, então escalaria os próximos novecentos metros, chegaria no topo, vestiria sua wing-suit, prepararia para-quedas e sua GoPro, e então saltaria. Com uma eficiência de vôo de dois para um, ele conseguiria alcançar dois mil e quinhentos metros de distancia em vôo livre, então abriria seu paraquedas há aproximadamente duzentos e cinquenta metros de altitude, e pousaria ao lado de seu carro. Quando você decide escrever, você define o que quer; livro, conto, poesia, ficção, fantasia, drama, romance, novela, trilogia, saga, auto-ajuda. Decidido, você pega aquela ideia em sua cabeça e transforma em história. Não é dificil transforma-la em palavras, ela ja está ali, na sua mente, e também na biblioteca do castelo do Sonhar, sendo organizado e mesmo lido pelo bibliotecário Lucien, na biblioteca dos sonhos. Parece simples escrever uma historia, e realmente é, dificil é faze-la interessante, e mais dificil ainda é terminar a história. Seus braços doiam, seus músculos estavam ardendo pelo esforço físico, mas seu rosto era sóbrio. Ele continua subindo, metro após metro, sempre em direção ao topo, está tudo planejado, e ele sabe que só é preciso continuar subindo para conseguir terminar. Fazer um argumento, ou mesmo roteiro daquilo que irá acontecer na sua história resolve muito dos problemas, você precisa ir ali e botar no papel como estão acontecendo as coisas, você ja sabe o que VAI acontecer, só precisa contar. É como a narração de um jogo de futebol na rádio, ele está narrando aquilo que ele vê, e se ele não vê nada, ele não pode narrar. O escritor é um narrador de histórias, e realmente alguns narram-na, como é comum quando ele pega um gravador de bolso, personifica duas ou mais personagens e faz discussões épicas sozinho, com direito a respostas e emoções fortes. E é assim que continuamos o desenvolvimento. Seus pés estão com formando bolhas, ele está a quatrocentos metros do topo, talvez menos, e logo irá conseguir. A dor em seus ombros, mãos e braços tornou-se insuportável, mas não há como parar para descansar, não há banco, corda para se segurar, apenas sua vontade de continuar o separa da morte de uma queda longa, porém rápida. A vida de um escritor começa e termina por suas próprias mãos, ele precisa escrever, criar, mentir, se não o fizer, morre. A morte de um escritor é rápida, silenciosa, e ninguém chora por ele, pelo menos, não chora se ele não deixar leitores órfãos, mas a maioria morre antes de ter o prazer de dar ao mundo seu legado, os espólios de sua vida. Mas ela não termina com um tiro na têmpora, um acidente de trânsito ou com um ataque do coração repentino, apesar de poder sim acabar com um suicídio gerado pela depressão, a mãe de todas as ideias. A morte do escritor veem sorrateira, trazida por seu maior inimigo, e deixada ali ao seu lado, embrulhada em celofane vermelho, dentro deste embrulho o escritor encontra uma caixinha, repleta de tralhas, todas elas dizendo que a vida dele é mais interessante que escrever, jogar videogame é mais interessante, assistir a um seriado, filmes, namorar, fazer sexo, tudo isso é muito mais importante e interessante que escrever, sua escrita não te trás nada de bom, nenhum retorno, vá se masturbar. Queria estar lá embaixo, no chão, não parece tão distante, os membros cansados pedem por alguns minutos de descanso, pedem por asas, talvez se ele forçar bastante a imaginação ele possa voar, ou ao menos flutuar no ar, e vagarosamente chegar ao chão. O fôlego lhe escapa, o mundo inteiro congela, seu corpo reage. Ele caiu, apenas um décimo de queda livre, rápido demais para perceber o que acontecia, tempo demais para que seu corpo reagisse. Ele estava novamente seguro. Seus dedos suados escorregaram na pedra lisa, seus pés estavam sobre uma superfície reta, não tinha nenhum apoio para o corpo. Agora enfiou o pé em uma fenda na reação e torceu o tornozelo, ele sabe que consegue continuar, mas será ainda mais difícil daqui em diante. Quando aparece o primeiro empecilho é que a coisa fica complicada, mas complica de forma primorosa realmente, é como se escrever se tornasse algo tosco, um fardo enorme, como se fosse obrigação escrever, e essa escrita fosse algo ruim, difícil, pesado, quase tão escroto quanto um projeto para conclusão da matéria de administração I no curso de engenharia.

Você agora está travado, esqueceu de escrever, ou então a sua vida tomou um rumo diferente. Agora está há uma semana sem escrever, um mês, talvez mais, não sabe porque parou, mas não havia se tornado um hábito de verdade em sua vida, você promete para si mesmo que irá continuar na semana que vem, ou na sexta feira, tiraria uma hora antes de dormir para escrever.

Você não o faz. Agora ele está em pânico, seus braços estão tremendo, suas pernas fracas, seu tornozelo e pé direito doem como jamais ele imaginou que pudessem doer, seu intestino ameaça evacuar tudo que tem em seu interior, ele está tenso, quer mais do que nunca grudar à parece, estar em casa, estar numa banheira com água quente, receber analgésicos para acabar com a dor, usar uma tala no pé, se esticar na cama, receber um boquete, ir para onde for! Qualquer lugar! Menos ali, ali não! Continuar subindo não! É impossível continuar a escalada, não da para voltar, mas ele pode continuar ali, agarrado, sem sair do lugar, ou ceder ao desespero e se soltar, mas ele não quer acabar com tudo agora, ou quer? Você se pergunta se quer ou não continuar, eu mesmo nunca sei, continuo ou não? A história estava boa o suficiente? Eu gosto dela? Estou gostando de como está se desenvolvendo? Eu agora quero mudar todo o resto, teria como fazer isso sem destruir a história? A situação é difícil, continuar ou não com o seu projeto? Se você parar agora, nada irá acontecer, poderá voltar a jogar no facebook no período que você escrevia, ou pode simplesmente passar mais tempo assistindo vídeos pornos ou filmes ruins para passar o tempo, ou reclamar no twitter que está entediado e sem nada para fazer... Ai ai, quantas pessoas eu já conheci, que diziam querer escrever um livro, que sabiam toda a história que queriam contar, mas que "estavam sem inspiração", desculpe, mas não existe inspiração, existe "vontade de fazer", e é isso. No dia que estou "inspirado" no trabalho, o trabalho é ótimo, em dia que "não estou" o trabalho é feito como deve ser feito.

Escrever é isso, é trabalho, se você não quer trabalhar então você não quer terminar sua escrita, seu trabalho. Com uma perna a menos, a escalada parece quase impossível, mas não falta muito, agora é se agarrar com os braços, usar o pé bom para se apoiar e alcançar uma fenda ou relevo com as mãos para subir. Mas ele vai, sobe dez centímetros, depois vinte, então trinta, é difícil, mas ele continua a escalada ao topo. Seu livro está pronto, seu conto, ou o que quer que seja, finalmente terminou de escrever, agora é revisar tudo que foi feito, reescrever, cortar, ler, reler, emprestar para que amigos leiam, levar para revisores, fazer alguma coisa! Mais um esticar de mãos, e está feito, ele chegou ao topo, deita-se em frente ao penhasco, observa o céu da tarde, toma um pouco de água e continua olhando para as nuvens. Ele tinha planejado vestir sua wing-suit, paraquedas e saltar, mas sua perna dói demais para voar, seu cansaço é grande, mas ele ama voar, sentir seu corpo cair livre, voando a mais de cento e vinte quilômetros por hora. Serão apenas 60 segundos de voo, ele decide por se vestir. Não raro é você ter seu original pronto e começar a buscar por ajuda de agentes literários, de editoras, e só receber tapas, socos e chutes como resposta, muita gente se aproveita do sonho do livro publicado nessas horas, é aqui em que muita gente descobre que o mundo está se preparando para agarrar o primeiro otário com sonhos e felicidades para chupar até o último pingo de alegria e esperança que ele tem. De braços abertos ele salta, e voa. Como uma ave, com braços abertos como asas, pernas esticadas como estabilizador, câmera filmando os poucos segundos de queda, ou voo, livre. skydive.jpeg Quando atinge os duzentos e cinquenta metros de altitude, ele não puxa o cordão do paraquedas, e continua voando, até atingir o chão poeirento.

A mochila estava pronta, ele queria que a vida fosse assim, o vídeo estava sendo enviado ao vivo para a internet usando o sistema de wi-fi de sua câmera sincronizada com seu smartphone, ele não avisou ninguém, mas ele deixou sua marca, no chão, e no mundo, esse é seu legado, seu último voo, o voo de Ícaro Esse é apenas um conto improvisado, e você, já escreveu seu livro hoje? Ou está pensando em como seria bom ter asas para voar?


Lucas Coppio

Aspirante a escritor, leitor desleixado e desenhista frustrado. Apresentador do Vlog Li Finalmente, membro da "Tropa Lanterna Verde" e namorado grudento nas horas vagas..
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