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Roberta Iza Grau

Eu não preciso ter o gabarito do mundo

Quantas vezes você deixou de aproveitar um ensinamento devido à inflexibilidade do termo “eu sei”?
Suponho que inúmeras vezes você tenha realmente deixado de aprender algo por ficar com medo de perguntar e parecer ignorante. Imagino que muitos questionamentos ficaram sufocados e ao chegar em casa dúvidas surgiram, gritos calados que, em geral, retornaram e assombraram. Por que essa angústia surge?
Estamos criando respondedores e sufocando os questionadores.


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Durante minhas sessões de terapia, nos momentos de desabafo sobre as minhas fragilidades, vejo nos olhos da minha psicóloga, aqueles olhos compreensivos, a frase que demorarei a decorar e ainda mais para compreender: “você não precisa ter o gabarito do mundo”, particularmente adoro quando ela diz isso, pois sinto que a minha angustia foi entendida, “eu não preciso ter as respostas para tudo”.

Sempre achei que precisava dominar todos os assuntos e por não dominá-los acabava sofrendo, porém, ao ampliar meu foco de visão, compreendi que não era a única pessoa que sofria desse mal, mas sim uma grande e expressiva parte da sociedade. Por observar, notei a imposição rígida e severa, colocada por nós mesmos, de discorrer sobre tudo, e, diante do desconhecimento sobre algo, coisa completamente natural, ficamos mal, entramos em pânico, afinal, grita uma voz interna “estamos na era da informação e não é possível que você seja um ignorante”. No entanto, precisamos refletir sobre o papel da ignorância, olhá-la de fora sem preconceitos e compreender que para dominar qualquer assunto precisamos dar um passo para trás, precisamos antes assumir sem nenhum medo que simplesmente não temos o gabarito do mundo e que isso é natural, pois somos humanos em estágio de evolução.

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Outra situação que reforça que queremos ter o gabarito do mundo é aquela em que nos sentimos inferiores quando não temos uma resposta correta, ou quando não damos uma resposta genial diante de uma situação embaraçosa. Por medo de sermos tachados como ignorantes, gostamos de provar que não o somos por meio do posicionamento despudorado que dominamos qualquer assunto, porém, às vezes não temos nenhuma noção do que está sendo discutido e mesmo assim emitimos nossa opinião frente à questão. Isso é triste, pois diante desse ato defensivo, deixamos de realmente aprender, infelizmente desaprendemos a arte de receber ensinamentos. Desta forma, tornamo-nos simples respondedores, que são superficiais na arte de perguntar. Na posição de pseudo-portadores das respostas, acabamos por negligenciar a importância da dúvida, ignoramos o processo do aprendizado, pois queremos chegar à resposta, almejamos o fim, sem ao menos compreendermos o significado do início.

Queremos provar ao mundo nossa aptidão, no entanto, nos punimos com a cobrança seguida da insegurança quando compreendemos que não é possível sermos bons em tudo, afirmamos que a sociedade nos cobra a excelência sem nos darmos conta que quem é o chefe malvado somos nós mesmos. Não temos o gabarito do mundo e não precisamos tê-lo, pois somos jovens mesmo quando somos velhos. Tornamo-nos superficiais, lemos sem ler, falamos sem nos questionar, orgulhamo-nos do final sem ao menos compreender os motivos do processo, viramos robôs.

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Fique claro que em nenhum momento é questionada a importância da sabedoria, nem da própria resposta, só está sendo ressaltada a importância do processo que levam a elas, pois ele guarda a mesma importância. Ser humilde e reconhecer a própria ignorância são os primeiros passos para iniciarmos busca pelo conhecimento, pois só assim evoluímos como pessoa.

Convido agora para um momento de reflexão sobre as vezes que deixamos de aproveitar um ensinamento com a inflexibilidade do termo “eu sei”, das inúmeras vezes que deixamos de realmente aprender algo por ficarmos com medo de perguntar e parecermos ignorantes, das vezes que sufocamos um questionamento e chegamos em casa com inúmeras dúvidas, que em geral, retornam e nos assombram. Sendo assim, concluo, precisamos mais de questionadores do que de respondedores.


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