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Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio

Documentário: Japirú - O Gênio Injustiçado do Futebol Brasileiro

Resenha do documentário que promete fazer justiça àquele que seria o melhor jogador de todos os tempos.


japiru.JPG Para além das quatro linhas, Pelé também é rei: no cinema. Foram mais de vinte participações nas telonas, algumas em filmes que tinham o próprio rei como tema. Além dele, Garrincha, Zagallo e tantos outros tiveram suas sagas futebolísticas imortalizadas em película, ou ao menos participações em documentários comemorativos dos centenários dos clubes que defenderam. Japirú, ao contrário, só teve seus noventa minutos de fama com a bola nos pés, jamais com uma câmera em mãos a olhar por ele.

Partindo dessa premissa, o diretor Roberto Melucci (Sexta-feira da Paixão, 1999 e Sol dos Trópicos, 2003) considera que seu novo documentário: "Japirú: Um Gênio Injustiçado do Futebol Brasileiro" é uma tentativa de resgatar a obra daquele que foi, segundo muitos, o melhor centroavante da história.

No entanto, muita gente (a maioria, aliás) nunca ouviu falar em Japirú, o que justifica ainda mais o documentário. Nascido em 1911 no Rio de Janeiro, José Rodrigo Japirú começou a jogar bola, segundo relatos históricos, aos quatro anos de idade. Disputou seu primeiro campeonato aos onze anos pelo Santa Sofia e com quinze virou titular do que seria o esquete profissional do extinto, mas outrora glorioso, Vila Cruzeiro: único time nacional que defendeu durante sua curta carreira.

Nas palavras de João do Rio: "Japirú não é o jogador mais habilidoso das terras tupiniquins. Não é o mais categórico, tampouco o mais diferenciado. Mas Japirú é sem dúvida o jogador mais macho das Tordesilhas, quiçá o único". Suas palavras justificam-se pela sabedoria popular. De acordo com o folclore do Rio de Janeiro, perpetuado por quem viveu aqueles tempos, Japirú jamais perdeu um gol. Perdeu partidas, mas todas as vezes que pôde chutar, a bola entrou. Chutava com as duas pernas - uma de cada vez, para evitar a piadinha -, cabeceava com destreza e sabia dominar a bola com uma intimidade poucas vezes vista. Com ele, o Vila Cruzeiro conquistou nada mais nada menos do que oito títulos da Guanabara, onde oito vezes foi o artilheiro.

Historiador amador e jornalista, Armando Nogueira também falou sobre Japirú ao documentário, gravado inteiramente em 2011 após sete anos de intensa pesquisa: "No universo de Japirú, não há espaço, por exemplo, para o futebol arte de um Neymar da vida. Japirú dominava, olhava e chutava aonde queria. Não colocava efeitos nem defeitos na bola, colocava força. E ai de quem ficasse na frente. Paradinha em pênalti era impensável, ele soltava o pé e nunca perdeu um. Vide o que fez o Batatais em vinte e dois. Agora me diz quantos jogadores você conhece que nunca perderam um pênalti ao longo de toda a carreira?". A referência é ao Campeonato Carioca de 1922, quando o espetacular time do América perdeu para o Vila na final por 1 a 0, gol de Japirú. Gilmar Esqueleto fez boa jogada pelo lado direito do campo, invadindo a área sozinho depois de passar entre três defensores. Batatais, goleiro histórico do América, não teve dúvidas e saiu do gol de forma faltosa, obrigando o juiz a apitar a penalidade. Quando Japirú ajeitou a bola na marca, Batatais simplesmente saiu de debaixo das traves, negando-se a defender. Pensa que Japirú aliviou? Quase que fura a rede.

Gilmar Esqueleto era o cérebro do time do Vila, um menino rápido e habilidoso. Em uma das melhores cenas do documentário, dá seu depoimento sobre Japirú: "Ele foi o maior craque do Brasil e nunca foi reconhecido por isso. Com ele não tinha essa de pegar de revesgueide, não tinha lesco lesco. O Sabiá (Tapioca Sabiá, técnico do Vila em três das oito conquistas) dizia pra eu distribuir o jogo, mas não tinha pra quem distribuir. Eu limpava, tocava pro Japirú e já saía comemorando, porque sabia que era gol. E era". Em um dos lances mais diferenciados de sua carreira, Japirú - que apesar de ser capitão, pouco falava em campo, mesmo com a arbitragem -, foi lançado em profundidade na intermediária, de frente para apenas um zagueiro antes da meta. Como driblar nunca foi sua especialidade, quando o defensor se aproximou para o bote, Japirú deu um berro que assustou inclusive aos radialistas, imagina ao jogador, que recuou. Cortou sutilmente para a direita e nós podemos deduzir o resultado: gol.

Mas nem tudo foram flores na carreira do craque. Apesar de não ser de falar também depois do jogo (sabe-se muito pouco, inclusive, sobre sua vida pessoal), certa vez respondeu a uma pergunta do grande Jorge Cury, que veio a prejudicar sua carreira para sempre. Cury perguntou: "se o Rio de Janeiro fosse o Vila, você seria Getúlio Vargas?". Japirú, mais íntimo da bola que do microfone, respondeu: "E Getúlio Vargas faz gol?". Pronto, por ordem do Estado Novo na pessoa de Getúlio Vargas, que presidia do Rio de Janeiro, a CBD (avó da CBF) estava proibida de convocar Japirú. Por mais que Getúlio Vargas realmente não fizesse gol.

Sem perspectivas no futebol nacional, ganhando pouco e com poucos desafios profissionais ao alcance do Vila, aceitou uma proposta para jogar na Suíça. Japirú foi um dos primeiros brasileiros a fazer carreira no exterior. Lá fora, por conta da diferença cultural e de idioma, Japirú foi se isolando e se deprimindo, apresentando atuações irregulares e se afogando no alcoolismo. Voltou depois de três anos, bastante fora de forma. Disputou três partidas sem gols pelo rebaixado Vila Cruzeiro antes de se suicidar, ironicamente, um ano antes do próprio Getúlio, utilizando-se do mesmo instrumento. O documentário termina com tristeza, mas é ousado a ponto de sugerir uma possível relação de causa entre as mortes e suas semelhanças (que são realmente muitas).

Entrevistado depois da première, Pelé, emocionado, respondeu sobre Japirú: "particularmente, nunca vi jogar. Mas era o ídolo do meu pai, entende? Um ídolo que nós esquecemos". O documentário estréia em nove de Fevereiro de 2012, por salas de todo o país.

*** Atendendo a pedidos, esclareço que isso é um conto, não uma resenha. Não existe Japirú, Roberto Melucci, ou Vila Cruzeiro Futebol Clube. Ainda que existisse, o documentário de 2011 não poderia contar com a participação do Armando Nogueira, falecido em 2010. Batatais só assumiu as redes do América em quarenta e tal. No episódio narrado, teria doze anos. Jorge Cury também não teria idade para entrevistar Japirú durante o Estado Novo (1937 - 1939), porque iniciou a carreira em 1946. Um ano depois, aliás, da morte do Getúlio. Essa aconteceu de verdade. Texto elaborado como laboratório para um ante-projeto de livro sobre um Rio Antigo que nunca existiu.


Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio.
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