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Contos, crônicas, contos, contos....

Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio

Patins

Mulheres são como patins.


Roller_Skate_Girl.jpg Mulheres são como patins. Talvez homens também sejam, mas não tenho como afirmar. Acho que tinha nove ou dez anos quando pedi patins de Natal. Provavelmente não acreditava em Papai Noel, porque pedi à minha mãe. Papai Noel nunca entendeu minha letra e sempre me trouxe os presentes errados. Na verdade, acho que minha mãe também não entendia.

Mesmo assim, na noite do dia 24, ela apareceu com um caixote enorme, de onde tirou incríveis patins roxos. Talvez, sob um olhar mais atento, fossem patins femininos – patins como as mulheres –, mas eu não estava com a menor vontade de olhar atentamente para nada. Até hoje não estou. Acho que foi a primeira vez que ganhei o que realmente pedi. Vesti aquelas botas dois números maiores que meus pés, ignorando as bolhas que me fariam no dia seguinte. Com a mesma naturalidade, ignorei os arranhões no plástico causados pelo dono anterior. Aliás, pela dona anterior.

A casa ficava no centro do terreno. Ao redor, uma alameda pavimentada de cimento nos separava dos quatro muros. Do outro lado, havia uma avenida com um córrego no meio. As melhores lembranças da infância são daquela noite fresca, na qual todos eram felizes por ser Natal. Eu sentia o vento gelado no rosto de uma maneira que nunca mais senti. Não ouvia nenhum barulho a não ser o que vinha do córrego. Então as rodas dos patins de segunda mão começaram a esfarelar. Esfarelaram-se, tropecei e caí. Mas já havia suado o suficiente, era hora de dormir. No dia 25 não havia mais patins e foi um dia realmente triste, que sucedeu uma noite realmente feliz.

Quando Evelyn sentou-se ao meu lado e puxou assunto, eu sabia exatamente o que esperar de uma mulher que puxa assunto em um bar. Ainda assim, pensei:

– Um homem não dá essa sorte duas vezes na vida. Não no mesmo mês, pelo menos.

Viemos aqui para casa. A noite estava bem fresquinha, mas ainda assim consegui ficar suado antes da hora de dormir. Quando acordei no dia seguinte, não havia mais Evelyn. (Nem tenho certeza de que seu nome era realmente com Y).

Fiquei sentado na cama, pensando naquela noite e repetindo:

– Mulheres são como patins.

Pelo menos não fizemos nada que me deixasse com bolhas nos pés no dia seguinte.

*** Esse conto integra o livro Meus Textículos. Lançamento em 14 de Abril (sábado) às 18h. Rua Mem de Sá, 126 - Lapa, Rio de Janeiro - RJ


Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio.
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