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Contos, crônicas, contos, contos....

Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio

Simbiose

Entenda a Simbiose: relação entre dois organismos de espécies diferentes, vantajosa para pelo menos um deles.


[000294].jpg Passamos nove dias trancados no apartamento. Trancados é modo de dizer. Ainda que a porta estivesse escancarada, não teríamos saído. Apartamento também é modo de dizer. Alternamos entre o quarto e o banheiro apenas. Com visitas rápidas à cozinha, para buscarmos garrafas d'água e deixá-las ao alcance das mãos no final do sexo, que parecia não ter fim. Os nove dias pareceram meses, já que cada noite demorava cinco dias.

Lembro de ter sentido fome no primeiro dia. Acho que ela também comentou algo sobre isso, não prestei atenção. Depois, a fome passou. Nossos corpos se acostumaram à idéia de se alimentar um do outro. Corpos sobrevivem sem comida, até sem água, mas não sobrevivem sem alimento. Nós nos alimentávamos mutuamente, um do outro, em um mutualismo mais simbiótico que protocooperativo.

Durante esse período, o sol também não nos fez falta. De vez em quando, ele ousava invadir a janela em frestas esquecidas, mas logo era repreendido pela cortina e recolhia-se à sua existência insignificante. Naquele nosso sistema, era ele e todo o resto quem orbitava ao nosso redor. Junto com o sol, pouco a pouco os ruídos do universo pararam de nos perturbar. Campainha ou interfone, caso tenham tocado, não notei. Mas junto deles sumiram buzinas, batidas, gritos e por fim nossas próprias vozes. Nesse breve espaço de tempo, ainda que suficiente por uma vida inteira, desenvolvemos outra língua, uma língua só nossa e apenas para nossas duas línguas. Mais do que isso, desenvolvemos uma nova linguagem. Além das letras costumeiras, ruídos do corpo, olhares e movimento também integravam nossa linguagem. Dentro das nossas necessidades, sempre nos entendemos.

Outra coisa que não nos fez a menor falta foram pessoas. Pai, mãe, avó, filha, sobrinho, enterro do tio, vizinhos, colegas de trabalho, amigos, não me lembro de ter pensado em absolutamente ninguém durante os nove dias. Ela chegou a mencionar o ex-marido, quando elogiei a pulseira que enfeitava seu tornozelo.

- Presente do Maurício.

Ela disse. Mas não senti ciúme. Ele era um cara meio bocó, desses que enfeita a estante da sala com uma rolleiflex. Desses que nunca na vida enxugou o pau na toalha de rosto. Reafirmei:

- Bonita.

Durante a tarde do nono dia, esgotados, resolvemos descer para tomar um picolé. Não tanto pelo picolé, mas sim para saber se o planeta ainda estava lá, como o deixamos nove dias antes. Entrei em uma calça jeans que estava jogada há nove dias no chão. A cueca permaneceu lá. Calcei chinelos e uma camisa social com os dois primeiros botões de baixo para cima fechados. Meu suor havia evaporado dessa camisa há muito, mas deixara resquícios. Foi bastante estranho cheirar meu corpo e sentir meu cheiro, não o dela. Ela, aliás, entrou em um vestidinho rosa e calçou as sandálias. Penteamos o cabelo um do outro com as mãos e fomos para campo estudar aquela espécie tão diferente da nossa, a raça humana sem amor.

Como que por vingança, o sol feria nossos olhos de tal maneira que não conseguíamos mantê-los abertos. Os barulhos espetavam nossos tímpanos, a sociedade gritava (socorro). As pessoas, suadas e com pressa, lançavam olhares de reprovação à nossa felicidade aturdida. O chão tremia, ou talvez fossem nossas pernas, mas caminhávamos com dificuldade. Antes do segundo passo, tivemos a certeza de que havia sido uma má idéia. Por algum motivo, nosso sistema de linguagem não funcionava em espaço aberto e precisávamos nos comunicar como todos eles.

Na padaria, escolhemos nossos picolés. O meu era de maracujá e deixava um gosto horrível na boca, simplesmente porque não era o gosto dela.

- Porque você tá tão calada?

Era a primeira vez que lhe perguntava alguma coisa em realmente muito tempo.

- Falta de assunto.

Era verdade. Acho que as pessoas normais, como o Maurício ou a Patrícia, ficariam ofendidas, mas a verdade é que nenhum assunto nos importava naquele instante, a não ser engolir a porra do picolé, voltar para casa e arrancar logo a roupa. Foi o que fizemos. Amamos até a inanição.


Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio.
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