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Contos, crônicas, contos, contos....

Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio

Tchau

A crônica dos instantes finais de um amor.


phot_1.jpg Ela começou a arrumar as malas e só depois disse:

– Estou indo embora.

Fiz uma expressão que misturava tristeza e espanto. E no fundo dos meus olhos uma pitada de alegria.

– Fico triste.

Menti. Só pensava em como mais essa separação afetaria minha carreira. Textos sobre separações, divórcios e términos de romances são chatérrimos. Vou entrar em uma fase decadente, daquelas em que a gente escreve contos iniciados com: "ela começou a arrumar as malas e só depois disse 'estou indo embora'".

– Pedir pra você ficar vai adiantar?

– Não.

Então não pedi, dei de ombros mentalmente. Fui até a cozinha só de camisa e meia, sacolejando minhas vergonhas pelo corredor. Achei um tupperware esquecido na geladeira, ele guardava os restos mortais de um quibe de forno preparado a quatro mãos, congelado como nosso estranho amor de antes. Caprichei no limão e na pimenta para transformá-lo em algo comestível, ou ao menos passível de se engolir, como ela.

Voltei para o sofá comendo e acabei com o quibe antes que ela terminasse de esvaziar o armário do banheiro. Quando ela voltou para a sala, disse:

– Estou pronta.

– Nunca estamos.

Respondi. Acho que sou um babaca, mas não tenho certeza. Levantei-me e fui levá-la à porta. Um último beijo e minhas vergonhas desnudas abandonaram um pouco do seu caráter vergonhoso. Ela não aguentou, eu sabia que não aguentaria. Estava começando Law & Order na TV quando a joguei por cima do sofá. O tupperware, que outrora abrigava os restos congelados do nosso amor, estava no tapete, ao lado do sofá em que jazíamos.

– Talvez eu consiga acabar antes que encontrem o corpo, ou antes que o Vincent D’Onofrio chegue à cena do crime.

Pensei. E foi quase: encontraram o corpo, mas acabei antes que descobrissem a identidade, ou localizassem a família. Fiquei ali estendido no sofá, camisa e meia, vergonha vergonhosa de fora, assistindo a Law & Order. O tupperware do amor ao lado. Ela levantou-se e foi ao banheiro. Agora meu banheiro de novo, pela primeira vez em algum tempo. Saiu alguns minutos depois e, se eu não a tivesse comido, jamais adivinharia que alguém a comera doze minutos antes.

Por trás dos óculos escuros, ela disse:

– Tchau.

E me deixou. Muito sensata.

*** Esse conto integra o livro Meus Textículos. Lançamento em 14 de Abril (sábado) às 18h. Rua Mem de Sá, 126 - Lapa, Rio de Janeiro - RJ


Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio.
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