life on marx

Contos, crônicas, contos, contos....

Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio

Desfile das Escolas de Samba do Rio de Janeiro

Saiba o que acontece nos bastidores da maior festa popular do mundo!


asda.jpg O Carnaval é a maior festa popular do mundo! Mas para isso alguém precisa trabalhar sério. Claro. É a única lei que obedeço, porque está na Bíblia e no Código Penal, Código Civil, o escambau: para que alguém se dê bem, alguém tem que se dar mal. Acho que a lei diz que alguém tem que se foder, mas não sei se eles escreveriam palavrão na Bíblia. Sei lá, escreveram cada coisa.

Funciona assim: você trabalha no seu empreguinho de oito às cinco o ano todo, até aquela bendita sexta-feira. O sistema samba na tua cara o ano todo e você é obrigado a rir, com os dentes sujos da merda que é a comida que dá para comprar com o salário de fome que o sistema te paga. Daquela sexta-feira em diante, é você quem samba na cara do sistema. Samba fantasiado de mulher, de Super-Homem, de macaco, de palhaço, da puta que te pariu. Samba bêbado, pelado, vomitando, uma desgraça. Mas pelo menos esquece teus problemas. A gente sabe, não são poucos. Na semana do Carnaval, o sistema não te alcança. Enquanto isso, a gente permanece trabalhando duro, para fortalecer o esquema do restante do ano - aquele intervalo chatinho entre o Carnaval e o Natal em que você trabalha de oito às cinco.

Meu trabalho é ameaçar de morte os jurados (e às vezes cumprir, para dar o exemplo para o ano seguinte), tacar fogo em barracão, subornar emissora de tv, subornar vereador... Puta merda, vou nem te falar em vereador para poupar meu tempo (que urge e a Sapucaí é grande, como você bem sabe). Basicamente, trabalho nos bastidores da maior festa popular do mundo. Sou eu quem faz a mágica acontecer. Nós, na verdade.

Quando conto ninguém acredita, mas vou dar exemplos. Você se lembra do Carnaval de oitenta e nove? Eu trabalhava na Imperatriz Leopoldinense naquele ano - camisa de Escola de Samba não tem memória, é que nem camisa de jogador de futebol -, nosso enredo era o Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós... Você canta isso sem perceber até hoje, a gente já tinha tudo para ganhar. Na verdade, mais do que nunca, todo mundo queria muito ganhar naquele Carnaval, porque foi o ano em que ficou decidido que a grana arrecadada com desfile não seria mais dividida igualmente entre as Escolas, mas seria uma divisão proporcional à colocação da Escola depois da apuração. Foi um arranca-rabo do cacete, acho que o pior carnaval em que trabalhei. A União da Ilha resolveu apelar e arrumou uma piranha da tv para desfilar peladona mesmo, de frente e de costas (sim, inventamos a mulher pelada no Carnaval de oitenta e nove), o que foi um baita sucesso, mas não era suficiente para ganhar nada. Com o samba que a gente tinha, levava a grana fácil. O lance é que o Joãozinho Trinta, que estava na Beija Flor de Nilópolis, inventou de arrumar uma porra de um Jesus Cristo imenso fantasiado de mendigo. A classe média - no caso, você - adora essas merdas. Meu presidente falou:

- Se o Joãozinho entrar com o Jesus fodido, fodeu.

Ele tinha razão. Mas eu não podia apagar o Joãozinho, nem oferecer grana para o coroa. Como eu disse, camisa de Escola de Samba não tem memória, amanhã a gente poderia estar trabalhando junto - trabalhamos, aliás. Aí que entra a malandragem e você nem percebe. Além da Escola de Samba, meu presidente gerenciava também um puteiro em Ramos. Negócio bacana, bem freqüentado. Só piranha de nível superior, Enfermagem e Turismo em sua maioria. Um dos sujeitos que sempre batia ponto lá era padre - nada contra, ele devia ter seus motivos para pecar -, mas não era um padreco de merda, não. Era bem relacionado. O homem estava lotado na Arquidiocese do Rio de Janeiro. É pecado dizer que o padre tal está lotado na igreja tal? Bom, meu trabalho, então, foi convencê-lo de que o Jesus fodido do Joãozinho era uma ofensa à Igreja Católica. Foi difícil, mas quando expliquei ao padre que se Jesus pisasse naquela avenida, no dia seguinte, todos os jornais teriam uma foto dele pelado em cima de três meninas de dezessete anos, calouras de Turismo no CIETH, ele deu o jeito dele. Sem o Jesus mendigo na Beija Flor, o Carnaval caiu no nosso colo. O finado Joãozinho gritou, berrou, esperneou, mas não teve jeito (conseguiu colocar Jesus no desfile das campeãs, mas coberto). Ele sabia bem como funcionava o jogo. Faturamos uma bolada naquele ano. Beija Flor em segundo lugar, União da Ilha (a Escola da mulher pelada) em terceiro. Aquele incêndio nos barracões ano passado, dois mil e onze, você ainda acha que foi acidental?

Então você me pergunta se vale a pena sabotar, matar, extorquir e subornar (existem outros crimes, mas os mais solicitados são esses) para ganhar o Carnaval do Rio de Janeiro. A resposta é muito simples: sim, vale. Porque não é pelo Carnaval. Para dizer a verdade, a presidência da Escola, seja ela qual for, está se fodendo muito pouco para a história do samba. É tudo pela grana. Você custa a acreditar porque sabe que nunca vai ter essa grana na vida.

Mas nem sempre foi assim. Até mil novecentos e trinta e tal, o Carnaval era só pelo samba mesmo. Tudo começou com um sujeito chamado Natal da Portela. Você conhece o seu Natal da Portela? Claro que não conhece. Eu, que conheço gente para cacete nessa cidade - que você acha que é sua, mas é minha -, não conheci o seu Natal da Portela. Ele morava em Oswaldo Cruz, perto da Estrada do Portela, por isso o vocativo, já que a Escola de Samba Portela ainda não existia. Passou a existir depois do seu Natal, inclusive. Os homens fundaram um bloquinho de Carnaval que com o tempo se tornou a Escola. Mas o fato é que o seu Natal, pouco depois disso, trabalhava na Estrada de Ferro Central do Brasil e um acidente de trem decepou seu braço direito. Às vezes me pego pensando que se aquela porra daquele trem não arranca o braço do velho, o Carnaval como a gente conhece hoje nem existiria. Para o coroa, sobrou a canhotice e uma pensãozinha pelo acidente. Com o tempo livre e o braço restante, ele tornou-se apontador de jogo do bicho. O plano de carreira do bicheiro é muito simples: apontador, gerente de banca e finalmente banqueiro. (Você também pode ser o recolhe, que é o motoboy que vai de apontador em apontador recolhendo dinheiro para que o ponto não acumule muita grana viva, mas eles são prestadores de serviço). Rapidamente, seu Natal da Portela tornou-se o banqueiro do jogo do bicho responsável por toda a grande Madureira.

Era uma puta máquina de fazer dinheiro. Quando morreu um cupincha seu - Paulo da Portela, que era muito chegado no samba -, seu Natal achou uma boa idéia injetar uma grana na Escola. Aí o bicho pegou. O velhinho arrumou quase vinte títulos em trinta anos. Sem contar que revitalizou a região sozinho, fez igreja, clube, escola, campinho de futebol para a molecada e não demorou a virar autoridade. Um ministro babaca desses até convidou para solenidade com gringo e tudo. Com o tempo, tudo quanto era banqueiro de jogo do bicho queria ser de Escola de Samba, para ser adorado pelo povo, por você, pelos ministros e de quebra ainda lavar um dinheirinho.

Tem dado certo. E enquanto continuar dando, eu tenho emprego. É a maior festa popular do mundo! Eu trabalho. Seu papel é simplesmente festejar. Festeje.

*** Lançamento do livro Meus Textículos em 14 de Abril (sábado) às 18h. Rua Mem de Sá, 126 - Lapa, Rio de Janeiro - RJ


Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio.
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