life on marx

Contos, crônicas, contos, contos....

Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio

Divórcio

Divórcio, tralhas e pipoca.


mudanca2.jpg A campainha tocou três vezes em um espaço de tempo muito curto. Não sei por que, mas sempre acho graça da cara das pessoas que tocam a campainha com pressa. Fico olhando pelo olho mágico e não abro, apenas para ver a expressão de desenho animado que elas assumem em meio às suas urgências particulares. Abri a porta, enfim, mesmo não tendo pedido comida pelo telefone.

Suzana entrou esbaforida. Falou muito, diversas coisas, não sei exatamente o quê. Pelo que entendi, ela havia se separado do marido. Foi embora de casa, alguma coisa assim. Não levou suas coisas, ele não queria lhe dar suas coisas, alguma merdinha dessas.

– Como você fez pra pegar as suas coisas quando se separou?

Ela perguntou.

– Não peguei nada.

Até porque não havia o que pegar quando me separei. Mas não disse isso a ela. Trepamos duas vezes. Não havia comida e fiz pipoca. Comíamos na cama, quando ela pediu que eu fosse lá esbofetear seu marido e lhe buscar as coisas. Não sou do tipo que esbofeteia. Não me importava que o marido dela ficasse com as coisas, adotasse três colegiais, ganhasse na loteria, comesse minha mãe, adulterasse combustível... Acho que não há nada que um ser humano possa fazer que me faça esbofeteá-lo. Mas Suzana já não falava tanto e sua companhia estava agradável. A pipoca estava no fim e eu não quis ir fazer mais. Combinamos que ela faria a pipoca enquanto eu ia até lá esbofeteá-lo. Eram apenas três quarteirões por uma pipoca. Muito justo.

Toquei a campainha e um homem abatido abriu a porta. Sou um homem abatido, mas ainda assim fiquei com pena dele.

– A Suzana tá dando pra um cara a três quarteirões daqui.

– Quem é você?

Pensei em lhe dizer que era o cara, mas ele poderia querer me esbofetear. Não sei se ele é do tipo que esbofeteia. Disse-lhe que era vizinho do cara. O homem abatido, então, chorou. Nesse ponto, deixei de sentir pena dele e senti pena dela, casada com esse homem abatido e que chora. Ficamos ali na porta por quase cinco minutos. Ele chorando e eu assistindo com o estômago embrulhado e com vontade de comer pipoca. Sugeri:

– Você devia se vingar dela.

Ele parou de chorar e olhou para mim como se eu tivesse dito algo inteligente. Continuei:

– Joga as coisas dela no lixo.

Ele quase sorriu, foi uma coisa horrorosa. Fui embora enquanto ele arremessava trapos pela porta da casa, que se espatifavam no poste à beirada da rua.

Em casa, enchi a mão de pipocas e disse à Suzana que o safado tinha jogado suas coisas fora. Possessa, ela foi até lá buscar os trapos. Acho que ficou ofendida porque o sujeito jogou suas coisas no lixo. Tirando dois livros do Nelson Rodrigues, que vi enquanto ainda estava lá, o restante de suas posses era lixo mesmo. O marido, inclusive.

*** Esse conto integra o livro Meus Textículos. Lançamento em 14 de Abril (sábado) às 18h. Rua Mem de Sá, 126 - Lapa, Rio de Janeiro - RJ


Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/geral// //Eduardo Ferreira Moura