
Hoje peguei o resultado da biópsia. Acabo de descobrir que não tenho câncer. Nadinha. Nenhuma célula desse corpanzil está se reproduzindo descontroladamente. Desconfio disso há quase dez anos, mas os médicos insistiram em me furar para ter certeza. E agora têm. Não vou morrer por enquanto. A não ser que seja atropelado por um 432* aqui na porta, atravessando a rua para ir ao Hortifruti (a padaria é do mesmo lado da calçada; o mercado é uma porcaria, de maneira que opto pelo Hortifruti).
Declaro minha boa saúde com algum pesar. Isso porque, desde que Steve Jobs descobriu aquele câncer, não sei quantas mil pessoas descobriram um câncer também e sentiram-se no direito de passar sermões em nós outros, reles saudáveis. A gravação do discurso do Jobs na formatura da turma de 2005 de algum curso de Stanford percorreu o mundo. Lá, ele dá três lições de vida, bastante honestas até - na minha modesta e não-melanômica opinião -, que parecem ser levadas muito mais a sério quando ele nos revela o diagnóstico do câncer no pâncreas (que por fim o matou). Era um homem fantástico, temos que reconhecer. Mais do que computadores, ele nos vendeu a idéia da computação, a idéia de compartilhar, a idéia de iPod, a idéia de câncer e outras.
De 2005 para cá, cansei de ler que não sei quem está na "batalha contra o câncer" e escreveu um livro sobre a vida e não sei o que, não sei o que lá. Não quero ser cruel. O câncer é uma doença terrível, devastadora, normalmente fatal (estou me arriscando aqui, com esse normalmente), mas que em alguns casos permite que se receba a comissão da editora, que é paga trimestralmente, ao contrário de alguns casos da AIDS, por exemplo.
No mais recente dos casos que chegou à minha escrivaninha, um americano descobriu seu câncer e escreveu, note-se, vinte e oito resoluções para se levar uma vida feliz. Vinte e oito! Três vezes nove mais uma. Minha filha assinou Sky na casa dela (porque se casou com um bocó que não sabe dizer não a um operador de telemarketing). Aqui em casa tenho Net. Nunca consigo me lembrar o número do canal Discovery Channel quando estou lá e quando estou aqui. O tal americano quis que nos lembrássemos de vinte e oito resoluções para sermos mais felizes. Não há felicidade nisso.
Mas quem sou eu para dizer isso? Sou só uma pessoa sem câncer. No entanto, como cidadão sem câncer, sinto-me também no direito de deixar, a seguir, meu legado, por mais que não pretenda morrer por esses dias. Não é um manual de auto-ajuda, trata-se unicamente do que tentei (e tento) transmitir à essa minha filha ao longo desses anos todos em que ela parece não ter me escutado um minuto sequer.
Em primeiro lugar, não vejo propósito em esperar que se descubra uma doença em estágio terminal para só então tentar transmitir alguma coisa a alguém. Quem tem algum valor nessa vida (e mesmo quem não tem, mas acha que tem, como eu), deve tentar transmitir seus valores o mais rápido possível, porque o mesmo 432 que passa aqui na porta, passa na porta dos outros. Um dia pode se estar indo ao Hortifruti e... Pois então. Em segundo lugar, a vida não tem sentido algum, não adianta perder tempo procurando, então ela não deve ser levada a sério, jamais. Levar a vida a sério pode ser mais fatal do que câncer, além de causar calvície precocemente. Também é fatal se levar muito a sério. Se Deus existe, por mais que ele te ame, ele também não te leva a sério, ou teria te trucidado com as dez pragas do Egito na primeira ignorância que você fez ou falou, lá atrás. Rir de si próprio é fundamental, mesmo - e principalmente - quando a maioria das pessoas é incapaz de achar graça. E por fim, para ser minimamente feliz, é importante reconhecer seus erros e desculpar-se, mesmo que você tenha certeza absoluta de que está certo. Estar certo é uma babaquice sem tamanho e quem tem certeza absoluta de que está certo tem muito, mas muito mais chance de estar absolutamente errado.
Mas são apenas notas de um velho sem câncer, que não vai correr uma maratona ou pular de bungee jump, porque acaba de descobrir que não tem câncer. Um velho que pretende passar o restante da vida assistindo Discovery Channel no canal 51 (ou 52, sei lá), até que precise ir ao Hortifruti e nunca mais volte.
*Linha de ônibus aqui do Rio de Janeiro.
***
Lançamento do livro Meus Textículos em 14 de Abril (sábado) às 18h. Rua Mem de Sá, 126 - Lapa, Rio de Janeiro - RJ
Comentários
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Aureo Terra
reserve um colhão para mim se faz favor! Porra, é textículo... desculpe =) (se forem os dois tem desconto?) abraço camarada puxadão Eduardo
Bia Ribeiro
Muitoooo booommm.É mto bacana ler um texto escrito com humor e inteligência logo pela manhã.Bom Dia!
sarita
Incrível ...a vida sem receitas ... a vida pra se viver nas mais pictorescas atuações!
Jean Almeida
Simplesmente demais, agora eu fico com aquela sensação - como não pensei nisso antes - é mais pura verdade. Cada dia é único como o último pode ser, cada segundo também deve ser único..
Caio Arias
adorei!
Que bom que gostou, Caio! Obrigado.
Antes tarde do que mais tarde!
Bacana é alguém ter gostado rs! Fico feliz. Obrigado!
Na verdade é pague dois e leve um! Mas pra você tem desconto, pode deixar!
Sem receitas... Obrigado pelo comentário, Sarita! Quem escreve, mas não é o Paulo Coelho, é financeiramente mal pago para sempre, mas comentários assim bacanas compensam isso!
Caio Arias
Eduardo, achei de um bom humor maravilhosamente ácido. É muito real tudo isso... como se você pudesse dizer alguma coisa apenas no leito e longe dele, somos banais e não aprendemos nada da existência! Demais!
Eliane
Oi, Eduardo.
Gostei do texto. E do blog.
Voltarei outras vezes para lê-lo.
Abraço!
Eliane
Oi, Eduardo.
Gostei do texto. E do blog.
Voltarei outras vezes para lê-lo.
Abraço!
Leo
Qualquer pessoa que se case só pode ser alguém que não sabe dizer não. Desculpe, não pude resistir a essa piada horrível.
Excelente texto. Excelente mesmo. Digo isso por já ter calvice precoce (aos 28) e, mesmo assim, tentar todos os dias não levar a si mesmo e ao mundo inteiro tão a sério. Nem sempre consigo, mas vá lá, já sou meio careca, qualquer coisa que vier é lucro.
Parabéns pelo escrito.
Escrevendo boas coisas assim, sem câncer, se você descobrisse um acabaria vendendo mais do que o Paul Habbit. Tá, essa piada também foi ruim.
Pois é, Caio, mais real do que deveria.
Será sempre bem-vinda, Eliane! Abraço.
É, Leo, as piadas são realmente ruins.. Mas se te serve de consolo, já penteio a franja pra frente, tentando esconder os primeiros indícios... Visitei teu blog, a propósito. Bem bacana. Abraço!
Proberto
Parabéns pelo excelente texto e, logicamente, pelas idéias ali relatadas. Esses dias me deparei com o meu médico me dizendo que "...eu preciso me cuidar porque ele não conhece nenhum atleta que chegou aos noventa...". Pensei um pouco e afirmei que o que eu quero da vida é viver com certa intensidade, correr, pedalar, trepar, fumar umzinho de vez em quando, ou seja, ser protagonista da coisa, e não ficar deitado numa rede vendo "o bonde passar. Assim, vamos em frente, que "...quem fica parado é poste", como diria o velho guerreiro...
Correr e pedalar eu passo, viu... Mas sei que não devia!
camila
Cliquei na matéria achando que encontraria alguma referência a Bukowski, mas tive uma surpresa um tanto desagradável: sofri bullying por rir sozinha feito retardada no trabalho. haha Ótimo texto!
Seu comentário também foi bem gostosinho de ser lido, Camila! Mas desculpa pelo bullying. Volte sempre!
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