life on marx

Contos, crônicas, contos, contos....

Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio

A Majestosa

Um nariz e a improbabilidade do amor.


majestosa.JPG Ela nasceu exatamente com esse nariz, com esses mesmos ângulos e tamanho, foi crescendo em volta dele. Homem que se apaixona pelo busto ou pelo quadril da mulher só não é menos criativo do que homem que se apaixona pelos olhos ou pela boca. Alguns, mais ousados, se apaixonam por tornozelos, barrigas, cotovelos quiçá. Eu me apaixonei por aquele nariz.

Aquele nariz - que se houvesse um mínimo de justiça no mundo teria inspirado a arquitetura de torres, edifícios, represas etc. - já era aquele nariz vinte e tantos anos antes. Nada nesse mundo é o que era há vinte e tantos anos, com exceção daquele esplêndido nariz.

A história começou na Majestosa, padaria famosa do Jardim Guanabara, na Ilha do Governador. Fosse falar da pré-história, teria que explicar porque a padaria tem esse nome e realmente não faço idéia. Acho que o português que arrendou o terreno pensou:

- Visto que cabe uma majestosa padaria nesse terreno, o pá.

Batizou de Majestosa, pois. Dona Romena, todos os dias, esperava o 326 (lê-se três dois meia - existe um código secreto para ler número de linha), ônibus que vai de Bancários ao Castelo, no ponto em frente à supracitada panificação. Se realmente a pré-história da história estivesse em questão, teria de se analisar o porquê de dona Romena esperar o ônibus ali todos os dias. Provavelmente porque morava ali perto, porque era o que dava para pagar de aluguel estando perto da praia - porque naquele tempo as praias da Ilha ainda eram freqüentáveis - e outros et ceteras que ignoro e faço questão de ignorar para não enlouquecer.

Dona Romena era professora primária em Vila Isabel (descia do 326 na Leopoldina e entrava no 438 - coincidentemente lê-se quatro três oito, mas realmente existe um código secreto para ler linha de ônibus!). Fez o curso de normalista e ensinava todas as disciplinas para as crianças, uma arte que não consigo associar a um ser humano regular. Mas ela ensinava. Segunda-feira era dia de História, Educação Moral e Cívica, Estudos sociais e Geografia. Terça-feira ocupava a manhã das criancinhas com Recorte e Colagem, Matemática e Desenho. Quarta-feira, pelos caprichosos desígnios de alguma pedagoga enorme de gorda e com óculos quadrados sobre a face engordurada, o dia começava com Português.

Naquela quarta-feira em especial, o 326 demorou mais de uma hora para aparecer em frente à Confeitaria Majestosa, já que o motorista atrasou-se para chegar no ponto final, porque passou a noite dançando no baile com sua esposa e teve de voltar para casa a passos curtos, carregando a pequena no colo. Dona Romena ficou quase setenta minutos encostada no ponto - o baile estava realmente quente na noite anterior -, poucos metros adiante do majestoso letreiro. Natural que depois de tamanha exposição, a primeira palavra do ditado na aula de Português da quarta-feira tenha sido: majestosa.

Esse é um momento importante. E mágico, se considerarmos o português, a mulher do motorista e a especulação imobiliária na cidade. A primeira palavra do ditado não foi joaninha, escarola ou bambolê, palavras temidas pela minha amada Cínthia de vinte e tantos anos atrás. Girino, então, sempre que caía ela errava. A primeira palavra foi: majestosa. Cínthia, além do nariz, carrega desde a infância uma doce insegurança, um charme. Uma vez vencida a insegurança inicial, Cínthia mostra-se a criatura mais incrível de todo o universo, contrariando os processos evolutivos mal-explicados por Darwin. Cínthia está à frente da espécie. Já estava há vinte e tantos anos. Assim, quando notou que sabia escrever a primeira palavra ditada, majestosa, não foi difícil acertar todas as outras.

Crianças boas de ditado, vez por outra, acertam oito entre dez palavras. Aquelas que se destacam, que são realmente boas no negócio, acertam nove. Minha Cínthia acertou dez das dez palavras: majestosa, termômetro, chapéu, sombra, sabonete, pássaro, hospital, cavalete, queijo e ônibus.

- Muito bem, Cínthia.

Minha Cínthia não respondeu, era muito envergonhada. Em verdade ainda é. Dona Romena, ao fim do dia, foi parabenizar os pais de Cínthia, arquitetos daquele nariz, mas não pelo nariz, sim pelo ditado.

- Cínthia já entrou na escola sabendo ler. A avó que ensinou. Cínthia é muito boa com palavras.

Um deles explicou para dona Romena.

- Ah sim!

Quando a professora comentou do fato com a diretora (pedagoga enorme de gorda e com óculos quadrados sobre a face engordurada), concluíram que o mais sensato a se fazer era avançar Cínthia de série. Escolas nunca fazem o que é mais sensato a se fazer. Mas optaram por avançar Cínthia ainda assim. Então, ela veio parar na turma da minha irmã caçula. Quais as chances de nos conhecermos? Uma em um trilhão? Quatrilhão, sei lá. Esse número existe? São quase dez anos de diferença, eu estava interessado em outros negócios, alheio ao baile, padaria, ditado, essas coisas que conspiravam em meu favor. Ocupado demais para reparar na criança que vivia lá em casa com minha irmã depois da aula, metendo o nariz nos meus negócios.

Até que um dia reparei. Ah, que nariz!

*** http://www.majestosa.com.br/contato.htm - Sim, existe!

Lançamento do livro Meus Textículos em 14 de Abril (sábado) às 18h. Rua Mem de Sá, 126 - Lapa, Rio de Janeiro - RJ


Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio.
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