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Contos, crônicas, contos, contos....

Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio

Arqueologia

Registros arqueológicos do amor que acaba.


33960767_0c1590f95c_z.jpg Já que não tinha jeito, fui tomar banho. Azulejos frios, como o restante da casa, não veem sol há ainda mais tempo que eu. Abandonei o short – única coisa que me veste nessas últimas semanas – e me entreguei à água quente. Escaldante, aliás. A fumaça tomou conta do banheiro e dos meus pensamentos, que já estavam habitando o distante, quando a condensação do vapor d'água nos azulejos do teto me despertou com uma gota mais fria. Banhos assim são excelentes. Apenas debaixo da água fervendo é possível pensar de maneira livre. Não como um ser humano livre (é impossível ser humano e livre), mas como um legítimo inhame cozinhando na panela, livre da metafísica que deveria acompanhar quem está prestes a virar acompanhamento na sopa.

Acabou. Fechei as torneiras, que reclamaram. O calor deu lugar a um frio glacial, de um tipo que nem sabia que cabia no meu banheiro (que não é no Leblon). Esqueci a porcaria da toalha. O primeiro impulso é gritar para que alguém a pegue por você. Não que me incomode em molhar o chão, mas para não sofrer ainda mais com o frio. É inútil, ninguém responde, a não ser o eco da inescrutável casa vazia morando sozinha do outro lado da porta.

Deixei o banheiro para trás, marcando meu caminho com gotas e pegadas. E frio, muito frio. O armário, de bom grado, forneceu a primeira toalha da pilha. Voltei para o banheiro e me enxuguei dentro do box, tentando apagar registros desses últimos instantes em que estive carente de toalha. Enxuto, lancei-a ao chão para pisar por cima e refazer o caminho até o armário, secando as marcas úmidas da minha inaptidão para a vida civilizada. Chão seco, atirei a toalha ao cesto de roupa suja. Só então notei que ela era vermelha, porque, uma vez dentro do cesto, encontrou com uma colega de profissão, essa da cor azul.

A aquarela de toalhas sobrepostas no cesto compunha um registro arqueológico dos casamentos falidos. Enxovais escavados, díspares e ímpares. A arqueologia estuda os modos de vida do passado. E como é impossível impedir o passado de passar, melhor impedir a arqueologia. Joguei o cesto fora.

*** Esse conto integra o livro Meus Textículos. Lançamento em 14 de Abril (sábado) às 18h. Rua Mem de Sá, 126 - Lapa, Rio de Janeiro - RJ

A imagem utilizada vem do flickr desta criatura.


Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio.
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