life on marx

Contos, crônicas, contos, contos....

Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio

É Pavê ou Pra Comer?

A piada que desvela seu nível de babaquice pode ser também um bom termômetro social para o preconceito.


bh_festa_porca_parafuso_bwana_pub_credito_reproducao.jpg Você é daqueles que, ao ter notícias, por exemplo, do Dia da Consciência Negra, Dia da Mulher, Dia das Crianças ou do projeto de criação do Dia do Orgulho Homossexual não resiste e diz: "então tem que haver o Dia do Orgulho Hétero, Dia dos Adultos, Dia do Homem, Dia Consciência Branca etc."? Bom, nesse caso, você é vítima de uma maneira de pensar muito fácil, mas equivocada.

A criação de uma data de atenção à qualquer minoria, inicialmente, pressupõe uma minoria (porra!). Além disso, tem o propósito de chamar atenção, pelo menos uma vez ao ano, para as questões sociais que ainda se impõem a essas minorias. Em suma, nesse caso você é bem babaca. Não por ser branco, homem, heterossexual etc., sua babaquice se deve ao fato de que, além de já ter um regime legal voltado para você e suas escolhas, você quer um dia do ano para louvar essa ignorância, que são leis e costumes omissos às minorias.

Isso porque se você é homem, branco, adulto, heterossexual, ligado a alguma religião, não apresenta alguma deficiência e nem é obeso, não existe praticamente nenhum xingamento que se aplique a você, já reparou? Já te xingaram de "seu branco", "seu maduro", "seu machão", "seu religioso", "seu normalzinho"? Pois é. Ainda assim, você acha que deve haver um dia voltado para o seu orgulho, para defender suas questões. Defender exatamente o quê? Você não precisa defender absolutamente direito algum, já está tudo defendido e garantido antes do seu nascimento, do direito ao casamento ao direito de não morrer queimado na fogueira simplesmente por ter nascido mulher.

Você não deve e nem precisa se orgulhar das suas opções. Sua mãe, seu pai, suas tias escrotas, seus vizinhos fascistas, praticamente todo o ocidente já se orgulha de você. Estão todos orgulhosos da sua condição de branco, heterossexual, homem etc. Nenhum deles te joga nos trilhos do metrô por causa da sua preferência sexual, ou te delega cargos e olhares indignos por causa da cor da sua pele.

Assim, de posse dessas informações, ao se deparar com qualquer projeto de lei que vise a criação de uma data de atenção à qualquer minoria, ao invés de expressar a magnitude da sua babaquice através da maneira mais óbvia (que é escolhendo o dito "oposto" do que aquela data representa e sugerindo a criação de um dia para isso também), fique calado. Resista, conte até dez, fique calado. Se preciso, conte outra vez. Mantenha sua babaquice suspensa no ar, para que seja desvelada apenas naqueles momentos inevitáveis em que você tem de abrir a boca. E, se possível, faça o mesmo quando alguém comunicar que a sobremesa será pavê.

*** Lançamento do livro Meus Textículos em 14 de Abril (sábado) às 18h. Rua Mem de Sá, 126 - Lapa, Rio de Janeiro - RJ


Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio.
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