life on marx

Contos, crônicas, contos, contos....

Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio

Atuação

Pensei em pedir vinho tinto, mas puta que pariu. Pedimos dois chopps. Ela não era de beber e ficava vulgar com uma tulipa de chopp na mão. Ótimo.


2908678375_1c721f89a4_o.jpg Odeio o telefone celular. Não tivesse filhos, jamais atenderia. Quando ele começou o estardalhaço, não reconheci o número de imediato. Mas daquela voz eu jamais esqueceria.

- Alô.

- Rui?

Ela perguntou. Foi suficiente para que eu me recordasse de cada centímetro seu.

- Valquíria! Tudo bem?

A pergunta foi apenas um esboço. Havia uma urgência na voz, como quem espera dispensar amenidades.

- Tô indo embora. Vou sair do país.

Odeio o telefone celular, mas às vezes ele traz boas notícias. Nesse momento, entendi exatamente o motivo da urgência. Entendi porque dispensar amenidades e a pretensa educação. Alguma coisa gritava dentro de nós dois e se não ouvíssemos naquele instante, essa coisa se calaria para sempre. Não morremos de medo do silêncio, mas morremos de medo do para sempre.

- A gente precisa se encontrar, então!

Marcamos um chopp para o fim da mesma tarde. A essa amenidade nos permitimos. Antes do tal chopp, estive com Valquíria duas vezes. Talvez três, sei lá. Temos amigos em comum e de vez em quando nos esbarramos nas casas deles. Eu com Marieta, ela com Bob. Marieta é minha segunda esposa. Robert é o piloto de avião que veio da Alemanha passar férias, se apaixonou por Valquíria, passou a voltar sempre para vê-la e bem recentemente a pediu em casamento. A mudança de Valquíria para a Alemanha já era assunto antigo na conversa do nosso grupo, mas era como aquelas coisas que vão acontecer e nunca acontecem. Até que um dia acontecem.

Sempre desconfiei que Bob, apesar da cara de bobo e do apelido compatível, queria apenas uma escrava branca para lavar o chão e fazer comida em sua casa, enquanto ele comia aeromoças por toda a Europa. Não o culpo. Não preciso dizer que ele é bonito, saudável e rico. Não preciso dizer que, em contrapartida, tenho um cartão de crédito cujo limite é de míseros mil e quinhentos reais e possuo duas obturações. Ainda assim, Valquíria me ligou.

Não sei exatamente como ela conseguiu meu telefone, mas sei exatamente por que. Conversamos bastante nessas duas últimas ocasiões em que nos encontramos. Conversamos sobre coisas da vida, sobre tudo e sobre nada. Foi agradável. Havia faíscas no ar. Ficou claro em ambas as conversas que se eu não estivesse com Marieta e que se ela não estivesse com Bob, nós estaríamos juntos. Não dissemos nada disso, mas ficou claro. É raro que as coisas fluam assim.

- Marieta?

Odeio celular, mas às vezes é necessário.

- Oi, Rui.

- Escuta, hoje você vai no teatro com a Iolanda mesmo?

- Vou, amor. Você se incomoda? Já combinamos tem tanto tempo.

- Não, tudo bem. Devo comer na rua, então... Tomar uma cerveja depois do trabalho...

- Não quer que eu leve alguma coisa pra você?

- Não precisa.

- Então tá.

- Um beijo.

- Beijo. Até mais tarde.

Um bom jornalista precisa saber transmitir notícias. Escolhi uma das mesas do salão interno da chopperia Vila Rica um pouco depois das cinco horas. Estava ansioso, saí mais cedo, andei mais rápido, cheguei mais cedo ainda. Valquíria apareceu vestindo preto. Também chegou mais cedo do que o esperado. Claro que me sentia bem, com aquele friozinho na barriga característico de quem está prestes a desbravar novos horizontes. Mas algo não estava certo. Valquíria parecia estar cumprindo um protocolo. Não me importava, no fundo. Contanto que cumprisse bem cumprido. Pensei em pedir vinho tinto, mas puta que pariu. Pedimos dois chopps. Ela não era de beber e ficava vulgar com uma tulipa de chopp na mão. Ótimo.

- É definitivo?

- Definitivo.

Então coloquei minha mão por cima da mão dela. Só me arriscaria com a certeza de que seu visto era permanente. Não sei de deixei transparecer, espero que não. Ela olhou em volta, como se os azulejos portugueses pudessem nos ver e dedurar. Soltou a respiração como não fazia há muito tempo, pude notar. Beijei sua mão. Ela trouxe a minha mão para perto do rosto. Não consegui ver seus olhos atrás dos óculos escuros, mas era melhor assim. Criava um ar de mistério, de loura em filme do Hitchcock.

Não havia clima para falar e não havia muito que ser dito. Desvencilhei-me dos seus dedos apenas para alcançar minha carteira e coloquei uma nota de cinco debaixo do porta-copo. Alcancei de novo sua mão e saímos do bar assim, como dois namorados. Namoramos por 300 metros, mas sem beijo, não sei bem porquê. Já estávamos nos arriscando bastante, mas o que eu poderia fazer? Era uma boceta, um cu e dois (dois!) peitos deixando o continente ainda naquele final de semana.

Entramos no motel. Pelas próximas quatro horas, naqueles vinte metros quadrados, não haveria lei ou moral. Não houve. Ela tirou os óculos e me beijou. Seu corpo tinha a textura e a cor de massa de pão. Eu gosto de miolo de pão. Era uma mulher bonita, mas lhe faltava algo que Bob não poderia proporcionar.

Foi bom. Sempre é, mesmo quando é ruim (não que tenha sido o caso). Mas quando nos vestimos já compartilhávamos a vontade de nunca mais nos vermos. Foi triste. Principalmente quando ela disse, com tanta propriedade:

- Adeus.

Toda mulher fica linda dizendo adeus. Fui para casa levando seu cheiro. Ela foi para a Alemanha levando meus gametas.

Quando Marieta chegou, colocou no meu colo um suculento sanduíche de mignon com queijo e abacaxi do Cervantes dizendo:

- Tinha certeza de que você não ia jantar.

- Acertou, meu amor.

Tirou a roupa e foi para o banho. Belo corpo. De lá me gritou:

- Como foi o dia?

- Ótimo.

Respondi. Pensei em completar:

- Acho que vou visitar a Alemanha daqui uns vinte anos.

Mas quando abri a boca, as palavras que escorreram foram: - E o teatro?

*** Lançamento do livro Meus Textículos em 14 de Abril (sábado) às 18h. Rua Mem de Sá, 126 - Lapa, Rio de Janeiro - RJ


Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio.
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