life on marx

Contos, crônicas, contos, contos....

Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio

Lançamento: Meus Textículos


web-2.jpg Parte I

O telefone tocou. Estremeci. Nas semanas que antecedem ao lançamento as pessoas só me ligam para justificar suas ausências. Não importa quantos livros eu publique - caso continue fazendo isso -, sempre vou estar em pânico na véspera.

- Alô.

Eu disse. Mas não tão calmamente assim. Disse um "alô" trêmulo, de quem não dorme bem há três semanas.

- Alô.

Ela disse. Mas não tão ansiosamente quanto quem vai cancelar um compromisso. Disse um "alô" leve, de quem acabou de tomar um Java Chip no Starbucks a caminho da redação e se lembrou de mim.

A filha da puta da jornalista estava ligando para cancelar a entrevista. Desculpa pelo "filha da puta". Não vou mais escrever "filha da puta".

- O Millôr morreu e o Chico Anysio também. Foi mal, mas eu não posso me dar ao luxo de entrevistar um autor vivo, em uma semana de tanto autor morto. Você entende?

Eu sei que prometi não escrever mais "filha da puta". Mas, que filha da puta! Permaneci calado, estremecendo.

- Eduardo, você ainda tá aí?

Estava.

- Tô. E agora?

- Não posso mais te entrevistar essa semana. Desculpa mesmo.

- Mas o livro sai sábado agora, dia catorze. Na outra semana já será tarde.

Veio à mente, então, a imagem daquela bela livraria, repleta de cartazes com a minha cara, mas deserta de leitores.

- Eu tô enroladíssima. Não vou ter tempo de escrever nada.

- Eu me entrevisto e te mando.

Foi a primeira idiotice que me ocorreu dizer.

- Ué, você vai conseguir escrever?

- Teoricamente eu vivo disso.

Teoricamente.

Parte I.I

Poupe-se. Pule para a Parte III.

Parte II

Mais do que um belo par de coxas, aquele corpo esbelto poderia ser um iminente indicado ao Pulitzer, não estivesse perdendo tempo com um escritorzinho de segunda categoria. Não seria eu quem contaria isso a ela. A não ser que ela perguntasse. Afinal, quando seus dedos lânguidos traziam o gravador para perto da boca antes de me fazer uma pergunta, duas tarefas impossíveis se colocavam: não responder e não sentir inveja do aparelho.

- Mas agora vamos ao livro. Por que esse nome?

Ela disse. Tudo que eu queria era ir à cama, ao sofá, à bancada de granito na cozinha... Então lembrei que a bancada de granito na cozinha me dá dor nas costas e que uma vez chamei um pedreiro para movê-la dez centímetros para cima e ele queria me cobrar quase quinhentas pratas. Assim, acabei me atendo ao livro.

- Textículos, com "x". São textos curtos. Cinqüenta deles.

Ela arregalou os olhinhos emoldurados por vastas camadas de lápis de olho:

- Cinqüenta? São micro-contos?

- Não. São contos. Parece muito, mas alguns não chegam a ter uma página. Os maiores não passam de três.

Mais aliviada:

- Esse é seu segundo livro. O primeiro foi um romance. O que te fez mudar do romance para o conto?

- Não mudei.

Ela era linda, mas meio burrinha. Uma graça. Prossegui:

- O romance, Esposa Perfeita, embora tenha sido publicado em 2011, foi escrito em 2008. O livro de contos, Meus Textículos, embora esteja sendo publicado em 2012, foi escrito em 2010. Deixo os livros amadurecerem um pouco antes de ganharem vida. Ao longo dos anos vou mudando uma ou outra coisa nas histórias. E, paralelamente, continuo escrevendo outros romances e contos.

- Mas você tinha me dito que Seus Textículos...

Ela fez uma pausa e sorriu. Uma pausa digna de nota. Sorri de volta.

-... Você tinha me dito que seu novo livro é um romance disfarçado. Pode explicar essa afirmativa?

- Posso. Os cinqüenta contos são sobre o mesmo personagem, que não tem nome. São todos narrados na primeira pessoa. Falam sobre o cotidiano desse mesmo personagem, do seu nascimento até seu fim. Acaba sendo um romance, se o leitor assim quiser.

- Mas existe um encadeamento nos contos?

- Não.

- Não?

Seu pescocinho inclinou-se quarenta e cinco graus e sua expressão facial congelou-se na posição de dúvida. Lembro que uma vez vi um filme com o Cary Grant em que ele oferecia uma bebida para a moça e, na cena seguinte, eles estavam em uma cama de casal, se recompondo do extenuante exercício recente. Senti uma sede louca, então.

- Não, não há um encadeamento. Deu bastante trabalho escrever assim, mas o sentido do livro, como um romance, permanece inalterado, ainda que os contos sejam lidos em qualquer ordem. Na verdade, alguns contos podem ser até mesmo ignorados.

- Como você fez isso? Quer dizer, por onde começou?

Inflei-me de confiança.

- Um mágico não revela seus truques!

Sorri. Então, com a mesma velocidade, me arrependi:

- Não publica isso! Eu pensei os contos relativizando início, meio e fim. Às vezes o início de um conto está dentro de outro. Às vezes o fim de um conto está dentro de outro. Ainda assim, o livro é inteligível, porque não estou contando uma história de espiões, com intrigas internacionais etc. São histórias sobre o cotidiano. Se um conto começa com o protagonista contando que odeia fila de mercado e você pula esse conto, ainda assim vai entender no conto seguinte que ele odeia fila de mercado, porque todos odiamos fila de mercado.

Ela sorriu. Todos os seus sorrisos são dignos de nota.

- "Todos odiamos fila de mercado", você disse. É uma frase boa, porque você se inclui. Você não tem medo de ser confundido com o personagem? Ainda mais com esse título: Meus Textículos?

- Não, eu e ele temos muito pouco em comum.

Pensativa:

- Mesmo?

Categórico:

- Mesmo. Mas o único jeito de comprovar isso é conhecendo ambos.

- E como conhecer ambos?

- Aceita uma bebida?

Parte III

- Alô, Renata? Olha não consegui escrever, desculpa. Faz o seguinte, publica uma notinha só, esquece a entrevista. Diz só que o lançamento do meu livro é dia catorze de Abril, sábado, às sete da noite, na Lapa. Rua Mem de Sá, cento e vinte e seis. Chama-se Espaço Multifoco. "Meus Textículos" o nome do livro. (...) - Não, Renata! Pelo amor de Deus! É com X!

*** Lançamento do livro Meus Textículos em 14 de Abril (sábado) às 18h. Rua Mem de Sá, 126 - Lapa, Rio de Janeiro - RJ - Compareçam!

Evento no facebook: http://www.facebook.com/events/195934833851699/


Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio.
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