life on marx

Contos, crônicas, contos, contos....

Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio

Sem Ânus de Solidão

"porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não teriam uma nova chance na terra"


Cristo_redentor-close.jpg O Beco do Tesouro, no centro do povoado do Rio de Janeiro, foi batizado, através da fala do povo, em homenagem ao Prédio do Tesouro, que não mais existe. Mais justo seria homenagear o travesti que, sentado em sua carteira escolar, faz ponto na esquina do Beco com a Avenida Passos. No entanto, era o travesti quem homenageava o beco: chamava-se Tesouro. Em verdade, chamava-se Afonso Almeida Lopes, mas uma vez que colocava sua carteira escolar bem debaixo da placa do Beco, ficou conhecido por Tesouro, mais por uma questão geográfica do que por uma gentileza dos que conheciam seus serviços. Os que conheciam seus serviços, aliás, pareciam não conhecer gentilezas. Não tratavam o homem como o que era, um semelhante. Um semelhante de permanente no cabelo, mini-saia nas coxas e silicone automobilístico no restante do corpo. Um Tesouro.

- Cinco reais.

Dizia em resposta aos transeuntes solitários que demonstravam interesse, protegidos pela cumplicidade da noite.

- Pra você é de graça.

Não por qualquer resquício de afeto, mas por esperteza, dizia também em resposta aos incautos que, por efeito da precária iluminação pública ou da precária iluminação da mente para os assuntos mundanos, criavam coragem para perguntar: "e por trás?". O corpo de Tesouro era ainda mais agradável do que os corpos das primas da esquina seguinte, outra injusta homenagem, Travessa das Belas Artes. Em comparação a elas, compensava a falta de orifícios com excesso de criatividade.

Naquela madrugada, Tesouro não estava em sua carteira, utilizando-se dos pés de dedos vermelhos e chinelo Grendene branco de salto plataforma a enxotar ratos desavisados para a Avenida Passos, onde eventualmente seriam atropelados, em um ritual que lembrava aos roedores a vida no povoado também para os seres humanos. Estava algumas quadras a seguir, sentado no banco do carona de um carro da Polícia Militar estacionado em frente ao prédio da Petrobrás na Avenida Chile, a Wall Street carioca. Inicialmente cobrava quinze reais - cinco reais apenas se o serviço fosse prestado no Hotel Nicanor, ali mesmo na Praça Tiradentes -, mas daquela vez, como nas sete vezes anteriores, Tesouro praticava sexo oral no policial gordo gratuitamente, em troca de proteção. Uma proteção tão mercantilizada quanto desprotegida, que permitia o enriquecimento dos policiais em um sistema de lucro que lembra o sistema dos contraventores, em especial dos mafiosos, que vendem a cura da doença que propagam.

O Gordo, policial, chamava-se Peixoto, de acordo com a platina. Ainda assim, em homenagem ao seu formato corporal, que em matéria de proporção lembrava uma lata de atum, tanto os colegas de profissão quanto os raros policiais honestos o chamavam Gordo. Ele exercia sua concupiscência diabólica sob a intermitente luz vermelha da sirene, que alertava à criminalidade que o braço armado da lei está ali, recebendo sexo oral de um travesti. Tesouro o odiava, tanto quanto qualquer outro cliente. Entretanto, como já não havia muitos dentes a perder, mantinha dentro da boca cheia os palavrões que imaginava para descrever o policial. Permitia-se apenas, eventualmente, dizer-lhe:

- Como é gostosinho.

Insuflava, assim, o ego do Gordo, embora o diminutivo fosse utilizado com a intenção disfarçada de diminuir o cassetete do policial em comparação à média. Tratava-se apenas de um artifício mental. Não havia grande diferença nos atributos da lei naquele aspecto. No entanto, se comparado com alguns outros clientes que Tesouro já tivera o desprazer de colecionar, o distintivo do policial fazia-se muito pouco distinto, realmente. O sutil senso de ironia de Tesouro foi adquirido na escola. Ao concluir a quarta série Tesouro foi o Almeida Lopes que permaneceu mais tempo nos estudos.

Entre os suspiros e murmuros que Tesouro deixava escapar de sua boca excessivamente pintada, o policial gordo recostou a cabeça no encosto e fechou os olhos aliviado. É estranho, para qualquer policial, sentir-se aliviado. Principalmente em um povoado como o Rio de Janeiro, onde coisas acontecem a todo o momento. Basta procurar. Naquele exato momento, por exemplo, Teobaldo pisava com o pé direito na portaria do enxovalhado edifício de número quarenta da Rua das Marrecas. Ele não admitia, mas era supersticioso. Pisava com o pé direito nos locais em que pretendia efetuar os serviços e nunca tirava do pescoço o camafeu herdado da mãe, nem mesmo para tomar banho. Tratava-se de sua herança favorita, já que a outra, seu nome, odiava. Apresentava-se sempre como Téo, por acreditar que as três letras tivessem mais a ver com sua personalidade pouco expansiva, com seu jeito estranho, seus ombros largos, peitoral estufado e suas madeixas gordurosas cor de prata escorrendo pelos ombros.

Saiu do elevador no quarto andar e, calmamente, tocou a campainha do quatrocentos e três, sala comercial alugada por Felipe com o propósito de consertar computadores. Quando completou o curso técnico na Microlins, Felipe começou a prestar visitas, oferecendo a manutenção de computadores. Mas a vida só melhorou quando seu pai sacou o FGTS para montar um negócio para o filho, a firma de consertar computador. Os negócios estavam indo bem. Além da sala, Felipe possuía um quiosque no Edifício Avenida Central, cujo nome homenageia a extinta Avenida Central, hoje batizada de Rio Branco. Perdeu-se o sentido de homenagem no povoado.

- Estou tão orgulhoso, meu filho. Sacar esse dinheiro e investir no seu futuro foi a melhor coisa que eu fiz. Você é bom nesse negócio de computador. Ainda bem que estudou, não virou policial como seu pai.

Felipe Peixoto é filho do Gordo. Com o recente sucesso nos negócios, juntou dinheiro para casar. Onze meses depois nasceu Nina. Nina é neta do Gordo. Felipe é feliz. Estava assim, feliz, quando abriu a porta para Téo. Não desconfiava que o homenzarrão cabeludo e grisalho fosse empurrá-lo no chão assim que a porta se abrisse e deixar-lhe dois tiros desfigurantes na face. Felipe achou que os assassinos de aluguel trabalhavam como nos vídeo-games, destrancando portas silenciosamente, adormecendo as vítimas e levando-as até o vilão, que tem uma base secreta no subterrâneo. Téo mora na Tijuca, em um apartamento de dois quartos na Rua São Francisco Xavier. Não se considera matador de aluguel, porque no mundo real não existem os que, exclusivamente, matam por contrato. Eles também matam quando é o caso, mas subvertem a moral de outras maneiras na maioria dos casos. Não obedecem a um código de ética próprio, como nos filmes, mas sim a uma ética de mercado, que nos deixa tão chocados por ser tão coisa nossa.

Mateus era gerente do escritório que a XP Investimentos possuía exatamente a sessenta e sete metros do quiosque de Felipe, mas do outro lado da Avenida Rio Branco, na Manhattan Tower. Como, pelas vias normais, Mateus ficasse cada vez mais distante de alcançar os utópicos resultados estabelecidos pela empresa, viu-se forçado a utilizar de métodos ilícitos, como plugar um pen-drive contaminado no computador de Tiago, gerente da Key Investimentos, na mesma Avenida Rio Branco, entre o Edifício Avenida Central e a Manhattan Tower. Utilizou-se de um falso cliente para isso. Quando Tiago contratou a firma de Felipe, através do quiosque, para fazer o reparo, Mateus dirigiu-se até o enxovalhado edifício de número quarenta da Rua das Marrecas e comprou de Felipe uma cópia do HD de Tiago. Os apóstolos se traem todos os dias no centro da cidade há dois mil e tantos anos. Quando descobriu, Tiago contratou Teobaldo.

O melhor amigo de Felipe chama-se Fábio. Ele mora dois andares abaixo de Teobaldo no mesmo edifício na Rua São Francisco Xavier, junto a suas duas tias avós, que jamais saem de casa, a não ser para ir ao hospital Dr. Badim, em frente. Eventualmente, Fábio e Teobaldo encontram-se no elevador, mas nunca disseram mais do que boa tarde. Fábio cursa contabilidade na Universidade Estácio de Sá, no campus da Rua Presidente Vargas. Quando Felipe montou a firma, Fábio foi visitá-lo na Rua das Marrecas. Programou-se, para tanto, de ir direto depois da faculdade, pela Avenida Passos. O professor responsável pelos últimos tempos de aula a deu por encerrada bem mais cedo do que o esperado, pois precisou ausentar-se para reaver seu carro, multado e rebocado pelos desígnios de um policial militar rotundo que trabalha no centro da cidade. Assim, naquela noite, Fábio se viu na rua bem mais cedo do que o esperado. Enquanto caminhava pelas ruas precariamente iluminadas, sentia uma saudade crescente de Cristiane, que o trocara por um sujeito de outra cidade que veio em visita semanas antes. Consumia-se, minuto após minuto, pela saudade de Cristiane e pela inveja da prosperidade do melhor amigo. Dessa maneira, quando Tesouro lhe disse:

- Cinco reais.

Fábio lembrou-se de que possuía na carteira sete reais e cinqüenta centavos. O suficiente para um programa e a passagem de volta para casa. Reuniu coragem:

- E por trás?

No Hotel Nicanor, assim que abaixou as calças, sentiu, de encontro às suas partes pudendas, as duas lâminas quentes da tesoura que Tesouro trazia entre as nádegas.

- Dá o dinheiro, anda.

Fábio achou melhor não resistir e cedeu os sete reais e cinqüenta centavos para o travesti, que segurava a tesoura nas mãos apertando cada vez mais forte.

A tesoura havia sido encontrada meses antes, à frente de uma cooperativa de catadores de lixo na Rua Leandro Martins, por trás da Rua Presidente Vargas. De posse do instrumento, Tesouro se desfez do estilete cego com quem mantinha uma grande amizade já há seis anos. Com os sete reais e cinqüenta centavos, Tesouro comprou macarrão e guaraná natural para seu irmão entrevado, com quem dividia o quarto na cabeça de porco. Antes de morar no aconchego de suas nádegas, a tesoura habitava um apartamento frio na Gávea, que servia de ateliê para uma artista plástica ruim chamada Glória Qualquer Coisa.

Quando Fábio chegou à firma de Felipe, contou com algum embaraço o desagradável incidente para o policial gordo, pai do amigo, que se lembrava de já ver visto, sim, travesti naquela região com semelhante aparência. Prometeu averiguar em seu próximo turno de serviço. Foi assim que o Gordo conheceu Tesouro, averiguando. Desde então, passou a usufruir de sua boca sempre que esteve escalado para a patrulha do prédio da Petrobrás, vigiado vinte e quatro horas por dia. Um tesouro nacional. Todo mundo conhece alguém que conhece alguém que chupa alguém que conhece alguém nesse povoado. Se a moral precisa ter uma história, que seja essa.

O Gordo não temia a reação da população ou de outros policiais militares, por isso entregava-se tão facilmente aos prazeres vicários na viatura. Temia, no entanto, a Polícia Civil e suas sirenes azuis.

- Eles já me avisaram uma vez. Eles não avisam duas vezes.

Eles não avisam duas vezes. Enquanto Tesouro tinha o membro gordo e flácido na boca e o Gordo tinha a cabeça recostada no encosto do banco da viatura, Teobaldo entrava no edifício da Rua das Marrecas, algumas crianças choravam, alguns casais discutiam, um veículo parava ao lado da patrulhinha do Gordo. Um homem desceu e soltou uma gargalhada de metralhadora por alguns segundos na cabeça do Gordo. Isso no Rio de Janeiro, em Brasília eram dezenove horas.

Inicialmente, Tesouro assustou-se com o disparo e instintivamente encolheu o pescoço rapidamente, engasgou-se. Ao notar que abocanhava um pênis morto, retornou à sua postura ereta e fez o sinal da cruz, como o ensinaram na catequese.

- Merda! Lavei o cabelo hoje!

Na mesma noite, o povoado tirou a vida de pai e filho. Alheio aos caprichos do destino, Tesouro revirou os bolsos do Gordo e desceu da viatura colocando seu relógio de pulso e enxugando os cantos da boca com os dedos. Retornaria para a cabeça de porco. Queria, ao menos, passar água na boca. Talvez até tivesse tempo para um banho, quando poderia esfregar sabão de coco pelo resto do corpo de silicone automobilístico, para tirar o cheiro de PM. No entanto, na esquina da Avenida Passos com a Rua Luís de Camões, ouviu o característico som de uma cirurgia bem feita:

- Quanto que é?

Nesse instante, pensou:

- Nunca vou ter paz.

Mas o que disse foi:

- Cinco reais.

Tesouro tinha razão. Nem ela, ele ou qualquer outro jamais teria paz. Não aqui. Nem em outro lugar.

Do outro lado da cidade, um carro preto de último modelo trocava de faixa perigosamente no contorno da Lagoa Rodrigo de Freitas. Ao volante, um caipira que ouviu na Rádio Tupi o Boston Medical Group anunciar a cura da impotência e acreditou na propaganda. Realmente, a ciência fez milagres e as coisas voltaram a funcionar. Então, ele veio em férias para o povoado do Rio de Janeiro, onde não faltariam oportunidades para pôr toda ciência à prova.

- Mas essa cidade é mesmo bonita!

Ele disse. Cristiane olhou para a Lagoa:

- Você tinha que conhecer o esgoto.

As ruas são engarrafadas. Foram felizes apenas pelos vinte e três minutos de trânsito. A vernissage da Glória foi um saco.

*** Muito obrigado a quem compareceu, retuitou, compartilhou e indicou o lançamento do livro. Deu tudo certo! Quem não pôde ir pode adquiri-lo aqui, ou me mandando e-mail. Três contos do livro se classificaram para o concurso literário da Câmara Municipal de Caçapava do Sul. Por isso, agora em Maio estarei na Feira de Livro do Rio Grande do Sul (essa que o Gabriel, o Pensador, cobrou 170 mil reais pra participar), e dia 10 recebo na Câmara minha menção honrosa. Aliás, nossa, leitor! =)

O texto "O Último Adeus de Regininha" está entre os melhores desse site. Do lado direito há uma coluna que permite que o público escolha o melhor. Faz essa gentileza?


Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio.
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