life on marx

Contos, crônicas, contos, contos....

Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio

Aniversário Feliz

Nessa data querida muitas felicidade, muitos anos de vida.


tumblr_l5hetvCmZK1qz6f9yo1_500.jpg No início é só boquete e pizza de frango com catupiry. Depois, começam as contas de telefone e os bobs no cabelo. Por isso que as amantes nunca se aposentam. As esposas se acomodam nos sofás com bobs no cabelo o dia inteirinho e as amantes estão sempre lindas, nas quatro horas por semana que passamos com elas. Eu não. Aprendi minha lição, depois de algumas repetições. Estou fora dessa. Não caso mais, não traio mais. Agora sigo sozinho. Quando preciso de companhia, eu pago. É justo.

A dona Soraya transformou o apartamento dela, cinco quartos, em prostíbulo. Não sei se é Soraya com "i" ou "y", mas deve ser com "y", porque prostituta adora duas coisas: dinheiro e "y". Mais dinheiro do que "y", como todos nós. Gosto de lá, é um ambiente familiar. Como dona Soraya paga mal às meninas, elas se cansam da coisa facilmente e a rotatividade é boa, sempre tem gente nova. Realmente gosto de lá.

Outro dia a solidão apertou, sei lá porquê. Dona Soraya me recebeu bem, como sempre. Ofereceu café. Recusei. Prostitutas não sabem lavar louça nem fazer café. Soubessem, seriam garçonetes.

- O que tem de novidade aí, dona Soraya?

Perguntei, como se ela vendesse bugiganga em um camelô no Largo da Carioca. Era bem por aí mesmo.

- Uma coisa que você vai adorar! Moema! Ela chegou do Mato Grosso essa semana.

Lambi os beiços e estalei a lingua na frente da velha, mas no fundo não fiquei muito contente. Imaginei uma índia analfabeta e triste, com o peito caindo nas coxas. Ledo engano. Moema era mais branca que a parede, cheia de sardas, toda ruivinha, da cortina ao carpete, como eu viria a descobrir dali instantes. Dona Soraya que deve ter inventado esse nome ridículo. Moema devia se chamar Alice, Maria Fernanda, Eduarda, sei lá, nome de burguês. Filha de fazendeiro, fugiu de casa para tentar a sorte na cidade grande, mas deu azar. Não queria fazer Direito na PUC, como o pai obrigava. Queria fazer Comunicação na UFF e acabou fazendo Fisioterapia no prostíbulo. Isso tudo eu deduzi, não tive tempo de perguntar. Moema não queria saber de papo, foi logo me fazendo carinho no cabelo e me chamando de "meu amor".

- Calma!

Eu disse. Nunca me imaginei dizendo isso para uma prostituta. Até porque elas são pagas por hora, não por encomenda. Na maioria das vezes.

- É meu aniversário!

Completei. Moema começou a fazer as coisas com mais capricho, mas com a mesma pressa. Ela terminou de arrancar a roupa e posicionou-se para me receber. E me recebeu muito bem: uma faca quente perfurando um tablete de Doriana. Gostei da minha própria metáfora e acabei empregando mais força no esbelto corpo da menina. Então ela bateu com a testa na cabeceira da cama e gemeu. Gostei do que vi. Fiz de novo, fingindo novamente que foi sem querer. Ela repetiu o delicioso gemido metogrossense. Então, repeti o procedimento várias outras vezes, em seqüência. Ela sempre gemendo, cada vez mais. Gritando, até. Não só a testa, mas a cabeça inteira de encontro à cabeceira de imbuia. Os gritos pareciam reais, mas prostituta está sempre fingindo. (Não peça conselhos a elas!). Continuei, empregando mais força, até que reparei no estrago: aquela cabeceira não ia servir para mais nada.

O quarto era sangue para todos os lados. Sangue e alguns pedaços, não sei de quê. Moema estava meio sem cabeça, inerte. Saí de dentro dela e corri para dentro das calças. Deixei vinte reais em cima da cama para ajudar a pagar o funeral, porque o desgraçado do fazendeiro não ia querer dar um tostão. Saí do quarto e disse "até breve, dona Soraya".

Não era meu aniversário. Sempre digo que é, porque as meninas se esforçam mais, não sei bem porquê. O Freud ou um desses caras deve saber. De verdade, nasci em dezembro. Sou do mesmo signo que Jesus Cristo.


Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio.
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