life on marx

Contos, crônicas, contos, contos....

Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio

Larissa, Amor e Sorte

Essa história é verídica. Aconteceu com a amiga de um amigo meu. Procura-se Marco desesperadamente.


realidades.jpg Larissa media um metro e meio de altura, mas estava à altura de fazer a felicidade de qualquer homem. Ainda assim, não fazia, já há quatro anos. Não por inaptidão para amar. Ao contrário, Larissa não apenas estava apta para o amor, como estava, em verdade, ávida pelo amor. Talvez por isso, na umidade de sua ansiedade, o amor lhe escorregasse entre seus dedos finos e ágeis, com as extremidades coloridas de vermelho ivete. Até determinada sexta-feira, porque a sexta-feira é o habitat natural do amor.

Naquela sexta-feira, como nas últimas cento e cinqüenta e seis sextas-feiras, além das unhas encarnadas, Larissa escalou um salto realmente alto e deslizou para dentro de um vestido cujo comprimento media um dedo além do limite da decência. Mas um dedo pequenino. A quem interessar possa, Larissa alegava que os passeios de sexta-feira não intencionavam mais do que diversão entre amigos. O que não impedia que Larissa mantivesse a depilação em dia para essas ocasiões. Como a raposa, que em meio a suas tentativas frustradas, desdenha das uvas alegadamente verdes.

As uvas não apenas amadureceram, como caíram da parreira, bem na cabeça laqueada de Larissa - a mulher que anseia por um amor correspondido pode chegar ao extremo de passar laquê no cabelo. As uvas daquela sexta-feira chamavam-se Marco. Trata-se de um rapaz de dentes saudáveis e sem caspa no cabelo. Dono de um corpo esculpido zelosamente ao longo de um metro e oitenta de altura, portanto, trinta centímetros - uma régua escolar - a mais que Larissa, cujo corpo também tinha proporções bem distribuídas para a sua idade. De fato, bastou esbarrarem-se e Larissa, talvez aturdida pelo encontrão e com a vista ofuscada pela alvura indecente dos caninos de Marco, sentiu-se mais bonita. Toda mulher, por mais tenebrosa que seja, torna-se instantaneamente linda em duas únicas situações: dizendo adeus ou sentindo-se bonita. Larissa não disse adeus. Pelo contrário:

- Oi!

E Marco, cujo cheiro de Aqua Velva desmobilizava qualquer passeata, deu o passo seguinte:

- Oi. Desculpa pelo esbarrão. Deixa eu te pagar uma bebida?

Mas Larissa nada disse. Para falar, um ser humano precisa espirar o ar pela boca. Larissa não tinha mais ar. Foi Marco quem completou o hiato, acrescentado à fala um gesto de mão, que objetivava mostrar à mocinha a relva esverdeada dentro de seu copo translúcido:

- Você bebe o que? Mojito?

Só então Larissa saiu do choque:

- Tá brincando! É meu drinque favorito!

Foi assim que um começou a vestir a máscara do desejo do outro. Dali trinta e dois minutos e três Mojitos, descobriram-se melhores amigos desde a infância. Viram os mesmos seriados, diziam as mesmas gírias, gostavam dos mesmos filmes e, mais importante do que isso, desgostavam dos mesmos filmes. O ex-Titãs favorito de ambos era o Nando Reis, o que sustenta qualquer relacionamento. Ambos preferiam Caetano a Gil, ambos preferiam Bethânia a Gal. Foram feitos um para o outro, um para esbarrar no outro, um para encaixar no outro e dar início a uma paixão que tinha tudo pare se prolongar além da morte, perpetuada nos retratos envelhecidos em Instagram, pendurados na parede da sala dos seus netos míopes.

Marco reuniu toda a coragem que encontrou no fundo do terceiro copo de Mojito e preencheu o espaço que havia entre seu corpo e o corpo de Larissa. Ela fechou os olhos. Ele inclinou o pescoço. Emendaram-se, então, um no outro, em um beijo que só encontrou seu fim depois de remover o chão que havia debaixo deles. Depois desse beijo, sucederam-se outros beijos cataclísmicos, com tremores de terra, sinos badalando, meteoros decaindo e os demais clichês que o amor impõe. Depois desses beijos, Larissa e Marco percorreram rigorosamente os mesmos diálogos que já haviam percorrido antes, mas agora de uma posição diferente, da posição de quem ama, de mãos dadas, carícias correspondidas e beijos espargidos.

Dali outros três Mojitos, agora já compartilhados no mesmo copo, Marco mencionou os seus elepês dos Beatles, destilando terceiras intenções. As mensagens na capa de Sgt. Peppers e as pistas sobre o suposto falecimento de Paul McCartney nas letras da placa do fusca estacionado em Abbey Road eram apreensíveis apenas para quem as visse pessoalmente, com o disco em mãos. Naquele instante, ainda que Marco convidasse Larissa para passear no inferno, ela aceitaria de pronto. Mas, como a proposta velada era para passearem em seu apartamento, Larissa se viu obrigada, quase que por um instinto social, a pestanejar. Ou a fingir que pestanejava, uma vez que, no íntimo, seu útero transbordava desejo de conhecer os elepês dos Beatles pessoalmente. Assim, pestanejou elegantemente, mas não conseguiu disfarçar a efusividade do seu "sim" quando ele emergiu de sua hipófise.

Os eventos seguintes transcorreram em harmonia tão desconcertante, que foram praticamente suficientes para atestar a existência de um deus, regendo todo esse universo, com sua batuta e seus cabelos desgrenhados. Marco deixou uma nota sobre o balcão e não exigiu o troco. Deslizaram para dentro de um coupé francês prateado e com cheiro de plástico no interior. O coupé, por sua vez, deslizou pela orla do Rio de Janeiro, enquanto os dedos da mão direita de Marco deslizavam pela orla da perna esquerda de Larissa - o coupé francês era hidramático. Um arrepio gostoso percorria a espinha da moça, comprimida contra o confortável banco de couro que a abraçava.

- Graças a Deus me depilei!

Era só o que Larissa pensava. As expectativas de uma mulher são mensuráveis através do estado de sua depilação. Marco também tinha seus pensamentos, muitos impublicáveis, que não cessaram quando o automóvel embicou na entrada subterrânea do edifício no Leblon. O jovem bem sucedido morava sozinho no bairro mais caro do Rio de Janeiro. Era um confortável apartamento de solteiro decorado com móveis da Tok & Stok, pagos através da fatura de um cartão platinum, com destaque para o toca-discos e a cama king size. Havia uma garrafa de vinho na geladeira e por um segundo Larissa desconfiou que Marco fosse um sociopata perigoso. Mas suas suspeitas cederam quando ele começou com a massagem no pescoço, ao som dos primeiros acordes de George Harrison em Within You Without You. Não por acaso, Marco colocou o Sgt. Peppers no lado B.

As cinco horas seguintes integraram a noite de amor mais incrível que os dois já haviam experimentado na vida real. Depois, adormeceram abraçados, com os corpos entregues um ao outro, entrelaçados por cima das molas ensacadas individualmente através do hábil trabalho de operários asiáticos em navios de escravos.

O mais incrível daquela noite de sonho era sua inegável realidade, atestada pela manhã seguinte. O papel das manhãs seguintes é atestar a realidade das noites anteriores. Mas aquela manhã seguinte parecia tentada a seguir o fluxo oposto. Larissa despertou com o cheiro de Aqua Velva acariciando seu nariz, que era a única parte do seu corpo não fagocitada pelo edredom. Abriu os olhos com uma dificuldade imposta pelo sono e ampliada pelos dentes brancos do homem amado. Marco estava tão bem barbeado quanto na noite anterior, só que mais bem vestido. Com sua voz de camurça, ronronou no ouvido da amada:

- Bom dia, meu amor.

Larissa não quis responder para que Marco não sentisse seu hálito de Aqua Velva elevada a menos um. Sentiu vontade de chafurdar no edredom para que ele também não visse suas remelas e olheiras. No entanto, Marco tinha um olhar compassivo e prosseguiu, respeitando o silêncio de Larissa:

- Olha, eu preciso ir trabalhar. Mas fica à vontade aqui! Dorme o quanto você quiser, tá bem? Tem comida na geladeira e uma escova de dentes fechada no armário do banheiro. É azul, mas pode usar! Fica à vontade pra usar o que você quiser, na verdade. O controle da tv tá na primeira gaveta, sim? Na hora que você for sair é só bater a porta que ela tranca.

Ela assentiu com a cabeça. Marco sorriu, evidenciando em seu rosto covinhas com design italiano.

- Adorei a noite.

Completou, encostando seus lábios nos lábios de Larissa, que quase desmaiou. Afastou-se da cama e se perdeu na cidade, enquanto a bela, novamente, adormecia.

A cena de cinema, Larissa saindo da cama vestindo apenas calcinha e camisa de botão, se deu dali três horas. O apartamento tinha o piso revestido de tábuas corridas que estalavam causando eco nos espaços vazios. Nos vastos corredores, encontrou o caminho até a geladeira duplex de cor inox, entupida de embalagens e alimentos multicoloridos. De lá, retirou uma caixa de iogurte, de onde se permitiu beber direto do gargalo, para completar a seqüência de filme que sua vida havia se tornado há doze horas.

Com a fome saciada, Larissa tratou de resolver outras questões. Sobre isso, há que se esclarecer algo importante. Larissa e todas as mulheres fazem uma coisa que Marco e todos os homens ignoram que elas façam: cocô. Exatamente essa a necessidade fisiológica que Larissa foi saciar após o desjejum. Como a maioria das mocinhas, ela só o faz em casa. No entanto, estar sozinha no apartamento e com a tranqüilidade proporcionada pela certeza de que ninguém a surpreenderia, ajudou no procedimento, que seguiu seu fluxo normalmente. Ou quase normalmente. A coisa seguiu seu fluxo natural até o momento em que a descarga foi acionada. Nesse momento, aconteceu rigorosamente nada. Larissa entrou em pânico.

Apertou o botão repetidas vezes, que continou fingindo-se de morto. Apesar da respiração ofegante, ela tentou se controlar. Reunindo uma calma incomum ao gênero, teve a brilhante idéia de encher um balde de água e se livrar dos dejetos através de uma descarga analógica, lançando a água do balde dentro do vaso sanitário. De fato, o plano era brilhante. Se falhou, foi por fatores que transcendiam a responsabilidade de Larissa. Não havia água em torneira alguma do apartamento.

A calma reunida com algum custo, rapidamente, abandonou todas as suas células. De volta à cozinha, interfonou para a portaria:

- Portaria.

- Oi. Tá sem água no meu apartamento.

- Quem tá falando? Tá limpando a caixa. A água só volta daqui seis horas.

Larissa bateu o interfone e deixou seu corpo escorrer pela parede até reencontrar o chão debaixo de si, que tinha lhe fugido desde o primeiro beijo da noite anterior. Agora, com a lembrança indigna que ela deixaria no imaculado apartamento de Marco, ele nunca mais iria querer vê-la. Ou talvez quisesse. Mas provavelmente não - era o que seus pensamentos lhe diziam.

O suor escorria pela tez cálida da menina. Enquanto sofria junto ao chão da cozinha do apartamento do homem que foi o amor da sua vida por doze horas, uma nova e desesperada idéia surgiu. Ela estava sentada de frente para um puxa-saco de trinta reais da Tok & Stok, de onde pendia uma sacolinha do mercado Zona Sul da Rua Dias Ferreira. Quando a idéia terminou de esquadrinhar-se em seus devaneios, Larissa sentiu vontade de chorar, mas isso não resolveria seu problema. Aquela sacolinha do Zona Sul resolveria.

Com a dignidade em falta, como a água, Larissa revestiu seu braço no saco de mercado e certificou-se de que não havia nenhum furo. Então, rompeu a barreira que separa os seres humanos de outros seres menos limpinhos, a barreira da superfície da água da privada. Concentrando-se em não vomitar, apesar da textura desagradável que chegava aos seus dedos finos e ágeis com as extremidades coloridas de vermelho ivete, Larissa pescou seus dejetos e, com a ajuda da outra mão, virou o saco do avesso, trazendo o conteúdo do vaso para o lado de dentro da sacola, que um dia se prestou a carregar baguettes, vinhos e Manteiga Aviação. De fato, agora também os carregava, ainda que em outro estágio de decomposição.

Agora Larissa era uma mulher no banheiro de Marco com um saco de cocô em suas mãos. Permaneceu paralisada por alguns instantes, pensando no destino que daria aos seus dejetos. A primeira vontade foi sair correndo e arremessar a sacola pela varanda. No entanto, comediu-se diante da idéia de ver os intelectuais e suas mentiras interrompidas pela chuva de cocô na Pizzaria Guanabara. Apenas dali muito tempo concluiria que era exatamente isso que eles mereciam. Mas naquele instante não alcançou toda essa lucidez, nem podia. A lixeira da cozinha apresentou-se como opção. Mas levou em conta o cheiro que o cocô, mesmo que um cocô feminino, deixaria no apartamento. Esconder no armário ou fazê-lo descer pela pia da cozinha, entre outras opções absurdas, se apresentaram, mas foram sumariamente descartadas porque, afinal de contas, eram absurdas.

Foi dessa maneira que, dentro da concepção psicanalítica do cocô como sendo um presente, Larissa resolveu presentear a si mesma. Recolheu-se de volta para dentro do vestidinho preto de onde jamais deveria ter saído, catou sua bolsa, sua sacolinha do Zona Sul e decidiu ir embora. A adrenalina e o suor deixavam seu corpo diante da solução encontrada: levaria a sacolinha para deixar em uma lixeira pública, na rua, preferencialmente longe do apartamento de Marco. Diante da euforia do alívio, Larissa quase arruína sua sorte saindo do apartamento sem deixar ao menos um bilhete para Marco. Já com a porta aberta, resolve voltar, deixa as coisas em cima da mesa e escreve uma nota no bloco que ali jazia:

"Marco, Adorei a noite! Primeira de muitas? Me liga: xxxx-5034! Beijo, Larissa".

Lépida, abandona a caneta, atravessa sua bolsinha a tiracolo, dirige-se à entrada e bate a porta atrás de si, com a certeza de que a vida não é tão árida quanto pensava antes de notar que Marco era real. Certezas não existem. Antes de chegar ao elevador, Larissa se dá conta da nova aridez da vida, representada pela sacolinha esquecida em cima da mesa, ao lado do bilhete.

Lançou a bolsinha ao chão, rangeu os dentes, descabelou-se, investiu contra a porta, consciente da inutilidade de seu desespero. Pensou em chamar um chaveiro, o porteiro, a polícia, os bombeiros, o Ibama, sua melhor amiga... Mas sabia que nada nem ninguém seria capaz de reverter sua sorte. Sentou no chão e chorou por trinta e dois minutos, desejando três Mojitos.

Por fim, resignou-se e deixou para trás o prédio e o amor. Caminhou errante pelas ruas do Leblon no caminho para o ponto do 584. Os olhares dos transeuntes censuravam apenas seu vestido, que não era assinado por nenhum estilista homossexual, suas unhas já descascando e seu salto realmente alto, inadequado para o dia. No entanto, a crueldade que respingava desses olhares perfurava o corpo de Larissa, como se todos no Leblon soubessem de sua ingrata sorte no amor. Como se ninguém no Leblon tivesse suas sacolinhas de merda esquecidas em casa.

Quando o ônibus despontou no horizonte, Larissa pensava em suicídio. Pensaria novamente, dali algumas horas, quando o celular tocasse insistentemente. Larissa não atendeu, jamais. Trocou de número na segunda-feira seguinte. Tampouco se suicidou. Afinal, daqui quatro dias desponta uma nova sexta-feira e suas verdes uvas.


Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio.
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