life on marx

Contos, crônicas, contos, contos....

Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio

Mentira ou Conseqüência

A mulher que nunca mentia. Nunca.


womanmask4.jpg Mônica não sabia mentir. Mas ela não é uma daquelas pessoas que, para fugir de um compromisso, não sabe inventar uma dor de cabeça; acaba dizendo que um pneu furou e o cara que se ofereceu para ajudar a trocar era procurado pela polícia e então chegou o FBI e... Não. Mônica não sabia mentir e simplesmente não mentia, da maneira mais difícil: dizendo a verdade.

Quando começamos a namorar, achei isso muito estranho. Por mais que não gostemos, a mentira faz parte da espécie humana. Então, fez parte de todos os meus relacionamentos amorosos, já que todos eles foram com membros da espécie humana. Mas o que Mônica pedia era apenas sinceridade. Um fetiche estranho, mas aceitável. Aceitei e acabei me acostumando mais rápido do que esperava. Não sem algumas situações inusitadas primeiro. Logo nos primeiros meses de namoro, quando voltamos da primeira viagem que fizemos juntos, sua mãe pediu para ver as fotos, ao passo que Mônica respondeu:

- Estão na câmera. Quando eu passar para o computador te mostro, mamãe.

Sua mãe, no entanto, insistiu:

- Não tem problema, eu vejo na câmera mesmo.

Pensei que Mônica diria que a câmera estava sem pilhas ou qualquer desculpa, mas não:

- É que em algumas fotos eu e o Roberto estamos pelados. É melhor a senhora esperar eu passar para o computador, mamãe.

Assim, com essa cara de pau. Minha vontade era enfiar a cabeça na terra e fugir do olhar de reprovação da minha sogra a qualquer custo. Mas ao contrário do que eu esperava, a velha respondeu:

- Tudo bem.

E ficou por isso mesmo. Nessa placidez. Assim, aos pouquinhos, fui me acostumando. Sabendo lidar com essa falha de caráter, a sinceridade, a situação toda era até bem agradável. Por mais que, eventualmente, eu ouvisse o que não estava disposto a ouvir, sempre sabia que Mônica estava sendo sincera comigo. Com o tempo, o relacionamento fez com que eu me sentisse mais seguro do que nunca. Afinal, minha mulher não mentia! Se ela elogiava meu cabelo, minha camisa ou meu desempenho na cama, era verdade. E ela elogiava! Eventualmente dizia que minha macarronada estava uma porcaria, ou que minha massagem era a sexta melhor massagem que ela já recebeu na vida, mas dos males era o menor.

Tínhamos tudo para dar certo. Os sentimentos evoluíam rapidamente, não havia intrigas ou perda de tempo: eram sempre verdades. Até determinada sexta-feira em que, depois do trabalho, passei na locadora e liguei para ela:

- Mônica?

- Oi.

- Oi, amor. Estou na locadora. O que você quer assistir hoje? Comédia, drama, suspense...? Me dá uma dica.

- Na verdade tanto faz, Roberto. Não te amo mais. Estou só esperando você chegar em casa para terminar com você.

Aluguei um filme para ver sozinho. Aproveitei e comprei logo comida congelada... Mônica se foi. E sabe o que é irônico? A desgraçada é corretora imobiliária.


Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio.
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