life on marx

Contos, crônicas, contos, contos....

Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio

Meu Taco e Maria Helena

Diolindo, você já é um vencedor.


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Tem duas coisas que eu amo nesse mundo: a sinuca e a Maria Helena. Só isso. Nem minha mãe eu amo, porque ela me largou no Dispensário dos Pobres do Perpétuo Socorro quando eu tinha alguns dias de vida. As freiras sempre me diziam:

- Diolindo, você já é um vencedor. Só de ter sobrevivido à sua mãe...

É bem por aí mesmo, já sou um vencedor só de ter sobrevivido. A única coisa que me deixa triste é saber que tem a tal genética e que um pouco da monstruosidade da minha mãe passou para mim. Mas tenho fé, aprendi no Dispensário, tenho certeza de que puxei mais ao meu pai, que não tenho idéia de quem seja, mas torço para que seja um cientista bem inteligente. Seja como for, sempre repito de mim para mim:

- Diolindo, você já é um vencedor.

Repito em especial quando perco na sinuca, que amo tanto quanto Maria Helena. Nem mais nem menos. Tanto quanto. Mas isso não é suficiente para ela, que vivia perguntando quando ainda falava comigo:

- Que é que você ama mais, Diolindo? Eu ou a sinuca?

Eu sou um homem de palavra, não sou dessas bichas que muda de idéia todo ano:

- Amo igual, Maria Helena. Amo igual, já te disse.

Não foi suficiente e ela foi embora. Acho que não foi só por isso, mas sem dúvida isso pesou. Maria Helena sempre foi egocêntrica, sempre quis que eu a amasse mais que a sinuca. Não dá. Amo igual. Igual na média. Às vezes mais, às vezes menos, porque é um amor incompatível. Maria Helena odeia que eu jogue sinuca, mas é assim que eu ganho a vida. Então, quando ela veio morar aqui no barraco, quase não conseguia treinar. Não sei se por isso ou se por macumba dela, eu nunca ganhava uma partida quando ela assistia. Às vezes a deixava assistir mesmo sendo contra. Acho que devia ser proibido que mulher entrasse em lugar que tem jogo de sinuca, mas ainda assim eu deixava Maria Helena ir, ou não tinha jogo com ela depois do jogo no bar... Maria Helena é fogo.

Mas nessas ocasiões eu sempre perdia. Cheguei até a pensar em trocar o Juvenal, agora vê. Ele é meu taco e também meu melhor amigo e eu pensando em trocar! Batizei o taco de Juvenal em homenagem ao diácono do Dispensário no ano da minha primeira - e única - comunhão. Meu nome mesmo, Diolindo, é em homenagem ao padre do Dispensário, mas aí não fui eu quem escolhi, foram as freiras. Só escolhi o nome do Juvenal e olhe lá. Escolhi muito do ressabiado. Sempre achei esquisitos esses homens que dão nome ao próprio pau. Tudo bem que Juvenal não é um pau, é um taco, mas pensei duas vezes. Esses homens que dão nome para o próprio pau, isso é criação torta. É homem que a mãe dava Nescau na mamadeira e ficou a um pulo de virar bicha. E dar pulo é bem coisa de bicha mesmo. Não é para mim. Eu jogo sinuca.

Jogando sinuca eu pago o aluguel. Agora, que voltei a ganhar. Mas sinto uma falta danada da Maria Helena, mesmo que o aluguel estivesse atrasado. Continuo amando a desgraçada mesmo depois que ela me largou. Amo tanto quanto a sinuca, mesmo a sinuca não podendo me largar, mas Maria Helena não reconhece isso.

Quando ela morava aqui no barraco, eu rezava todo dia para ver se voltava a ganhar na sinuca. Agora que ela se foi e eu tenho ganhado, rezo todo dia para ela voltar. Eu vou vivendo assim, pedindo sempre a Deus, mas mudando o pedido de vez em quando. E Deus é sacana comigo desde o tempo de Dispensário. No ano em que eu rezava para virar jogador de futebol, quebrei a perna. Aí que o diácono me deu o Juvenal de presente. Diácono é sempre assim, liberal, progressista, com boné do MST.

Mas agora vê se Deus é ou não é sacana comigo. Apareci na Sinuca do Batata depois de muito tempo, que é para ver se os trouxas esquecem que eu sei jogar e botam dinheiro comigo na mesa. E vinha dando certo, eu vinha perdendo todas, porque no início a gente tem que fazer assim mesmo. Passa umas três horas perdendo de dez em dez reais, mas jogando devagarzinho, que é para não perder muito. Depois que já tinha apanhado mais que bife de pensão, eu e o Juvenal estávamos secos para matar umas bolas, mostrar o jogo mesmo. Aí que é hora de apostar alto. E aquele bando de homem trouxa, que passou três horas sambando na tua cara, acha que vai ganhar de novo e aposta a grana alta. Eu tenho certeza de que esses homens também dão nome ao próprio pau, porque todos têm cara de quem bebeu Nescau na mamadeira.

Então começamos, eu e o Juvenal. Acho que nem deviam permitir que sinuca fosse esporte, porque se eu quiser ganho todas. Comecei de cara matando a vermelhinha. Ouvi o barulhinho gostoso dela deslizando para dentro do buraco e pensei:

- Agora que fiz um ponto esse otário não joga mais. A amarelinha me sorriu, mas eu tinha uma tacada extra porque matei a da vez. Então fui na marronzinha. Soltei o braço no Juvenal, porque ela estava longe. Antes que a branquinha encostasse nela, senti que ela cairia. E caiu. Juvenal também sorriu. Olhei de rabo de olho para o sujeito do outro lado da mesa.

- Cadê o sorriso agora, idiota?

Pensei. Mas fiz cara de surpreso com minha própria sorte, porque se ele percebe que era truque o tempo todo, sairia briga. Homem bobo não sabe perder.

- Concentra.

Pensei olhando para a amarelinha. Agora ela morria. Dei na cara dela, deslizou de lado, meio torta, caiu. Era o jogo perfeito. Tinha o que? Sete pontos já? Molezinha.

A verde caía fácil agora, mas a azul dava cinco e eu estava com a macaca. Tinha que ser de casquinha. Jogada perigosa. Juntei os calcanhares, segurei Juvenal com a mão direita pela extremidade do cabo, mão esquerda pertinho da branca para a mira sair perfeita. Eu estava assim, com as costas arqueadas, debruçado na mesa, prestes a soltar o braço no Juvenal. Eis que Maria Helena entra na Sinuca do Batata.

Juvenal espirra, fazendo aquele barulho tenebroso de fiasco. Azulzinha mal se mexe, mas a branquinha suicida. O idiotinha do Nescau respira aliviado. Na hora me lembrei do que me fez sumir da Sinuca do Batata. Maria Helena morava no Santo Amaro, ali pertinho. Ela veio andando para a minha mesa e eu rezando:

- Deus, seu sacana, tudo bem que eu pedi pra ela voltar, mas tinha que ser hoje? Tinha que ser agora? Faz passar direto, pelo amor...!

Maria Helena chega do meu lado e diz, com aquela boca que eu amo tanto quanto a sinuca:

- Bom te ver, Diolindo. Eu tava com saudade. Já não liga mais pra mim...

Olhei bem na cara do homem que sairia dali levando meu dinheiro. Ele devia chamar o próprio pau de Lincoln, Bráulio, Júnior, Joaquim, Jairzinho, sei lá.

- Filho da puta.

Pensei. Mas o que fiz foi pegar Maria Helena pelo braço e me mandar dali, repetindo pelo caminho:

- Diolindo, você já é um vencedor.

E dane-se o aluguel desse mês.

*** Ilustração: Moana Moraes, que também tem um espaço aqui no Obvious


Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio.
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