life on marx

Contos, crônicas, contos, contos....

Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio

3 de Agosto

Não quero matar. Ficaria feliz em não morrer. Mas eu queria agradar. Isso eu queria. Sempre quis. Então resolvi tomar a iniciativa.


barata morta.jpg A paranóia começou enquanto a erva ainda acabava. Eu devia ter levado isso em conta, era um sinal. Mas não.

- Vamos ficar sem.

Foi tudo que ela disse. Não me obrigou a ir comprar, mas era outro daqueles momentos na vida em que as pessoas esperam que você faça aquilo que tem de fazer. As pessoas sempre esperam. Meu chefe faz uma cara parecida quando faltam cinco minutos para o meu horário acabar e ainda há muito trabalho a fazer. Ela mesma faz essa cara quando aparece uma barata em casa. Costuma ser verão e eu odeio o verão. Ela não abre a boca, mas sua cara diz:

- Você não vai matar?

Não quero matar. Ficaria feliz em não morrer. Mas eu queria agradar. Isso eu queria. Sempre quis. Então resolvi tomar a iniciativa. Mato a barata e ela diz:

- Pobre baratinha!

Maldita! Mas eu acho que a amo. Não tomei a iniciativa assim e pronto. Sofri primeiro. Sofri para decidir se eu seria mais fraco por não ter coragem de ir comprar drogas para ela, ou mais fraco por ir comprar drogas para ela. Meu vício mesmo era ela. O amor é o que importa, as drogas são o de menos.

Antes era fácil. O Banana vendia. Ele não era traficante nem nada. O Banana era um menino bom, até meio banana, por isso o apelido. Estudava Design, artes gráficas, sei lá, um negócio desses, mas não desenhava nem boneco de palitinhos. Quer dizer, talvez no contexto certo, ele desenhasse palitinhos modernistas. Talvez, no contexto certo, o Banana fosse um artista plástico podre de rico na Suécia, com status de gênio. Mas não, ele era uma bicha mimada que estudava no Senai e vendia maconha, porque estava difícil arrumar estágio.

Era chupeta mesmo. Eu nem atravessava a roleta do metrô. Depositava quarenta na conta do Banana e a gente se encontrava na São Francisco Xavier, porque a casa dele é na esquina da estação. Ele embrulhava para presente, então não tinha bandeira alguma. Encontrávamos na roleta, ele tirava um saquinho de presente do bolso, me cumprimentava e dizia:

- Manda um beijo pra Preta!

Era o código que confirmava o pedido: maconha. Com esse requinte todo, acho que o Banana era gay. Era não, é. Ele não está morto, só está preso.

Isso foi quando o negócio começou a se profissionalizar. No início era uma velhinha, que repassava para ele em uma casa humilde no Irajá, como forma de engrossar a aposentadoria. Ela servia café e bolo de aipim. Ele comprava por trinta e revendia por quarenta. Uma merreca, que não chamaria atenção alguma se ele continuasse voando abaixo do radar. Mas então veio o chapéu. Tenho certeza de que o Banana é gay, com aquele chapéu e os embrulhos de presente. Mas os melhores bandidos também são, por isso se refastelam uns com os outros na prisão. Pobre Banana.

Quando lucrar dez pratas por pacote ficou pouco, o Banana assumiu o papel de traficante da galera mesmo e passou a usar um chapéu de feltro ridículo. Não sei o que se passa na cabeça dos traficantes para além do chapéu. Bandeiraço! Foi o chapéu que o entregou. Belo dia a senhora Banana (não sei o nome da mãe dele) devia estar lá, coitada, voltando com as compras do Mundial, colocando o suco de caju na geladeira, quando toca o telefone:

- O seu filho foi preso por tráfico de drogas.

A velha não deve ter entendido nada. Mas com isso, quem se deu mal de verdade fomos nós, que ficamos sem fornecedor. O Banana e a velha também, mas eles não ficaram na situação que eu fiquei.

Ela disse apenas:

- Vamos ficar sem.

E me olhou como quem espera que eu mate a barata. Ninguém sabe o quanto esse namoro é importante para mim. No início, a gente só se via às quartas-feiras na Casa da Matriz. Nem sempre rolava. Às vezes ela dizia:

- Eu tô com uma pessoa.

Isso me deixava louco, tentando imaginar se essa pessoa era homem ou mulher. De homem eu sentia ciúme, mas de mulher eu achava graça. Até me apaixonava um pouquinho mais. Era assim toda quarta-feira. Uma loucura, durante meses. Até que me dei bem durante uma seqüência de semanas. Nunca mais ouvi:

- Eu tô com uma pessoa.

E um dia eu tomei coragem para perguntar:

- Você sabe qual a festa de quinta-feira?

Desse dia em diante, passamos a nos ver todo dia. Um namoro lindo. Ela só foi me dizer como se chamava meses depois. É amor mesmo, de apresentar para os pais e tudo. Já tinha o que, um ano? Claro que eu iria lá comprar, mesmo que lá fosse a favela. Não, comunidade.

Todo mundo tinha que se virar agora que o Banana não estava mais por perto. Os mais viciados foram os primeiros a buscar outros caminhos. Um deles, aqui do prédio, me passou as referências. Segundo ele, seria bem tranqüilo. Quer dizer, havia uma ladeira gigantesca para ser vencida, mas ainda em uma região urbanizada. A comunidade só começava no fim da ladeira e os homens vendiam bem por ali. Ao chegar lá, segundo me ensinou, era atravessar a quadra de esportes, virar a direita e subir a escadinha.

É um absurdo o que os viciados precisam passar nesse país. Pior que nem isso eu era, mas estava prestes a vencer uma ladeira, atravessar a quadra de esportes, virar a direita e subir a escadinha. Tudo por amor. Na escadinha é que os negócios se processavam. Acima dos primeiros degraus, o olheiro. Um sujeito cuja profissão é olhar quem vai subir, para garantir a segurança dos comerciantes lá em cima. Há toda uma hierarquia nesses lugares, olheiro, fogueteiro, vapor, soldado, dono, gerente, não entendo nada disso. Estudo engenharia na UFRJ.

Resolvi deixar a carteira e o celular em casa. Coloquei uma nota de cinqüenta no bolso e fui. Perto da hora do almoço, porque as crianças estariam saindo da escola. As ruas estariam cheias e, na minha cabeça, isso inibiria um tiroteio. Mas não podia levar os cinqüenta, se queria comprar quarenta. Traficante não curte dar troco. Para facilitar a vida, eles já deixam as drogas distribuídas em pequenos saquinhos transparentes e agrupam esses saquinhos em sacolas maiores, onde grampeiam notas: dois, cinco, dez, vinte. Assim, para quem está vendendo, basta comparar a nota que recebe com a nota grampeada na sacola de onde fornece a mercadoria. Essa gente é esperta mesmo. Foi assim que o vizinho me ensinou. Aprendi embasbacado e me lembrei da lição antes de subir: tinha de trocar o dinheiro.

Entrei em um botequim de onde podia contemplar a ladeira.

- Uma coca e uma coxinha, faz favor.

A coxinha estava gelada. Ao menos a coca-cola também. Comi devagar. No fundo, não queria subir. Aliás, mesmo no raso. Que é que a gente não faz por amor? Conseguia imaginá-la dizendo:

- Então subo eu.

Nem pensar! Engoli a coxinha, enfiei os quarenta seis reais no bolso e fui encarar a subida. O sol escorria sobre nossas cabeças. Suor, muito suor. Minhas pernas me levavam, mas eu não queria ir. Pensava em falar com os meninos, de repente fazer uma vaquinha para pagar a fiança do Banana. A mãe dele ia adorar, a gente também. Depois ela pagava tudo em maconha. Seria lindo. Mas os pensamentos voltaram ao mundo real quando um carro da polícia passou por mim. Foi quando me dei conta de que deveria temer mais aos ladrões de farda do que aos paisanos. Mamãe não suportaria o escândalo de me ver preso. Não quero nem pensar no meu pai. Sem contar nas maldades que eles poderiam perpetrar antes de me levar para a cadeia. Lembrei do Rodrigo, amigo meu que faz Direito. Acho que ele também fuma. Devia ter colocado o telefone dele no bolso, porque, fosse preso, é com ele que gastaria meu único telefonema.

Assim, nem notei quando os prédios se transformaram em barracos. Eu estava ali, diante da quadra de futebol, de um botequim e de uma borracharia. Então, favela era assim.

Pensei ter visto um sujeito de rádio na cintura e pulseira de prata, mas isso não dizia nada.

- Atravessar a quadra de esportes, virar a direita e subir a escadinha. Atravessar a quadra de esportes, virar a direita e subir a escadinha...

Tive a impressão de que todos me olhavam. Quando cheguei à escadinha, que era uma escada gigantesca em altura mas bem estreita, minha impressão se confirmou. O olheiro me gritou:

- Não tá com ferro aí não, né?

Claro que não estava, mas não conseguia dizer nada. O sujeito parecia falar outro idioma, parecia ser de outra cultura. Acho que era. Fiz que não com a cabeça, levantei a camisa para que visse minha cintura. Com a mão que segurava a pistola, ele fez o movimento para que eu subisse. Uma pistola de verdade. A primeira que eu vi fora do coldre de um policial ou segurança de banco. Alguns degraus acima havia uma espécie de mirante a direita da escada. Ele parecia pendurado por uma lógica que desafia a gravidade e a engenharia como nós as conhecemos. Era ali que outro cara estava com as sacolas.

- Da preta ou da branca, playboy?

- Da preta.

Lembrei do Banana na hora.

- De quanto que tu quer?

- De vinte.

- Apanha aí.

Ele abriu a sacola com a nota de vinte grampeada e me deixou escolher. Não sou profundo conhecedor da coisa. Peguei duas, cheirei e dispensei uma, apenas para não parecer um ignorante. Escolhi outra. Cheirei, fiz que sim com a cabeça. Tirei duas notas de vinte do bolso e entreguei ao traficante. Nisso, uma senhora, bem senhora, descia a escada com um carrinho de compras. O sujeito a interpelou:

- Oi, tia.

Para meu espanto, a velha respondeu:

- Oi, filho, tudo bem?

- Tudo certo, tia.

Tudo certo. Era hora de descer. O vizinho também tinha dito que comprar era tranqüilo mesmo, mas descer a ladeira era bandeiraço. Os policiais sabiam que, gente mais bacana descendo, tinha subido para comprar. Por isso fui meio maltrapilho, com um Reebok velho que já não dava direito no meu pé. Não levei em conta que era super desconfortável, caso precisasse correr. Mas não precisaria. Não queria precisar. Vinha descendo assim, tentando manter a cabeça ocupada, para que dali instantes, no conforto do meu sofá, eu dissesse:

- Putz, até que passou rápido.

Mas não passava. Era a única ladeira do mundo cuja descida era mais difícil que a subida. Olhei para trás e a comunidade ainda estava ali, pertinho de mim. O sol assava minha cabeça. A maconha pesava, metaforicamente, dentro da minha cueca. Não passava rápido. No GTA era tão mais fácil. Pensava nisso quando ouvi o grito:

- Pára aí, moleque!

Nunca na vida ganhei algo de gente que me gritou na rua. É sempre golpe ou problema. Ainda assim, foi instintivo, eu olhei. Era o sujeito de rádio na cintura. Pulseiras de prata e a segunda pistola de verdade que vi fora de um coldre.

- Pára aí, porra!

Tinha outro sujeito, camisa amarela listrada, um horror. Comecei a andar mais rápido, simplesmente fingi que não era comigo. Ouvi o barulho dos homens atrás de mim. Olhei de novo. Gente fardada atravessando a quadra de futebol para subir as escadas e eles dois vindo atrás de mim.

- Pára, porra! Pára!

Resolvi correr. Isso significava assumir uma contravenção, mas tentar me livrar da pena. Senti os pés deixarem o chão, um depois do outro. As pernas se sucedendo em espaços cada vez maiores. Não queria olhar para trás para não perder tempo, mas tive certeza de que conseguia correr mais rápido do que os dois brutamontes. Mas não era pique-pega, era polícia e ladrão.

Quando ouvi o tiro, não identifiquei de imediato. Todo mundo o descreve como um barulho surdo, coisa que até então não havia entendido. É um som alto, grave e seco, tão potente que, a ele segue-se um instante de silêncio absoluto. Por mais que fosse uma da tarde, aquele sol, as pessoas, os carros, foi como se a Terra estivesse parada, enquanto eu corria. Foi durante o instante de silêncio que me dei conta de que talvez fosse um tiro. Ainda demorei a me dar conta de que tinha sido em mim.

O som não voltou. Em vez disso, um súbito calor em um ponto das costas. Uma queimação profunda, ardida, do lado direito da lombar. O som voltou aos meus ouvidos quando ouvi minha cabeça batendo no chão. Senti essa dor perfeitamente, também. Com o rosto colado no chão, vi que as pessoas corriam em todas as direções, enquanto eu não conseguia me mexer. Foi aí que me lembrei da paranóia, que começou enquanto a erva ainda acabava. Ainda não descobri se morri ou se fiquei paraplégico, mas consigo vê-la dizendo:

- Pobre baratinha!


Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio.
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